domingo, 17 de fevereiro de 2013

[Conto] Opção Fatal

Esse conto foi escrito como adaptação de um episódio da série 'Sherlock', onde o protagonista Sherlock Holmes e seu amigo, Watson, tentam resolver um caso de vida ou morte tendo que agir urgentemente contra um homem desequilibrado e perturbado.



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Holmes é levado, do taxi em que fora previamente sequestrado por um psicopata desiludido, para uma sala de reunião da Universidade Barts, agora vazia, ás 2h30 da madrugada.

Instantes atrás, quando sua raiva tinha se elevado e direcionou seus braços para o velho, o agarrando e bramindo vociferações e insultos, Holmes sentiu primeiro os ombros do homem sucumbirem ao aperto rígido de suas mãos, depois uma ligeira pontada em seu tríceps direito (ele associou o incômodo a um espinho de roseira no qual se ferira dias atrás), o fez notar a presença de uma agulha hipodérmica balançando em seu braço. Segundos depois, seu rosto já estava semi pálido, gotas de suor ruíam por sua testa e costeletas, e já podia se dar por inconsciente até a chegada á faculdade, 20 minutos depois.

As portas da sala foram abertas, o velho ligou as luzes por um interruptor e assim se pôde ver uma imensa mesa equipada para reuniões e conferências, bem no centro do aposento, com doze cadeiras de cada lado e mais duas nas pontas, toda ela bem iluminada, contrastando com as extremidades da sala, mais obscurecidas, cheio de armários, quadros que retratavam Barts em quase todo o campus e ao redor, e janelas verticais bem altas, que deixavam entrar uma brisa noturna carregada de odores campestres.

- Bem, o que você acha? – perguntou o homem velho. – É com você. Você é quem morrerá aqui.




- Não, não vou. – devolveu Holmes serenamente.          
- É o que todos dizem. – Podemos conversar? – sentou e indicou a cadeira defronte á Holmes.

Ele sentou-se também, e ambos ficaram analisando-se por um momento que pareceu maior do que deveria, suas faces impassíveis.

- Um pouco arriscado, não? Me levar com uns seis policiais assistindo. – Eles não são tão estúpidos. A Sra. Hudson lembrará de você.

- Chama isso de risco? Não.....isso é arriscado. – falou o velho, tirando do bolso da jaqueta branca um frasco de remédios lacrado com uma tampa de garrafa pet, contendo uma pílula transparente enchida de grânulos brancos e amarronzados. Ele depositou o frasco na mesa, entremeando os dois. – Gosto disso. Pois não entendeu ainda, entendeu?

Eles alternavam olhares para a cara um do outro, e o pequeno recipiente para pílulas continuava ali, sem que muita importância fosse dada ao seu conteúdo, pelo menos por enquanto. 

- Mas já vai entender... só tenho que fazer isto. – completou o velho, tirando outro frasco idêntico do outro bolso de sua jaqueta e pondo na mesa, sem tirar os olhos do detetive. – Não esperava isso, esperava? Você vai amar isso.

- Amar o quê? 

- Sherlock Holmes, olhe para você!! Em carne e osso. Seu site, um fã me contou sobre ele.

- Meu fã?

- Você é brilhante. É um gênio. A Ciência da Dedução. Agora, isso.... é o pensamento correto. Ca entre nós, porque as pessoas não pensam, hein? Isso não te deixa bravo? Por que as pessoas não podem apenas pensar?

- Entendo...então é um gênio também.

- Não pareço, pareço? Um cara engraçado dirigindo um taxi. Mas saberá melhor em um minuto. Há chance de ser a última coisa que saberá.

- Certo, dois frascos. Explique.

- Há um frasco bom e um frasco ruim. – iniciou o velho. Se você tomar a pílula do frasco bom, você vive. Se tomar a do ruim, você morre.

- Os dois frascos são iguais?

- Em todos os jeitos.

- E sabe qual é qual?

- Claro que sei.

- Mas eu não sei.

- Não seria um jogo se soubesse. Você é quem escolhe.

- Por que devo? Não tenho porque continuar. O que tem pra mim?

- Ainda não te contei a melhor parte. Qualquer frasco que escolher, tomo a pílula da outra. E então, juntos, tomamos nosso remédio. Não vou trapacear. A escolha é sua. Tomarei a pílula que você não tomar.

Holmes demonstrou ares de interesse.

- Não esperava isso, esperava, Sr. Holmes?

- Foi o que fez com os outros quatro que estão mortos? Os deu uma escolha?

- Agora estou te dando uma. Fique a vontade, pense um pouco. Quero o seu melhor jogo.

- Não é um jogo, é uma chance.

- Joguei quatro vezes, Holmes. E estou aqui. Não é uma chance, é um xadrez. – ele balançava seus ombros agora sem dores. – É um jogo de xadrez, com um movimento. E um sobrevivente. E esse....esse, é o movimento. – Um dos frascos foi deslizado para perto de Holmes. – Acabei de te dar o frasco bom ou o ruim? Pode escolher qualquer um.

