sábado, 25 de maio de 2013

Uma Dramática Sucessão de Eventos

When dream and day unite

What is the difference between the sunlight and moonlight??

In reality, we see the sun and perceive your clarified light
In reality, we see the moon and perceive your powerful aura 

In the dreams, the lights are not the main guide, but only a spectrum that provides a sense of direction

In this direction, a path is unveiled
A path to nowhere that makes us keep our consciousness

In dreams, the sun is not the star king
In dreams, the reign of the sun loses authority to other forces
Unknown forces, that only darken our way back to reality

In dreams, a black unknown energy wants to take the power and control our minds

Control our minds in the dreams, and lead us to nightmares

In the nightmares, images come to represent what we fear most

And in fact, images and words work together in our minds to express the anguish of that fear

A fear which is only eliminated for a new session of sleep

These images in nightmares will try to be decoded, in reality, by words

But, in the nightmares, these words don’t have concrete meaning, and in a troubled dream, words end up being abstract

In that cases, nightmares don't have an signification

Being awake, we’re guided by real lights, and in the path of that lights, we search for a purpose

A purpose that will be put in check until they fall asleep again

Through the path of darkness, we walked for a reason and a purpose too


So then, standing in a path of darkness, we go inside nightmares

These moments of darkness are there to test the ubiquitous control of sunlight during the days

In dreams, the sun can be a truly authoritarian leader, but even the most confident leader must be controlled

That control is done by eclipses, that confuse our cognitions and them, we will fall into eternity

A eternity of dreams, nightmares, realities and memories

We see scenes of the past, and we consider these scenes as previous memories

But, if we attend of that same scenes in a near future, that figurative images are no longer memories, but only clear representations that we’re alive

Memories are not only past scenes, but also glimpses of the future

Try to imagine one person that is guided only for past events, or guided by lapses of memory, and would not be difficult to recognize this person as mentally confused

In this case of insanity, there is a cognitive failure
A gap in which person is lost within himself

Totally lost in a six degrees of inner turbulence

These degrees of turbulence are determined by a variable scale in a uncontrollable train of thought 

Carrying on between sanity and madness

In the sanity, thoughts traveling on a highway that flows freely

In madness, thoughts stop from time to time in overcrowded stations

Sanity or madness, the train of thought is confronted without order, and the only certainty is doubt and indecision

Ideas and thoughts viewed psychotic aberrations
Decisions are made to act as remedies this uncertainty

Only powerful drugs can continue deceiving the insane minds

Only chemical interventions can prove that we are not aware of our impulses

A person who recognizes his altered state is just another living person
A person who recognize his normal state is just an primitive animal

An animal that survives to stimuli in an corrupted environment

Animals impacted by society
A desorderly nation that cares about its own interests

The only satisfaction of the people  is the futile struggle for justice 

A disguised justice of a systematic chaos

Chaos in which dream turns nightmare
And the nightmare becomes a dream, and none of it is playful

Systematic chaos, a trip of a lost civilization

Systematic chaos that fools and erodes people with a moral sense of what is right
Or what is wrong

A false moralism wearing the mask of irony and sarcasm

This fake moralism serves as a backdrop for a world
A place that houses black clouds and silver linings

A world of constantly and recurring eclipses
Where lapses of light are drowned by total darkness

Opening the door of the imagination, there is a blinding luminosity, a clear mind opens up to the possibilities that arise

The reason appears to try to prove the certainty of nonexistent reality

And the perception of unreality manifests freely around the chaotic world

In that world, also doesn’t exist the nature presence
Not occur the change of seasons

There are no limits to the succession of memories

Dreams and nightmares coexist

Days and nights are no longer differentiated by sunlight and moonlight

Living only through the dismemberment of the senses

In a state where the power of the stars is corrupted by the absence of heaven
In a place where the changing seasons is a desorganized process

We remain at the mercy of time and space
We continue ahead, and go ahead

We carry on with the strenght of mind
With a consciousness outside of reality 

Living in a panorama based on a systematic chaos
In circumstances that challenge our beliefs and motivations

We're living immersed in a dramatic turn of events

- - - 

Texto baseado na discografia sucessiva de Dream Theather:

- When Dream and Day Unite (1989)
- Images and Words (1992)
- Awake (1994)
- A Change of Seasons (EP, 1995)
- Falling Into Eternity (1997)
- Scenes From a Memory (1999)
- Six Degrees of Inner Turbulence (2002)
- Train of Thought (2003)
- Octavarium (2005)***
- Systematic Chaos (2007)
- Black Clouds & Silver Linings (2009)
- A Dramatic Turn of Events (2011)

***Não incluído

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Chorão no Mundo Novo

A reportagem de Maurício Monteiro Filho sobre a morte do músico Chorão, na edição de abril/2013 da revista Rolling Stones, me chamou a atenção para o triste fato de mais uma perda e mais um desperdício de talento. 

Legiões de fãs se lamentam, e muitos ainda buscam superar essa lacuna no cenário do rock nacional.


Nessa matéria, os integrantes da ex-banda Charlie Brown Jr. (atual A Banca), dão declarações sobre os vários momentos de auge e decadência de Chorão durante a convivência entre eles, sobre as fases críticas pelas quais o cantor passou em determinadas situações e dão um panorama futuro da responsabilidade que eles agora carregam nas costas. 

Numa das declarações dadas ao jornalista Maurício, essa bastante surpreendente, mas ao meu ver ligeiramente precipitada, o guitarrista Thiago Castanho diz sobre Chorão: 

"Eu cheguei a conclusão, aqui, hoje, de que o cara não era feliz. Dinheiro e sucesso não trazem felicidade pra ninguém. Se trouxessem, esse cara estaria vivo", afirmou Castanho. 

Você pode acompanhar a matéria a seguir:

Revista Rolling Stones  

Por Maurício Monteiro Filho

As condições em que Alexandre Magno Abrão, o Chorão, foi encontrado sem vida, na madrugada de 6 de março, em um apartamento de alto padrão, na zona oeste de São Paulo, aproximaram da crônica roqueira do jornalismo policial. Comprimidos, bebidas e uma substância branca em pó em abundância pareciam um parque de diversões da mente, elementos que poderiam explicar tudo o que os ávidos por explicações esperavam. Um cenário trágico e decadente, capaz de reduzir 20 anos de carreira, 10 álbuns, milhões de cópias vendidas, 2 prêmios Grammy Latino, um longa-metragem de ficção, uma legião de fãs e outra, menor, de adversários, á desolação de um apartamento revirado, com pouca mobília e um corpo estirado na cozinha. Somava-se então mais um rótulo á extensa coleção de Chorão. Caso encerrado, opinião pública satisfeita.

