quinta-feira, 14 de março de 2013

O Lado Sombrio da Tecnologia

Neurocientista especialista em doenças degenera­tivas do cérebro, a pesquisadora Susan Greenfield é presença constante nos principais debates sobre os efeitos da tecnologia na mente humana. 

Autora de três livros que se tornaram best-sellers, ela defende a tese de que passar tempo demais na frente de computadores, games, tablets e smartphones causa alterações cere­brais da mesma natureza daquelas do Alzheimer, embora não tão destruidoras. 

Em entrevista concedida a uma revista influente do país, Susan Greenfield conversa sobre o paralelo existente entre o uso de recursos tecnológicos em excesso e efeitos colaterais no cérebro (como Mal de Alzheimer por exemplo). Discute também a questão da predominância do sexo masculino e do preconceito feminino no mercado de negócios, principalmente na ciência e tecnologia, e sua opinião sobre isso. 

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Qual é a relação entre a doença de Alzheimer e os efeitos sobre o cérebro do uso exagerado da internet?


Greenfield - "O Alzheimer, à medida que avança, provoca a perda de células cerebrais, conduzindo o paciente a um estado de alienação crescente. A tecnologia não provoca a morte dos neurô­nios. Não há prova científica disso. O que realmente disse e reafirmo é que computadores, tablets, smartphones, enfim, todos os dispositivos interativos, quando usados excessiva e ininterrup­tamente deixam a mente em um estado de confusão sobre o aqui e o agora muito semelhante aos efeitos do Alzhei­mer. A pessoas nesse estado perdem momentaneamente a noção clara do que seja passado, presente ou futuro. Alguém imerso nesse universo virtual está sempre de prontidão pra responder rapidamente a um e-mail ou um SMS. Essa disponibilida­de instantânea para os apelos digitais interativos, dominada pelos sentidos e não pela razão deixa a mente em um estado semelhante ao provocado pelo Alzheimer ou mesmo pelo autismo. Ainda não existem evidências de que o cérebro saudável submetido a alta carga de estímulos digitais sofrerá transformações fisiológicas permanen­tes. No entanto, essa é uma hipótese a considerar seriamente a longo prazo".

A senhora saberia definir o limite máximo de tempo de imersão diária no mundo vir­tual ao qual alguém deveria obedecer?


Greenfield - "Pelos dados que temos em mãos hoje, ainda não somos capazes de definir esse limite. A questão não é propriamente o tempo que se passa online. O cerne do problema é deixar de exercer, por causa da internet, outras atividades essenciais para o desenvolvimento pleno do cérebro e para a manutenção da saúde mental. Passar cinco horas seguidas jogando videogame ou no Facebook pode ser bem estimulante, mas são cinco horas a menos para abraçar alguém, caminhar pela praia, conversar cara a cara com um amigo em um bar ou restaurante....". 

A noção predominante entre os estudio­sos, porém, é que os estímulos digitais estão aumentando a eficiência do cére­bro humano. Essa noção é equivocada?


Greenfield - "Obviamente qualquer atividade con­tribui para o desenvolvimento cerebral. Estudos feitos nas últimas décadas comprovaram a capacidade do cére­bro de se reorganizar e se reinventar a to­do momento por meio de estímulos externos. É a neuroplasticidade. Os vi­deogames desenvolvem a coordenação motora e a memória. Isso está compro­vado. Nos adultos, sobretudo nos ido­sos, a interatividade mostrou-se uma excelente ferramenta para estimular a formação de novas cé­lulas cerebrais, e até promover certo bem-estar mental. Há relatos científicos de diminuição dos sintomas da de­pressão em virtude de relacionamentos que o paciente retomou ou criou nas redes sociais. Minha mãe é viúva, tem 85 anos e mora sozinha. Meu irmão e eu gostaríamos muito que ela tivesse uma conta no Facebook. Mas, infelizmente, ela se recusa. Meu ponto, en­tão, não é a condenação da Era da In­formação. O que eu reafirmo é que a exemplo de um carro que nos serve tanto mas com o qual podemos atrope­lar e matar alguém, obter o benefícios e evitar os males das novas tecnologias depende apenas do usuário...". Se a tecnologia continua evoluindo, cabe a nós agirmos quanto a esse avanço.

A comunidade científica levou a sério seu alerta sobre o perigo dos videogames, na infância, estarem produzindo adultos "sem ética e atrofiados emocionalmente"?


Greenfield - "Essa é uma constatação irrefutável. Pense na fábula da princesa presa na torre. Existe uma enorme diferença entre a experiên­cia de ler sobre Rapunzel em um livro e a de participar de um game em que o objetivo é resgatá-Ia. O livro apresenta à criança a narração plena da história da princesa. A vida dela faz parte de um contexto. Já no game a princesa é ape­nas um objetivo, não importa nem como ela chegou a ser aprisionada na torre, não se constrói em nenhum momento um vínculo emocional com o persona­gem tampouco se discutem as questões éticas de aprisionar alguém ou as virtu­des de caráter ou de coração do ato de salvá-la. A única coisa que importa é ganhar o jogo...".

O convívio nas redes sociais aceita uma maior diferença de conduta ética das pes­soas?


Greenfield - "Sem dúvida. No mundo virtual as pessoas podem se comportar de um mo­do como jamais fariam no mundo real. Elas perdem seus constrangimentos naturais, o que normalmente barra os maus comportamentos. Na rede, muita gente se expõe como jamais faria nem mesmo no ambiente familiar ou na frente dos amigos mais íntimos. Essa liberalidade começou com os e-mails, mas atingiu o ápice com o Facebook. Os limites do certo e do errado estão cada vez mais difíceis de ser definidos. O livro O Senhor das Moscas, obra-pri­ma de William Golding, conta a história de um naufrágio de estudantes. Presos em uma ilha e submetidos a enormes pri­vações, eles perdem o verniz civilizatório e se tomam selvagens. Por alguma razão, estar nas redes sociais pode produzir o mesmo efeito de desconsideração com os outros que acometeu os estudantes do livro de Golding presos na ilha".