O ambiente estava absolutamente silencioso, o único som do exterior vinha de um, ou a julgar pelo ritmo, vários louva-deus pelos jardins do campus.

- E então, Sr. Holmes? Pronto para jogar?

- Jogar o quê? É 50% de chance.

- Não está jogando com números, está jogando comigo. – Pausa. – Acabei de te dar a boa pílula, ou a má? É um blefe, ou um blefe duplo? Ou triplo?

- Ainda é só uma chance.

- Quatro pessoas? Não é uma chance.

- Sorte!

- É capacidade!! Sei como as pessoas pensam. Sei como as pessoas acham que sabem como eu penso. Consigo ver tudo como um mapa em minha mente. São todos tão estúpidos, inclusive você. Ou talvez......Deus apenas me ame.

- Mesmo assim, você é um terrível taxista. – rebateu Sherlock, juntando as mãos em um abraço e colocando-se mais a frente da cadeira. – Então, arriscou sua vida quatro vezes para matar estranhos, por quê?

- Hora de jogar.

- Eu estou jogando. É a minha vez. – Holmes coçou a barba rala. – Há espuma de barbear atrás da sua orelha esquerda, ninguém te falou isso. Sinal de que já aconteceu antes, você vive sozinho, não tem ninguém para lhe dizer. Vi de relance, no taxi, uma foto de crianças, mas havia um rasgo, onde a mãe delas foi cortada dessa foto. Se ela tivesse morrido, ainda estaria lá. A foto é antiga, mas a impressão é nova. Pensa em seus filhos, mas não pode vê-los. – O velho assumiu um semblante triste, pensativo. – Pai distante, ela levou as crianças, mas ainda as ama e isso o ainda machuca. Mas tem mais. Suas roupas, recém-lavadas, mas tudo que está usando tem o quê, três anos? Mantendo as aparências, mas não planejando. E aqui está você em uma onda de assassinatos. O que é isso?? – Holmes mirava o velho com certa fascinação. Três anos atrás, foi quando te contaram?

- Contaram o quê? – perguntou o homem idoso.

- Que é um homem morto-vivo.

- Você também é.

- Você não tem muito tempo. Estou certo? – perguntou o detetive. - O velho deu um risinho.

- Aneurisma, bem aqui. – respondeu, apontando para o lado de sua cabeça, acima da orelha direita. Qualquer suspiro, pode ser meu último.

- E porque está morrendo, matou quatro pessoas.

- Sobrevivi á quatro pessoas. É a melhor alegria que se pode ter com um aneurisma.

- Não, tem algo mais. – disse Sherlock, eriçando as sobrancelhas. Não matou quatro pessoas só porque está amargo. A amargura é um paralítico. Amor é um motivador muito mais viciante. De alguma forma, isso tem a ver com seus filhos.

- Você é bom nisso, não?

- Mas bom como?

- Quando eu morrer, meus filhos não terão muito. Taxi não dá muito dinheiro.

- Ou ser serial-killer. – acusou Holmes, frívolo.

- Ficaria surpreso.

- Surpreenda-me.

- Tenho um patrocinador.

- Tem um o quê? – quis entender Holmes.

- Por cada pessoa que morre, dinheiro é enviado aos meus filhos. Quanto mais mato, melhor eles estarão.
- Vê? É mais legal do que pensa.

- Quem patrocinaria um serial-killer com múltiplas tendências psicopatas?

- Poderia ser um grande fã seu. Não é o único que gosta de um bom assassinato. Existem outros como você, exceto que você é apenas um homem, e os outros são muito mais do que isso.

- O que quer dizer? Mais que um homem? Uma organização? O quê?

- Tem um nome que ninguém diz. E eu também não direi. Chega de papo. Hora de escolher.

- E se eu não escolher? E só ir embora?

O velho apontou uma pistola preta para Sherlock, sacada de traz da calça.

- Pode ter 50% de chance, ou eu posso atirar em sua cabeça. Curiosamente, ninguém tomou essa última opção.

- Escolherei a arma, por favor.

- Tem certeza?

- Definitivamente, a arma.

- Não quer ligar para um amigo?

- A arma. – sibilou lentamente Holmes. O velho apertou o gatilho de forma demorada, e uma pequena chama surgiu no bico da arma.

- Conheço uma arma de verdade, quando vejo uma.

- Nenhum dos outros conhecia, na verdade.

- Com certeza. Bem....isso foi muito interessante. Espero te ver no tribunal.

Holmes se levantou e foi caminhando em direção a porta, visando sair da sala.

- Antes de ir, descobriu? – O detetive parou centímetros antes da porta, de costas para o velho, que ainda estava sentado. – Qual é o frasco bom...

- Claro, brincadeira de criança.

- Qual é então? Qual teria escolhido? Só assim descobrirei se venceria você. Vamos lá, jogue o jogo!