Mas é o próprio artista quem pode apontar a armadilha desse raciocínio precário. Na desconcertante profecia que é "Meu Novo Mundo", a última música com a voz de Chorão que veio a público, lançada no dia em que o corpo foi encontrado, um dos versos diz: "Não sei como termina, mas sei como começa".

O público, ao contrário, sabe como termina. Os laudos periciais tornaram definitivo aquilo que antes era apenas especulação: as substâncias espalhadas pelo apartamento foram a causa da morte do vocalista e principal letrista da banda Charlie Brown Jr., aos 42 anos. Segundo o IML, o músico tinha 4,714 microgramas de cocaína por mililitro de sangue, o que levou a uma overdose. Termina com uma torrente que carrega uma infância dura, iniciada em São Paulo e encerrada em Santos, um histórico de comportamento tão explosivo quanto reservado, separações controversas (de integrantes da banda e de duas esposas) e atritos públicos com afetos e desafetos, e aflui para o isolamento. Primeiro, ainda em Santos, há cerca de 1 ano, Chorão intensificou o mergulho na cocaína e em medicamentos controlados. E, 6 meses antes da morte, na mudança para São Paulo, quando passou a ficar quase inacessível, encontrando os parceiros de grupo apenas para ensaiar - quando não faltava aos ensaios - ou instantes antes dos shows.

Segundo Itagiba Franco, delegado do Departamento de Homicídios e Proteção á Pessoa, que comanda as investigações, os depoimentos coletados indicam que Chorão vivenciava um processo autodestrutivo. "Algo em seu interior não estava bem. Ele estava manifestando um descaso pela vida", diz.

De acordo com Franco, dias antes de ser encontrado morto, Chorão passou por vários hotéis. No último, se desentendeu com funcionários por achar que estava sendo perseguido ou fotografado. Por isso, na segunda-feira, 4 de março, voltou ao apartamento do qual era proprietário, no bairro de Pinheiros, em São Paulo.

A perícia indicou que Chorão morreu 1 dia e meio antes de o corpo ter sido encontrado pelo motorista Kleber Atalla, ás 4h30 da manhã da quarta-feira. Vizinhos chegaram a ouvir muito barulho vindo do apartamento. Móveis e um ar-condicionado foram depredados.

O delegado Franco havia tido noites turbulentas anteriormente por causa de Chorão. "Levei minha filha a muitos shows do Charlie Brown Jr.", declarou. E então o artista lhe tirou o sono uma última vez.

Apenas 2 semanas após a tragédia, esta foi a 1ª entrevista dos membros da banda, Champignon, Marcão, Thiago Castanho e Bruno Graveto. "Tem dias bons e dias ruins", define Castanho, 38 anos. "E hoje é um dia ruim".

Diante da caça as bruxas promovida pela mídia em torno do caso, os músicos haviam optado pelo silêncio. Durante a semana seria o futuro da banda sem Chorão. Quando finalmente se decidiram a falar., foi somente com a intenção de preservar o passado.

Começou mais de 20 anos antes, em 1991, com o encontro de Chorão e Champignon, que tinha apenas 12 anos na época. Depois, vieram as guitarras de Thiago e Marcão e a bateria de Renato Pelado. Os primeiros sons da banda eram em inglês, pesados, com influência das bandas Biohazard e Suicidal Tendencies. Decidiram gravar uma fita demo, mas estavam sem dinheiro. Champignon já tinha vendido um baixo para ajudar a pagar a conta. Para inteirar o valor, Chorão decidiu se arriscar. Ele morava com o pai, seu Geraldo, e teve a ideia de vender a única TV que a família tinha, sem o consentimento paterno. Ele e Thiago pegaram o modelo de 29 polegadas e a levaram ao dono de uma loja. Na hora de tirá-la do carro, Thiago não aguentou o peso e deixou o equipamento cair. Por sorte, o comprador não viu a queda - nem o estrago feito no vidro do aparelho. Os dois pegaram o dinheiro e fugiram o mais rápido que puderam.

Além da propensão a episódio desastrados, a cena evoca uma característica sempre citada por Chorão: o altruísmo. As pessoas mais próximas ao músico o descrevem como alguém que se importava com o próximo. Fosse por meio de doações ou pela própria entrega e dedicação, Chorão dava um jeito de ajudar quem precisava. Os companheiros de banda relatam que uma das principais inspirações para a composição da música "Só os loucos sabem" foi o fato de o vocalista ter sido avisado de que um jovem havia morrido em um acidente de moto quando ia a um show do Charlie Brown Jr., que era o grande sonho dele.

Graveto recorda outro caso: antes de certo show em Salvador, a van que levava a banda passou por um morador de rua. Chorão se mostrou incomodado. Alguns metros adiante, pediu que o veículo parasse. Como não era possível fazer um retorno, ele mesmo desceu do carro e correu até o mendigo para dar a ele todo o dinheiro que tinha no bolso.

Após o 2º disco, Preço Curto...Prazo Longo (1999), a banda começou de fato a ganhar algum dinheiro. Foi quando Castanho percebeu que a benevolência podia atentar contra o próprio Chorão. "Ele deu tudo pra todo mundo. E esqueceu um pouco dele", diz.

Apesar de se incomodar com a fama de bad boy espalhada na mídia, angariada principalmente em casos notórios - como a briga com Marcelo Camelo em 2004 ou mesmo o atrito público recente como Champignon -, Chorão não explorava a caridade para se redimir. Depois da morte do pai em 2007, poucos ficaram sabendo que o músico havia feito uma doação ao Hospital do Câncer de Barretos, referência nacional no tratamento da doença. Chorão optou por um setor mais humilde da instituição para homenagear com o nome do pai - o alojamento dos motoristas, que agora leva o nome de Geraldo Abrão de Jesus. Essa dimensão da personalidade do artista não se manifestava somente em doações em espécie. Funcionava também como uma entrega pessoal, que se apresentava aos outros integrantes da banda na forma de motivação e estímulo. 

Champignon recorda que Chorão alternava, no toca-fitas, a demo gravada com o dinheiro da TV vendida e um álbum do Sepultura. Dizia, pilhado: "A gente é grande igual a esses caras!!".

Marcão, 42 anos, concorda. Nos cerca de 6 anos que passou afastado da banda, o guitarrista percebeu ainda mais nitidamente a importância de Chorão para a manutenção e a longevidade do Charlie Brown Jr. "Eu vi que ele acreditava no potencial de cada um de nós", diz. "As vezes mais do que a gente mesmo".