Essa regressão tem raízes na química ce­rebral?


Greenfield - "Sim. O prazer de estar on-line ou jogando um game libera dopamina em excesso. A dopamina participa do sistema de recompensa do cérebro, aquele que nos faz querer repetir algo prazeroso. Ela é liberada quando se come algo saboroso, como chocolate, e durante o sexo, por exemplo. Cada vez que a criança muda de fase no videogame, mais dopamina é liberada. A interatividade estimula o cérebro a produzi-la em demasia, e isso é um pro­blema. O excesso desse neurotrans­missor afeta diretamente o córtex pré­-frontal, região do cérebro que é a sede da consciência, em que a pessoa pro­cessam o conceito de si mesmas e as noções de tempo e de espaço".

Antes eram as revistas em quadrinhos, depois a televisão, agora a internet e os games. Será que cada Era tem seu falso inimigo do cérebro das crianças?


Greenfield - Existe uma diferença crucial. As novas tecnologias são muito mais invasivas e têm um impacto infinitamente maior até mesmo que o da televisão. As pessoas agora estão sendo levadas a ter uma percepção da vida como uma sucessão de pequenas tarefas desconectada entre si, exatamente como no game da Rapunzel. O ser humano é produto de histórias, da preservação de memórias, enfim, da narrativa, não há mais narrativa. Tudo não passa de ação e reação.

Mas a senhora não acha que tem sido gi­gantesca a contribuição das tecnologias interativas para a educação?


Greenfield - "Uma pes­quisa divulgada no ano passado, na In­glaterra, derruba essa tese. 3/4 dos professores ingleses reclamam da crescente dificuldade de concentração dos alunos. Quase todos os pais entre­vistados afirmaram que os filhos gas­tam o triplo do tempo na frente de uma tela de computador em comparação com o que dedi­cam a um livro. Não concordo com os especialistas que sugerem distribuir tablets aos alunos. Isso não resolve. A única maneira de prender a atenção da crianças nos dias de hoje é ter pro­fessores inspiradores. A tecnologia é fundamental e excitante, mas, sozinha, não identifica nem desenvolve talentos".

A senhora foi criticada por colegas pelo fato de seus documentários e pa­lestras serem populares demais. O que acha disso?


Greenfield - "Costumo citar Carl Sagan, a quem admiro muito, quando me cri­ticam por falar de ciência de maneira fácil e acessível. Ele costumava dizer que era um suicídio viver numa socie­dade dependente de ciência e tecnolo­gia e não saber nada sobre ciência e tecnologia. Entendo os colegas que, por personalidade ou opção, são mais resguardados. Mas acho que eles não deveriam criticar quem está disposto a simplificar e divulgar assuntos cientí­ficos, no fundo, penso que os cientistas que não gostam de popularizar a ciência têm medo de, ao falar de igual para igual com as pessoas leigas, per­der a autoridade e o status".

Em um artigo para o jornal The Guardian, a senhora afirmou que a gravidez era um contrassenso. Por quê?


Greenfield - "Referia-me à questão profissional. São poucas as mulheres na minha área que conseguem chegar aonde eu cheguei. E difícil desde o início. No colégio, as meninas recebem menos incentivos do que os meninos para seguir a carreira científica. Afinal. ciência é coisa de homem. Quando conseguem superar essa barreira, elas encontram outro obstáculo: a gravidez. Não sou contra ter filhos, mas na ciência, quem se afasta, mesmo que por pouco tempo, perde a vez, infelizmente. Eu optei por não ter filhos. Meu irmão nasceu quando eu era uma adolescente de 13 anos. Essa já foi uma experiência maternal suficiente para mim".

A senhora deixou a presidência da Royal Institution pelo mesmo motivo que quase a impediu de entrar?


Greenfield - Fui a primeira mulher a comandar a instituição. Foi uma experiência única. Aprendi a ser uma administradora, consegui reerguer a Royal Institution e ao mesmo tempo modernizá-Ia. Também me aperfeiçoei como acadêmica. No fim de minha gestão, tive problemas sobre os quais estou proibida de falar por ordem judicial. Mas, apesar de tudo o que fiz até hoje como profissional, minha grande realização como cientista ocor­reu no campo pessoal, por mais esqui­sito que isso possa soar. Graças a meu trabalho, consegui realizar um sonho familiar. Apresentei minha mãe, baila­rina, e meu pai, engenheiro elétrico, à rainha Elizabeth II.


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É praticamente impossível sobreviver de maneira produtiva sem o acesso aos recursos tecnológicos. Em casa, no trabalho, na rua ou no metrô, um celular, um fone de ouvido, um leptop, ipod, celulares e smartphones nos acompanham e fazem parte assídua de nosso dia-a-dia. 

O incômodo pela ausência destes recursos abre uma questão de dependência, que se torna negativa á medida que confunde nossa percepção de senso comunitário, confundindo a noção de sociabilização. 

Com a tecnologia, é possível nós conversarmos com dezenas de pessoas ao mesmo tempo, e isso a princípio oferece uma ideia de que somos exemplares socialmente. 

Mas há uma diferença entre a comunicação à distância e à troca de experiências reais. A afetividade verdadeira só ocorre quando duas ou mais pessoas conversam pessoalmente, no boca a boca, que é só o que faz expressar o sentimentalismo e a empatia que conduzem a um bom relacionamento. 

O diálogo pelo contato precisa prevalecer frente à tecnologia!