quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Logística Assassina

O jornal Estadão publicou uma matéria tempos atrás, que dizia: "No Brasil, acidentes de trânsito mataram mais de 980 mil pessoas em 31 anos".

De acordo com dados do Observatório Nacional de Segurança Viária, acidentes de trânsito superam os números de homicídio no Brasil. Quase 1 milhão de mortes nas estradas, entre 1980 e 2011.

Como controlar esse genocídio nas estradas??


A Carga da Negligência  


O número de vítimas nas estradas brasileiras é o maior do mundo, e existe um personagem que atua constantemente nas cenas da morte: os caminhoneiros.

Motoristas de carga espalhados por todo Brasil se sacrificam diariamente em um serviço extremamente árduo e maçante.

Para compensar todo sacrifício que significa seu trabalho, muitos desses motoristas acabam apelando para vícios e compulsões que eles usam como válvulas de escape para filtrar suas insatisfações de ofício.

E, infelizmente, um vício em comum entre esses profissionais é o uso de drogas.

Uma pesquisa sobre o perfil de caminhoneiros indicou que cerca de 40% desses motoristas consomem bebida alcoólica, 15,2% tomam o rebite (droga que aumenta o nível de atenção no cérebro), e 8% usam outras drogas.

Esses caminhoneiros, ao fazer uso de tais entorpecentes, põem em risco não só sua própria vida, mas a de inúmeras outras. Os prejudicados pelo uso dessas drogas são essas milhares de vítimas dos acidentes intermináveis nas ruas e estradas desse país.

De acordo com o professor do Departamento de Psicobiologia da Unifesp e chefe da disciplina de Medicina e Biologia do Sono, Marco Túlio de Mello, entre 27% e 32% dos acidentes de trânsito são provocados por motoristas que dormem na direção, responsáveis também por 19% das mortes no asfalto.

Se os caminhoneiros estão comprometendo sua própria saúde e a vida de pessoas inocentes, por que eles não se adaptam ao expediente de trabalho cansativo e evitam o uso dessas drogas?

A desculpa está na demanda do mercado logístico. 

Alguns dos motivos que levam o motorista a apelar para o uso de drogas sintéticas e anfetaminas é: a pressão por entregas no prazo, o aumento da receita fiscal nas estradas e o longo percurso de exploração por parte das transportadoras. 

As empresas de transporte logístico atiram uma carga de serviço que na maioria das vezes exige que o trabalhador exceda sua jornada de trabalho, causando um considerável desgaste físico e mental. Até aí, tudo bem. Afinal, quem nunca fez hora extra e acabou tendo que ficar umas horinhas a mais no trabalho??

Mas, somando essas 'horas extras' à jornada de serviço imposta pelas empresas logísticas, temos uma tortura. 

Esses caminhoneiros acabam tendo que apelar em serviço.

Apesar do gosto pelo trabalho, os caminhoneiros de fato assumem uma vida social limitada: passam a maior parte do dia sozinhos. Isso impede que eles construam relacionamentos consistentes e duradouros, o que reduz seu grau de sociabilidade.

Caminhoneiros passam literalmente mais tempo com a bunda no encosto do caminhão (prestando atenção na movimentação do trânsito, cheirando asfalto, ouvindo barulho de motores engasgados), do que pensando e cuidando de suas próprias vidas. 

Todo esse trabalho incessante e cansativo, enquanto podiam estar junto de suas famílias.


Para os caminhoneiros, os pontos de parada são sempre os mesmos: o posto de gasolina, o hotel, o restaurante barato de estrada, a estação de entrega de carga.

Em confissão, um caminhoneiro chamado L. G. S. (nome abreviado por escolha de não identificação), afirma: “No meu caso, trabalho com carga perecível e preciso cumprir horário para não perder a mercadoria”.

Álvaro Scapini, seu colega de trabalho, diz: “Estou na estrada há 22 anos, e no começo também usava rebite e outras drogas, mas com a maturidade, descobri que minha vida é mais importante do que cumprir horários”.

Esse tal rebite aí é uma substância chamada anfetamina, que age como estimulante do sistema nervoso central e faz com que o cérebro trabalhe mais depressa e a pessoa sinta menos sonoperda de apetite e aumento da capacidade física e mental.

Mas então, qual seria uma possível solução pra estimular esses motoristas a não ingerirem entorpecentes?

Aqui no Brasil, já foi promulgada uma lei que reduz o número máximo de horas trabalhadas por motoristas de veículos pesados e de passageiros, visando garantir mais segurança aos profissionais das estradas. 

A partir dessa lei, o tempo máximo ao volante é de 10 horas diárias, sendo que a cada 4 horas dirigidas, é obrigatória uma parada de 30 minutos. No total, são 11 horas de repouso por dia. Com essa lei, cada caminhão tem 30% de redução de quilômetros rodados durante o mês, e, no tempo parado em fiscalizações e terminais de carga e descarga, o caminhoneiro deverá ser remunerado.

Silvani Silva deu seu feedback sobre essa lei: “Para nós, que somos motoristas de frotas de empresas, o horário é ótimo. Realmente estávamos necessitando deste intervalo de descanso. Acho que o fator principal desse excesso de acidentes e mortes nas estradas está relacionado diretamente com o fator do cansaço”.

É uma pena que uma lei construtiva como essa tenha demorado tanto tempo para ser implantada (é claro, estamos no Brasil). 

Somente essa lei ainda não impede o excessivo nível de stress sofrido todos os dias por caminhoneiros de todo o país. Eles ainda são explorados sim, e como. 

Link da matéria do jornal Estadão: http://goo.gl/GZru20

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