A famigerada demo financiada pela TV roubada de seu Geraldo foi a grande responsável pelos primeiros shows do Charlie Brown Jr. A fita foi entregue a Cecília Mãe, da revista Tribo Skate, figura ativa na cena do esporte, e que organizou para a banda apresentações em eventos de skate.

Mas foi o contato com o produtor Tadeu Patolla que Castanho reputa como o descobridor da banda, que os conduziu ao rumo do estrelato. Foi ele quem sugeriu as letras em português. No processo de renovação do idioma, o som também se transformou. O peso das guitarras deu lugar á mistura de gêneros hip-hop, reggae, ska e hardcore, que se tornaria a marca do grupo. O caminho teve forte influência do guitarrista Pelado, que embutiu conceitos desses estilos diversos. "Ele foi o nosso Brian Jones", brinca Castanho. Já o hip-hop surgiu por influência de Marcelo D2: Chorão sabia de cor as letras do primeiro álbum do Planet Hemp, Usuário (1995). "Na época, a gente tinha uns 200, 300 fãs", o guitarrista continua, "e a galera que ouvia o som novo, mais acessível, dizia que agente tinha se vendido".


Com o novo estilo tomando forma, mas sem dinheiro para investir em novas gravações profissionais, a banda apelou para um porta-estúdio, um modelo Tascan de 4 canais em fita. O aparelho recebeu até um apelido, autoexplicativo" Alonsonteste". Nele, foram gravadas as principais faixas da demo que mudou em definitivo a história do Charlie Brown Jr. e trouxe Chorão para mais perto do sonho do sucesso e, consequentemente, de todo um mundo novo.


Foram 42 músicas gravadas, incluindo todas que estariam no 1º album, além de algumas do 2º. Por intermédio de Patolla, as canções foram parar nas mãos de Rick Bonadio, que viria a produzir vários álbuns do grupo.


Transpiração Contínua Prolongada, 1º álbum do Charlie Brown Jr., foi lançado em 1997. Vendeu 500 mil cópias. E o Charlie Brown Jr. estourou.


Com o sucesso, veio o desafio de vencer a "síndrome do 2º disco". Chorão, por sua vez, só pensava que era a hora de mostrar serviço. "A gente tem que provar todo dia quem agente é", gostava de afirmar. E lutou para fazer um novo álbum com 25 músicas.


"Ele tinha muito carinho pelo trabalho e brigava por qualquer coisa. Era um cara visionário. Parecia que sempre estava um pouco a frente", exalta Castanho. E se acreditava em uma ideia, o vocalista teimava com ela até o fim. Marcão lembra que Chorão decidiu bancar do próprio bolso uma parte da produção do clipe de "Não Deixe o Mar Te Engolir", já que a gravadora, Virgin Records, não quis arcar com todos os custos.


No 3º disco, Nadando Com os Tubarões (2000), o sucesso nacional já era uma realidade para o Charlie Brown Jr. -  e com ele, vinha toda uma gama de distrações. Segundo os companheiros, Chorão nunca se deixou deslumbrar pelo estrelato. "Ele manteve o jeito largadão, a vida simples", define Marcão. "Ele sempre teve um temperamento forte e você ouvia as pessoas dizerem: "O sucesso subiu á cabeça dele. Mas não era isso. Ele sempre foi assim, desde que agente o conheceu".


Não fazia assim tanto tempo que, por dificuldades financeiras, Chorão vivenciou um despejo que o acabou levando a dormir por 2 meses em uma sala de ensaio que o grupo havia alugado. A experiência rendeu uma letra, "Confisco". Antes disso, morou em um flat, que os parceiros de banda recordam como completamente caótico, tamanha a baderna."Depois de um show do Dog Eat Dog, estava tarde e eu acabei dormindo lá", lembra Champignon, 34 anos. "Ele afastou umas roupas e mostrou onde era pra eu dormir. Não tinha luz, era tudo na base da vela. E eu ouvia o barulho das baratas enquanto tentava pegar no sono".


Explosivo, humilde e baderneiro como sempre foi, Chorão passou então a dominar as paradas de sucesso nacionais. "A gente teve de aprender a lidar com a fama, com os amigos, com os interesseiros e com a gente mesmo", reflete Castanho. "Mas com o Chorão a coisa era pior, porque ele não podia mais sair na rua".


Naquele momento, a banda ensaiava em uma mansão alugada no Jardim Acapulco, bairro nobre do Guarujá. Foi quando o líder do Charlie Brown Jr. teve de encarar a maior perda da vida dele. "O baque maior pra ele", diz Castanho, "foi ver que nem o sucesso foi capaz de salvar o pai".


É assim que começa.


É assim que começa o fim. Porque ter se tornado justamente a pessoa que sonhava ser quando ganhou o apelido nas pistas de skate, antes mesmo de se tornar um skatista habilidoso e depois um artista bem-sucedido, também não foi o suficiente para que Chorão salvasse a si próprio. 


"Tu sabe qual é o papo reto?, Thiago Castanho exclama. "Dinheiro e sucesso não trazem felicidade pra ninguém. Se trouxessem, esse cara estaria vivo. Felicidade tem que vir de dentro. Eu cheguei á conclusão, aqui, hoje, trocando essa ideia com você, de que o cara não era feliz".


"Quando ele estava feliz, podia animar o mundo inteiro", lembra Marcão. Foi assim em certa trunê em que a banda usava um ônibus frequentemente locado para outros grupos. Chorão descobriu a bordo os letreiros, com os nomes dos outros artistas, e decidiu que a banda viajaria com a placa "Chitãozinho e Chororó" pendurada no veículo. Não demorou para que, a cada parada, fãs dos sertanejos batessem á porta, querendo falar com Chorão. Mas quem os recebia era Chorão, sorridente, esparramado nos últimos bancos do ônibus.


Mas, assim como os bons momentos eram intensamente bons, os baixos eram intensamente baixos. Aos poucos, os colegas notavam o afastamento progressivo de Chorão da realidade. "Por esse lance que aconteceu entre ele e o Champignon, a gente viu que ele não estava bem", fala Castanho, se referindo ao show em Apucarana (PR) em setembro de 2012, quando o vocalista criticou o baixista por longos minutos ao microfone, diante da plateia perplexa.


Fotógrafo que acompanhou a banda na estrada desde 2005, Jerri Rossato lembra que uma das músicas que Chorão mais escutava nos últimos tempos era "Hurt", do Nine Inch Nails (que ficou famosa também na interpretação de Johnny Cash), cuja letra começa assim: "Hoje eu me machuquei / Pra ver se eu ainda sinto/ Eu foco na dor/ A única coisa real. (Emo demais para Chorão, não??)