O detetive foi em passadas lentas para pegar o primeiro frasco ao seu alcance em cima da mesa.

- Interessante. – pensou alto. Então, o que acha? – perguntou o velho, seus cabelos brancos perdendo a compostura do penteado cheio de gel, olhava sorridente para seu frasco, vazio. A pílula já se encontrava entre seus dedos. – Podemos? Sério, Sr. Holmes, o que acha? Pode me vencer?

Os dois de pé.

- Está certo o suficiente, a ponto de apostar sua vida?

De uma janela embaçada no prédio vizinho, o Dr. John Watson observava os dois homens frente a frente, e percebeu que interagiam com tensidão. Ele logo avaliou os riscos e fez uma expressão de certo desconforto, ligeiro desespero, em face que Holmes articulava com um psicopata que convivia com privação constante de afeto e qualquer tipo de empatia, a não ser por aqueles que o haviam sido tirados de sua vida, seus herdeiros, seus alicerces, seus atuais e únicos propósitos, seus filhos.

Tensão e angústia havia no ambiente.

- Tenho certeza que se entediou, não foi? Sei que sim. – O detetive escutava com atenção, e abria seu frasco. – Um homem como você, tão inteligente. Qual o sentido de se manter inteligente, se não consegue provar essa condição?

Holmes pegou a pílula e a levantou, visualizando-a demorada e minuciosamente através da luz.

- Manter o vício. – disse o velho. Mas isso é no que você é realmente viciado. Faria qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, para parar o tédio. Não está entediado agora, está? Isso não é bom? – questionou o velho homem, levando lentamente sua pílula á boca. Sherlock manteve-se parado, estupefato. Alguma excitação se originava em seu ínterim, como um cão de guarda que, mesmo de olhos fechados em seu repouso, mantém vigilância constante a ameaças em seu território. O tédio ao qual o velho homem se referia era a última coisa que rondava o local.

O “cão de guarda” dentro de Holmes abriu os olhos.

No instante em que a pílula encostava no lábio inferior de Sherlock, sua mão tremeu, força de algum impacto. Seu nariz e sua testa estavam salpicados de um sangue vermelho escuro, quase da cor do vinho. Um estouro retumbou pelo aposento, gerando um eco considerável pela universidade e provavelmente pelas ruas que cerceavam o quarteirão. O detetive piscou uma vez, depois mais duas, e o corpo que tivera á sua frente pelos últimos minutos, agora sucumbia bruscamente em direção ao chão, dando lugar, ao longe, Holmes viu através do buraco que a bala fez na janela, a uma pistola negra, semelhante á falsa que estava jogada no chão. A mão de Watson desceu, e a pistola também, ainda deixando espiralar uma pequenina fumaça densa, acinzentada.

Quando Holmes foi olhar pelo buraco na janela, Watson já havia deixado o local.

O idoso arfava, deitado de lado, pressionando a ferida para impedir o fluxo de sangue que deixava suas veias e lhe ia tirando a vida.

O detetive segurou sua pílula em cima do corpo caído do velho.

- Eu estava certo? Estava, não estava? Eu peguei a certa? – perguntou Sherlock. O velho virou a cabeça de lado, quase inconsciente. – Me diga, seu patrocinador, quem é? Aquele que te contou sobre mim, meu fã. Quero um nome.

- Não....não.

- Você está morrendo, mas eu ainda posso fazê-lo sofrer. Me dê um nome.

- Minha vida está indo. Creio que meus filhos não poderão mais contar comigo.

- Seus filhos eram uma desculpa, uma maneira de explicar seu comportamento indulgente. Eles agora irão descobrir que o pai deles buscava, em um jogo suicida, e no assassinato de inocentes, uma razão para tentar provar seu apreço por eles. Quem vai ficar no tédio agora? Me diga um nome, para que eu possa evitar esse meu tédio. Irei atrás dele com a mesma motivação com a qual você me propôs esse “jogo”.

- Continue vivendo por suas convicções, detetive, vá em frente, evite o tédio. – O velho deu uma risadinha, seguida de uma tossida carregada, que lhe limpou o pulmão por alguns instantes que seriam suficientes para falar.

Holmes esperou.

- Moriarty.

O detetive sentou-se na cadeira que servira ao idoso. Por ali ficou, por ali pensou, até quando o Dr. Watson entrou. O médico veterano de guerra olhou para o corpo do velho, e depois para seu amigo.

- Me bateu um tédio, Watson. Acho que, apesar do horário, e meu aparente sono, gostaria de tocar meu Stradivarius por longas horas, estirado em minha poltrona, fumando aqueles cachimbos presenteados pelo governador.

Watson olhou com desdém para o detetive, tentando disfarçar um sorriso contraditório á situação recém ocorrida.

Com uma descontração assustadora, o detetive propôs:

- Sei que você não fuma, mas gostaria de ouvir uns acordes?