quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Arte Obscura

“O mundo não é separado entre os cegos e os não cegos. A fotografia não é exclusividade de quem pode enxergar. Nós também construímos imagens interiores”. 

Quem afirma isso é Evgen Bavcar, fotógrafo, filósofo e cineasta. Nascido na Eslovênia, Bavcar ficou cego aos 12 anos de idade em dois acidentes. Ele perdeu a visão do olho esquerdo quando foi perfurado por um galho de árvore. O olho direito foi afetado durante a explosão de um detonador de minas com o qual ele brincava. 

Em 8 meses, ele havia perdido a visão completamente. 

Por volta dos 17 anos, Bavcar conheceu a fotografia através de sua irmã, que lhe emprestou uma câmera fotográfica para que ele fotografasse uma menina do colégio por quem era apaixonado. 

Desde então, ele afirma ter descoberto uma forma de exteriorizar suas imagens interiores e comunicar-se com os outros. Sem precisar enxergar.

Bavcar vive em Paris e viaja o mundo, mostrando às pessoas que a imagem não precisa ser explicitamente visual. 

Ele afirma: “O teu horizonte é ate onde você pode ver. Se você vê com as mãos, logo o teu horizonte é até onde você pode tocar”.

Sempre causando polêmica por onde passa, Bavcar não se intimida diante daqueles que não admitem que um cego possa fotografar. Para a execução das suas fotos, ele conta com a ajuda de sua irmã, e usa técnicas desenvolvidas ao longo de anos. 

Entre algumas características do seu trabalho, destaca-se a composição da luz em contraste com ambientes totalmente escuros.

A visão é tida como um sentido necessário para que a imagem seja captada e avaliada tanto na antecedência como na conseqüência do ato fotográfico.

Mas a arte fotográfica de Evgen Bavcar é atravessada pela cegueira física do fotógrafo. Suas fotografias rompem um padrão de “visualidade concreta” relacionada à imagem. 


Em suas obras, existe outro tipo de visibilidade: uma que é ligada a seus desejos (a garota pela qual se apaixonou, por exemplo).

A fotografia, em seu surgimento, posicionava o fotógrafo como um observador agudo e isento, como se fosse um escrivão, não um poeta. 


No entanto, logo tornou-se claro que não existia apenas uma atividade simples e unitária denominada “ver” (registrada e auxiliada pelas câmeras), e sim uma “ visão fotográfica”, constituída além do sentido puro da observação.

Em suas fotografias, Bavcar reitera um papel de fantasia criada por sua imaginação. Sua cegueira não o impede de possuir uma estrutura representativa nem de sentir o ambiente em todas as suas dimensões, e o permite criar suas obras sem se fiar a concretização de uma técnica especializada. A ausência do sentido da visão física não retirou do fotógrafo o lugar da visão “ficcional” e nem devorou seu olhar.

Em Janela da Alma (2002), Bavcar afirma que não devemos falar a língua dos outros e nem utilizar o olhar dos outros, porque nesse caso existimos através do outro. É preciso tentar existir por si mesmo.



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Segue abaixo algumas de suas obras:



 
 
 

 



 





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