"Ele estava querendo dizer coisas. Escrevia letras chorando, por horas", conta Castanho.


Essa atmosfera sombria se alternava com momentos de clarividência e criatividade. A banda revela que o próximo álbum do Charlie Brown Jr., que Chorão deixou inacabado, trará algumas das composições mais pessoais do músico, além de elucidar muito do que ele vivenciava solitariamente nos últimos tempos.


Uma dessas músicas, "Meu Novo Mundo", tocada em rádio pela 1ª vez dias antes da morte de Chorão, carrega uma incômoda aura premonitória. "Foi uma noite muito legal, no Recife", Castanho recorda a data em que escreveu a faixa ao lado do amigo. "A gente pediu todos os rangos do hotel e ficamos das 8h da noite até as 8h da manhã comendo e tocando. Eu achava que "novo mundo" era um lugar onde ele queria estar, mais não nesse sentido. Um novo mundo, uma nova vida. Aí o cara morre velho? E onde fica a música? Eu não consigo ouvir essa canção. Eu fico deletado, cara".


Todos os integrantes do Charlie Brown Jr. oscilam entre expressões endurecidas e atordoadas. Mas o rosto de Champignon é o único de onde escorrem lágrimas, uma única e contida vez - não por acaso, quando o tema da conversa é o fim ou quando eles tentam explicar os motivos desse fim. Pela proximidade de mais de 20 anos de amizade, e também pela briga vexaminosa de 6 meses antes (eternizada em vídeos no YouTube), a morte parece reverberar mais sentida no baixista. E, graças ao papel formador que o amigo teve na vida dele, Champignon afirma que soube relevar e superar o conflito. Após isso, por um breve momento, pareceu que o arrependimento até contribuiu para que Chorão se reaproximasse da banda.


"Eu aproveitei isso pra tentar trazer ele pra gente. Pra que ele visse o quanto era legal tudo que a gente construiu junto", diz Champignon. "Mas então ele começou de novo em um processo de isolamento. Até que tiramos essas férias. E aconteceu que nunca mais tocaremos juntos".


Três meses antes de morrer, Chorão deu um bilhete a Champignon, sem explicação. "Se o tempo é rei, não te impõe limites. CH". O baixista guarda até hoje a nota na carteira.


Com relação ás drogas, Champignon escancara a ferida. "É difícil alguém que tenha esse problema assumir, porque é julgado e malvisto. Ás vezes, não há saída para uma pessoa que tem o problema e precisa de ajuda", diz. "Expor é impossível, porque a sociedade julga e culpa. Já tive meus erros, sou um cara do rock. Sou um cara que vive a vida, tive de me superar."


"Um cara que vive essa realidade precisa primeiro querer se ajudar", diz Castanho. "Alguém como o Chorão você não amarra e leva pra algum lugar." Até porque, no entender dos amigos, ele tinha força de sobra pra sair dessa sozinho. Chorão não cabia em um só rótulo, era alguém, como define Rossato, "persistente e talentoso, que conseguia transformar as piores situações em experiências inspiradoras e de muita positividade"."O lema dele era dar a volta por cima", concorda Castanho.


Chorão pensava e falava sobre o futuro, e sabia que, para vivê-lo, teria de mudar. "Falamos sobre os novos shows da agenda, e ele comentou que ele estava buscando forças pra seguir em frente, fazendo os shows da  melhor forma possível", recorda Rossato.


Além do álbum, Chorão se dedicava a projetos: um livro de fotos, um documentário e o roteiro de um filme cujo título já estava definido: O Cobrador.


A linha que separa o auge da ascensão e a vertigem da queda livre é muito tênue, oscilando conforme a perspectiva. Nos depoimentos de pessoas próximas a Chorão, em especial os integrantes da banda e a ex-mulher dele, Graziela Gonçalves, dois sentimentos transparecem mais: um sofrimento incomensurável e uma sensação de culpa. Talvez o tempo seja rei no que diz respeito ao sofrimento, mas nada justificaria a culpa, de parte a parte. Essa é uma das raras situações em que todos os envolvidos são vítimas. E Chorão é a maior delas.


Não será mais o artista, na forma explosiva que lhe era característica, quem seguirá inspirando fãs, mas sim a memória dele. A tarefa para tanto está nas mãos dos companheiros de 20 anos de estrada. Dos escombros da tragédia, Champignon, Graveto, Marcão e Thiago já definiram: sem Chorão, não há como continuar com o Charlie Brown Jr. Mas o quarteto formará outra banda, não sem antes prestar uma homenagem ao amigo. "A gente decidiu montar um grupo", conta Champignon, "que vai se chamar A Banca. Para eternizar o Charlie Brown. Jr. do jeito que ele foi: animando a galera, botando o bagulho pra baixo, fazendo tremer mesmo os shows."


Para esse ano, os planos do quarteto são fazer uma turnê em tributo a Chorão e ao Charlie Brown Jr.(inclusive tocaram na Virada Cultural em São Paulo). Já em 2014, a promessa é o lançamento de um álbum do novo grupo, só com músicas inéditas.


"A gente podia se afundar de vez ou transformar a tragédia em aprendizado", diz Castanho. Ele e os parceiros de A Banca optaram pela 2ª alternativa.


Chorão, por sua vez, deve ter iludido o cobrador, saltado a catraca de sate e saudado Johnny Cash com os versos finais de "Hurt": "Se eu pudesse começar de novo / A um milhão de milhas de distância / Eu me preservaria/ eu encontraria um caminho".




Referência: Revista Rolling Stones Brasil / Abril 2013 / Pág. 57

Jornalista e entrevistador: Maurício Monteiro Filho

sábado, 18 de maio de 2013

Fama Roubada

O quadro Mona Lisa hoje está exposto atrás de uma caixa de vidro á prova de balas e com temperatura controlada em uma parede exclusiva no Museu do Louvre, em Paris.

Os agentes do Louvre estimam que cerca de 80% de seus 6 milhões de visitantes anuais vão ao museu principalmente para ver a Mona Lisa. O seguro atual da obra é estimado em quase 700 milhões de dólares (bem mais do que faturam a grande maioria das empresas e instituições públicas; muito superior também a qualquer pintura já vendida). Mas não se sabe se é possível atribuir algum valor, enorme que seja, a essa pintura.

É justo dizer que a Mona Lisa é mais do que um retrato, é um marco da cultura ocidental. 

Ela foi mais copiada, parodiada, elogiada, zombada, analisada e especulada do que qualquer outra obra de arte. Sua origem, por séculos envolta em mistério, intrigou pesquisadores, e seu nome foi tomado emprestado para óperas, filmes, músicas, pessoas, navios...até mesmo por uma cratera em Vênus.

Só que a provável sensação de um visitante do Louvre será de desapontamento ao olhar a pintura mais famosa do mundo. 

Para início de conversa, como conta o sociólogo Duncan J. Watts em seu livro "Tudo é Óbvio", quando ele mesmo visitou o museu, percebeu que a pintura é "surpreendentemente pequena". E, estando naquela caixa á prova de balas e sempre rodeada por multidões de turistas batendo fotos, é "irritantemente difícil de vê-la". 

Watts relata que, quando você enfim consegue se aproximar da Mona Lisa, está mesmo esperando algo especial nessa pintura (algo que o crítico de arte Kenneth Clark chamou de "o exemplo da perfeição", que faz aqueles que apreciam a obra esquecerem todas as suas dúvidas enquanto admiram esse "exemplo da perfeição"). 

O crítico de arte Kenneth Clark afirmou que há traços do domínio da perfeição em Mona Lisa que são visíveis apenas para olhos treinados. Então, leigos como eu ou você deveriam simplesmente aceitar o que nos é dito (ou seja, que a Mona Lisa é indiscutivelmente a pintura mais valiosa do mundo). 

Ok, é justo concordar com isso.

Mas, se isso é verdade, você poderia esperar que a mesma perfeição em Mona Lisa que é óbvia para Kenneth Clark teria sido óbvia para todos os outros especialistas em arte ao longo da história (o que é óbvio, não é). Como o historiador Donald Sassoon conta em sua biografia da Mona Lisa, nada poderia estar mais distante disso. 

A Mona Lisa, uma pintura que repousava nas residências de reis, é uma obra de arte, é claro, mas apenas mais uma entre tantas outras. 

Na verdade, foi somente no século XX que a Mona Lisa começou sua ascensão á marca global. E mesmo então, isso não foi resultado de críticos de arte que do nada começaram a apreciar Leonardo Da Vinci, nem devido a esforços de curadores de museus, socialites, reis ou políticos. 

Nada disso: a fama da Mona Lisa veio de um roubo.


A Fama Pelo Roubo


No dia 21 de agosto de 1911, um funcionário descontente do Louvre chamado Vincenzo Peruggia se escondeu em um almoxarifado até o fechamento do museu, quando então saiu com a Mona Lisa escondida sob seu casaco. 

Italiano orgulhoso que era, Peruggia aparentemente acreditava que a Mona Lisa deveria ser exposta na Itália (sua terra natal e de Da Vinci), e não na França, e estava determinado a repatriar ele mesmo o tesouro havia tanto tempo perdido de seu país.

Contudo, como muitos ladrões, Peruggia descobriu que era muito mais fácil roubar uma obra de arte do que se livrar dela. Depois de escondê-la em seu apartamento por 2 anos, ele foi preso enquanto tentava vendê-la para a Galeria Uffizi, em Florença. 

Mas, apesar de ter falhado em sua missão, Peruggia teve êxito em alavancar a Mona Lisa a uma categoria de fama suprema.

O público francês, ao invés de ficar revoltado, foi cativado pelo ladrão por causa da inesperada recuperação do quadro. Os italianos, claro, também ficaram extasiados com o patriotismo do conterrâneo, e trataram Peruggia mais como um herói do que como um criminoso (antes de a Mona Lisa retornar a seu dono francês, ela foi exposta por toda a Itália).

A partir desse momento, a Mona Lisa jamais retornaria ao anonimato. Como já dito, a obra foi usada em milhares de propagandas, copiada e parodiada inúmeras vezes por milhares de artistas, cineastas, músicos e por aí vai.



Como observou Donald Sassoon em sua biografia da Mona Lisa, todas essas diferentes pessoas, sejam ladrões, vândalos, artistas e publicitários, músicos, diretores de cinema......essas pessoas estavam usando a Mona Lisa para seus próprios objetivos: para defender um ponto de vista, para aumentar a própria fama, ou simplesmente para usar uma marca que sentiram que significaria alguma coisa para outras pessoas.

Dessa forma, é impossível imaginar, hoje em dia, a história da arte ocidental sem a Mona Lisa e, nesse sentido, ela é realmente a maior entre todas as obras de arte. 

Mas também é impossível atribuir seu status incomparável somente a algo da pintura em si, e esse último ponto apresenta um problema, porque quando tenta-se explicar o sucesso da Mona Lisa, é precisamente em suas características que focamos sua atenção. 

Segundo conta Donald Sassoon, quaisquer atributos que os críticos citem como evidência (a nova técnica de pintura que Leonardo empregou, o sorriso enigmático da Mona Lisa, ou até mesmo a fama do próprio pintor), "sempre podemos encontrar várias outras obras de arte que podem parecer tão boas ou até melhores que a Mona Lisa".


Podemos solucionar esse problema ao notarmos que não é nenhum desses atributos que torna a Mona Lisa tão especial, mas sim a combinação de todos esses atributos (o sorriso da Mona Lisa, o uso da luz e o sombreamento das cores, a reputação artística de Da Vinci). 

Geralmente, se mede a qualidade de uma obra de arte em termos de suas características, mas, na verdade, fazemos o contrário (decidimos primeiro qual pintura é a melhor, e só então nos vêm a intuição de que as características técnicas dessa obra devem ser suficientes para se explicar a sua qualidade). 

Mas não é o suficiente.

Antes do roubo planejado por Vincenzo Peruggia, o que era a Mona Lisa além de um mero quadro encomendado por um rei que queria comemorar, junto com sua esposa, o nascimento de seu filho?? 

Essa obra gerou retornos financeiros lucrativos para publicitários e agentes por exemplo, na ordem dos bilhões de dólares, mas não acho que a Mona Lisa seja melhor do que muitos quadros que já se viu, e ainda se vê por aí. 

O resultado é o raciocínio circular. Diz-se que a Mona Lisa é o quadro mais famoso do mundo porque ela tem as características X, Y ou Z. 

Mas então, porquê tantas outras obras (como o Dr. Gachet de Van Gogh, ou a magistral A Persistência da Memória de Salvador Dali), que possuem características técnicas tão apuradas quanto à Mona Lisa, não são tão lembradas e não geraram tanto dinheiro? 

A Mona Lisa é famosa porque é mais parecida com Mona Lisa do que qualquer outro quadro.

A sede de patriotismo de um ladrão italiano e a idealização pré-determinada dessa obra é apenas o que a torna famosa. 

sexta-feira, 10 de maio de 2013

[Conto] Trauma de Fogo

Durante uma viagem para a Argentina, em janeiro de 2012, escrevi num caderninho de anotações o que achava interessante naquele lugar. Mais como encontrei poucas coisas na viagem que me inspirassem (pra não dizer nenhuma), resolvi deixar de lado as belezas de Buenos Aires e passei a construir um conto, que fui escrevendo de forma desordenada durante os tempos de ócio que passei por lá. O resultado é o thriller psicológico a seguir, que fala sobre a superação de traumas, do ciúmes e de confiança:


                                                                                1


Ao entrar no Duty Free do aeroporto de Tucson, no Arizona, Walter Seaman deparou-se com painéis iluminados que atraíam o consumidor ávido para o nome de marcas como Chanel, Ralph Lauren, Lacoste e Victoria's Secret. Tanto solteironas na faixa dos 50 anos quanto mães de família de qualquer idade experimentavam, com olhares deslumbrados, alguns perfumes de uma estante contendo centenas de aromas. Ele passou pela sessão mais escura da loja, a tabacaria, onde ficavam dispostos charutos, cigarrilhas e infinitos apetrechos com suas mais diferentes fumaças.

Walter passou pelo painel luminoso que lhe confirmou o horário e o número de seu voô (Tucson - Minnesota - 21h50). Obviamente ele sabia que passara um pouco do horário adequado para embarque, mas também sabia que os aviões sempre atrasam na hora de decolar. Sua família já se encontrava na fila de embarque, acenando freneticamente para que se juntasse a eles.

Desceu as escadas rolantes que terminavam no salão de embarque de seu voô, portão 3A.

O pai da família Seaman verificou a posição de seu assento, 36F. Uma música irritante tocava no avião. As pessoas iam guardando suas bolsas e mochilas nos bagageiros superiores do corredor e se acomodavam lentamente em seus aposentos. O comissário anunciava a previsão da temperatura e as condições de viagem para Minnesota. Deus sabe (ou não) que horas eles chegariam ao aeroporto de Minneapolis.

- Quer uma revista? - perguntou Jessie, sua filha.

- Ah, quero. Qualquer informação daí vale mais do que essa ladainha de comissária. - respondeu Walt, logo.

- Sim, se distraia papai.

Nas pequenas TV's de LED distribuídas simetricamente pelo avião, passava um vídeo informativo mostrando os procedimentos de segurança em casos de emergência. "Quero ver as pessoas se lembrarem de fazer alguma coisa dessas enquanto essa bagaça estiver despencando", pensou Walt. Uma senhora fazia o sinal da cruz ininterruptamente (Walt achou que finalmente a velha tinha sido possuída). A mulher acreditava mesmo que Deus ou Jesus pudessem evitar uma possível catástrofe. Ela olhou piedosamente para Walter, que devolveu com um olhar frio, ártico.

As turbinas começaram a chiar e o avião logo decolou. Era o que Walt mais queria, deixar aquele lugar e não voltar pra lá, pelo menos em vida. Ele e a família sobrevoavam em altitude elevada. Lá embaixo, carros, prédios e casas iam se tornando minúsculos pontos e riscos como se fossem moléculas que nadavam em sangue de veias e artérias, como num organismo vivo.

As pessoas limpavam suas mãos com lenços umedecidos que foram entregues pelos comissários antes dos carrinhos passarem servindo lanches e bebidas. Um homem careca tirava uma foto através da janelinha a seu lado, retratando uma paisagem aérea em que rios e lagos serpenteavam sem fim, as montanhas eram do mesmo tamanho, e matas e florestas ofereciam um campo verde infinito.


                                                                            2 

- Bom, deixa eu tirar o frango do forno, já deve estar bom. Se quiserem ir sentando na mesa...- disse Meg, dirigindo-se á cozinha.

Três meses se passaram desde a chegada à Minnesota. Tempo que a família Seaman precisou para se estabelecer em sua nova casa.

Os quatro se sentaram. Walt ao lado de sua esposa Meg, Jess ao lado de Terry, este último provavelmente o futuro namorado de sua filha, previa Walter. Dois quadros atrás deles retratavam clareiras e vinhedos verdejantes. Logo o som dos talheres inox se fez ouvir enquanto eles começavam a comer.

- Você não bebe, bebe Terry? - perguntou Walt, do nada.

- Eh....difícil, a não ser socialmente, de vez em quando sabe.....mas hoje vou preferir um suco mesmo. - respondeu o garoto, corado.

- Sabe, quando eu tinha a sua idade, o máximo que bebia era uma taça de vinho ou champagne no Natal e outra no Ano Novo. Por causa disso passei a odiar essas duas bebidas. Meus pais liberavam álcool nessas datas só porque achavam que seria falta de educação eu não acompanhar o brinde clássico que minha família sempre fazia. - contou Walt.

- É....vocês dois deviam agradecer que hoje em dia os pais costumam agir de forma bem mais liberal com bebida em relação a uns tempos atrás - disse Meg, apontando para Terry e sua filha.

- Ainda bem, né? Só faltava vocês controlarem o quanto de álcool eu ponho na boca também. - ressaltou Jessie.

- Meus pais não pesam tanto com bebida.....acho que eles devem confiar em mim. - comentou Terry.

Jessie deu uma olhadela para seu pai, que ainda não tinha tirado os olhos de um naco de frango embebido em azeite no seu prato.

- E o frango, o que acharam? - quis saber Meg, tempos depois.

- Delicioso, mãe.

- Concordo. - seguiu Terry, e todos olharam para Walt, esperando sua opinião.

- Está mesmo uma delícia, querida. - soltou ele, ríspido.

Naquele momento o garoto Terry se sentia estranhamente agoniado, como se estivesse sendo sondado telepaticamente pelo pai da menina que estava ficando. Quando o moleque olhou para Walter, recebeu um olhar penetrante de volta.

- Onde você mora, garoto? - perguntou Walt ao menino.

- Ah...sabe o posto de gasolina Texaco, no fim da rua Cardiant com a Ramone? Então, é uma travessa ali..... conhece? 

- Sim, já conheci aqueles lados. - respondeu Walt, de forma neutra. - Jess contou que vocês estão fazendo juntos um trabalho de geopolítica....já sabe o que pretende fazer na faculdade?Quer dizer, se é que já está pensando nisso.

- Então, meu pai é advogado e minha mãe é da promotoria pública. Eles me interam bastante sobre essa área, mas não sei se é Direito mesmo que quero estudar, ainda tô com dúvidas.

- Ah legal. - disse Meg. - Confesso pra você que também demorei bastante pra escolher o que iria cursar, mas saiba que não importa o que a gente vai fazer, contanto que seja feito com dignidade e que tenhamos responsabilidade.

- É verdade. - concordou o garoto de prontidão.

Terminaram de comer, e Walt chamou Terry, indicando o escritório que ficava abaixo das escadas no térreo. Na sala, a TV recém ligada por Jessie mostrava uma cadelinha que havia sido violentada pela empregada, que dava seu depoimento para o repórter, de cabeça baixa.

Walter conduzia Terry para seu escritório:

- Deixe eu lhe mostrar uma coisa. - convidou Walt, abrindo a porta de correr que dava acesso ao cômodo da casa no qual passava a maior parte do tempo. 

Terry o acompanhou, e eles passaram por uma escrivaninha lateral onde se via um grande computador Dell preto. Alguns soldadinhos de chumbo, um canhão de metal em miniatura e uma enxurrada de pastas e documentos repousavam na mesa de centro do aposento.

- Dê uma olhada nessas belezinhas. - falou Walt, mostrando uma enorme bancada de mogno no canto do escritório.

Na bancada repousavam dezenas de armas, desde pistolas e submetralhadores a rifles de longo alcance e escopetas que arrancavam árvores da potência de seus tiros. Estojos de munição para toda espécie de armas, projéteis que reluziam á luz incandescente de lâmpadas adjuntas e todo um aparato bélico de uma esquadra de artilharia estavam ali.

- Conheça a maior coleção de réplicas utilizadas nas guerras mais sangrentas da história. Esta Winchester Colt, por exemplo, é uma arma vinda da Guerra de Secessão. - disse Walter, mostrando a arma.

- Impressionante, Sr. Seaman. Tô vendo que gosta bastante de armas, de guerras. - falou Terry.

- Aprecio sim. Tenho um gosto por qualquer objeto que cause grande explosão. Soa meio estranho, e é mesmo. Acho fascinante as diversas maneiras possíveis de se produzir e manejar o fogo.

- Hmm...bem legal mesmo. Alguma coisa em especial serviu de inspiração pra esse seu gosto?

- Nenhuma que você mereça saber ainda. - respondeu Walt, sorrindo. - E, aproveitando que minha filha não está aqui, quero falar a sós um momento com você. Nada de mais. - completou Walt.

-Ok.

- Jess comentou bastante sobre a amizade de vocês, e acho muito bom ela estar conhecendo gente nova aqui pela cidade. Ela chegou a dizer que vocês já saíram algumas vezes e tal....e queria saber: quais são suas reais intenções? O que você de fato sente por ela?? - foi direto o pai da menina.

O garoto ouviu a pergunta com apreensão, até seu rosto se tornar um vermelho escarlate, oferecendo a visualização do desconforto que estava passando com a situação. Vacilou um pouco antes de responder:

- Sr. Seaman, eu...

- Walt. Mais fácil.

- Claro......Walt. Bem, quando eu vi a Jess, não reparei tanto nela no começo, mas após conversar com ela pela primeira vez na aula de Economia Política fiquei tão fascinado com seu jeito sedutor e cativante quanto o senhor....quero dizer...quanto você fica com sua coleção de réplicas de guerras.

Walt não esperava, ou melhor, não queria esperar que o garoto se expressasse tão bem como tinha feito. Era inevitável a natureza de sua primeira impressão do garoto, mas agora suas defesas haviam cessado. Por hora.

- Que bom ela ter alguém que repare tanto em suas virtudes. - disse o homem, que achou  a cara de alívio do menino até cômica, como se o moleque esperasse levar um belo soco.

- Chamei ela pra sair porquê....a achei muito linda também, simpática.  

Walt não contava com tamanha sinceridade por parte do garoto. Dessa forma seria difícil confirmar o arquétipo negativo que ele queria sobre o provável pretendente de sua filha.

- Olhe, Terry....de verdade, me sinto melhor que esteja dizendo isso, mas ainda assim, quero alertá-lo que, a partir do momento em que desejou se envolver com Jess, presumo automaticamente que você se importa com ela, e fará tudo que seja para seu bem-estar, ou seja, você VAI cuidar dela enquanto estiverem juntos, não é mesmo?

- Não se preocupa, Walt, eu realmente gosto dela, e...

- Eu não estou preocupado. Meu pedido é amistoso. E de forma amigável eu também espero que você siga o que está me dizendo.

Foram interrompidos pela presença de Jessie, que entrou sorrateiramente, notando os dois próximos um do outro, conversando no meio do escritório. A garota não pôde deixar de admirar-se com a cena.

- Você dois, hahaha, venham pra cá! Mamãe está servindo o café. -disse ela.

- Já vamos, querida. Estava mostrando a ele minhas belezinhas... - apontou Walt a bancada com a coleção mortífera de guerras passadas.

A garota assentiu, concordando. Se retirou. No silêncio final que sucedeu, Walt continuou:

- Terry, espero que compreenda o que acabei de lhe dizer, pois não quero minha filha sofrendo por qualquer tipo de ressentimento amoroso.

- Ok, ok, com certeza Sr. Walt.....ahh.....Walt. Eu te dou minha palavra que... 

O homem pousou sua mão no ombro do garoto.

- Não precisa me dizer mais nada Terry. Vamos tomar café. 



                                                                            3


Saíram por volta das 6h45 da manhã. Como sempre, Walt levava Jess para o colégio. Ela estava meio nervosa pois iria realizar o exame final de Sociologia e, apesar de teoricamente estar com um pé dentro do colégio e o outro já na faculdade, a garota ficara revisando o conteúdo da prova final da disciplina até tarde da noite anterior. 

Walt não se lembrava de ter sido convocado alguma vez ao colégio devido á indisciplina de sua filha, e ele se orgulhava disso. Por vezes procurava razões ou circunstâncias que favorecessem uma discussão com sua filha, mas esses motivos normalmente eram infundados, sem nenhum sentido. "Será que estou arrumando pra cabeça?", pensou.

Ele logo associava que essa necessidade ilusória de punir a filha vinha justamente de seu comportamento extremamente ciumento e protetor. Beirava ao ciúmes doentio. 


- - - - -

Ao sair do consultório após uma sessão com sua terapeuta, Dra. Tucker, no ano passado, Walt ainda se sentia imensamente desconfortável e angustiado, desgostoso com sua vida como em todas as vezes que entrava ou saía daquela sala cheirando a incenso e brilhando de tão limpa.

Walter insistia em comparecer ás sessões de terapia e tentar confessar seu problema (aquilo era mais que um problema, era uma bomba-relógio mental), após seu amigo Bill, vizinho de gabinete, o aconselhar a tentar descarregar seus podres para algum profissional que estivesse mais apto para compreender seus males e interpretá-los de maneira mais coerente, podendo assim orientá-lo de maneira que o ajudasse em seu problema, seja lá qual fosse. 

Mas Walt não conseguia confessar o que tinha feito nem para si mesmo, quanto mais para uma psicóloga. 

"Me parece que você está tentando preencher algum vazio em sua vida", dissera ela. Discurso clichê? Era, com certeza. Mais ela não estava errada. "...como se desejasse compensar algum erro ou mal entendido no passado". Certa de novo. 

Duas suposições corretas de uma profissional da mente não significavam nada para Walt, pois o vazio continuaria em seu ínterim, a não ser que fosse compensado. Hoje ele tinha essa compensação em mente.

Frequentemente acordava de madrugada com pesadelos, pesadelos aleatórios, considerados como esquisitos, ou ao menos, inusitados (pesadelos em que havia índios semi-nus dançando e dando pulos de uma perna para outra de maneira tosca, todos eles em volta de uma fogueira colossal que crepitava ao centro de uma clareira que fazia parte de uma aldeia, com várias tendas, e o fogo subia em direção ao céu, mas também ao redor de uma maca de madeira podre, onde jazia uma jovem garota de cabelos enegrecidos, queimando, carburando, ardendo, e ele sentia aquela agonia, sentia e...acordava!!). Walt acordava com seu próprio corpo pingando, como se fosse ele a estar naquela maca. Como se fosse ele. 

Mas era pior, pois naqueles sonhos macabros, não era exatamente ele quem enxergava. Era aquele rosto moreno, tão familiar. Era ela, sua irmãzinha. Emily Seaman.


- - - - -

Walter beijou a filha quatro vezes, a desejando boa sorte na prova, e prosseguiu a caminho do prédio comercial do Corpo de Bombeiros, como fazia todas as manhãs pra ir trabalhar.

- Fode nessa prova, Jess! - tentou animar o pai.

- Pai! Lógico que vou mandar bem....porra hahahaha. - E mandou um beijo, fechando a porta.

"Não sei se ela é tão bonita quanto Meg ou Emily, ou se é mais ainda que as duas", pensou em seguida, seu rosto assumindo uma ligeira covinha do começo de um sorriso.

Chegara ao prédio comercial do Corpo de Bombeiros em meia hora. Saiu do elevador para o corredor do 3º andar, pegou uma rosca açucarada da mesinha do café, acenou para Kristy, a secretária do andar, e entrou em seu gabinete.

O aposento tinha o chão atapetado de um cinza claro, uma das paredes laterais pintada de um verde escuro, sobressaltando as demais, brancas. Uma luminária ficava ao lado da mesa de trabalho onde havia montanhas de papéis, canetas, clipes, e todas as pequenas coisas que se encontrava em papelarias. Walt apoiou sua maleta de couro preta com o leptop na cadeira ao pé da janela, e enquanto folheava o catálogo telefônico, foi surpreendido pela entrada súbita de uma garota, bem nova, não mais de 25 anos, agitando os braços de forma agitada.

- Sei que não é seu turno de plantão, mas você tem que vir comigo nesse incidente. - exclamou ela, ligeiramente excitada.

- O que tem de especial nesse caso pra que eu tenha que ir? - questionou Walter.

Walter podia considerar Amanda uma amiga (das pouquíssimas que tinha), pois quando a garota tinha sido contratada para o setor de Relações Públicas, Walt havia sido bastante abordado (até demais) por ela, para que sanasse algumas dúvidas sobre as tarefas rotineiras que iria realizar, questões burocráticas de qualquer serviço de natureza pública, e outras questões chatas. Ele acabou criando uma empatia com a garota. Uma empatia, que vinda de Walt, significava mais do que um simples envolvimento afetivo.

Amanda continuou:

- Foi um verdadeiro desmanche. Pelo que Bill me contou.....o fogaréu estraçalhou um prédio residencial e uma farmácia na esquina da Rua Medven. - detalhou Amanda.

- Baixas?

- Parece que já confirmaram uma morte, e pelo menos 3 feridos.

- Fez o relatório?

- Ainda não. Bill chegou ao local 5h30 da manhã, e me disse que encontrou a Brigada amenizando a situação pelos arredores, além de grupos de pedestres fazendo alarde no meio da rua e duas viaturas já paradas na frente do que sobrou do prédio e da farmácia.

- O que os tiras falaram?

- Conversei com a policial. Ela resumiu que tinha recebido a chamada no rádio por volta das 3h45, enquanto ela e seu colega patrulhavam a Avenida Drifter. Me disse também que a primeira coisa que viu foi cinzas, concreto, e depois, fogo. Muito fogo.

Walter se convenceu e levantou-se da cadeira, seguindo Amanda.

Vinte minutos mais tarde, os dois conversavam com uma idosa que lhes deu sua versão do acidente:

- Não tenho a menor dúvida de que foi pura maldade de algum dos McCarthy (ela passou 10 minutos apenas detalhando insignificativamente os três moradores, agora ex-moradores). Aqueles dois (o casal McCarthy), ahh...todos sabiam que eles tinham um relacionamento ridículo. Vira e mexe eu abria a janela e ouvia um ou outro gritando como se fossem débeis mentais, bradando de um jeito maluco. Tenho certeza que a explosão veio de uma dessas discussões infernais. Graças a Deus senti um cheiro estranho, e saí rapidinho do prédio. Uma pena aquele garotinho tão bochechudinho e lindinho (o filho dos McCarthy) não ter tido a mesma sorte.

Uma ambulância com as portas abertas esperava a chegada de dois paramédicos, que carregavam uma maca. Nela, um cadáver coberto por um lençol branco. Ao lado do veículo havia um casal de velhinhos, com olhar de total desconsolo. O casal se desesperava para pôr as mãos naquele lençol e arremessá-lo longe dali, pra que pudessem logo identificar o corpo que na verdade já haviam reconhecido. A mulher berrava no colo do marido, que procurava manter-se firme e forte.

Walter estava em estado semelhante, até, no ar, sentir o vento provocar um chiado, como se fossem vozes de espíritos enfurecidos. As pessoas mantinham uma cara fechada, rígida. O vento tornou a chiar, mais alto. As capas esvoaçavam ao redor do corpo dos pedestres, mulheres ajeitavam seus cabelos e homens esfregavam as mãos para aplainar a sensação gelada.

Walt virou a cabeça quando sua atenção foi deslocada para a ambulância novamente (seria sua irmãzinha Emily o chamando de novo??). A maca não estava entrando no compartimento traseiro do veículo, era só isso. 

Mais uma rajada de vento, ainda mais potente, o atingiu na face. O mesmo ruído gutural de antes, mas desta vez, a ventania fora tamanha que esvoaçou pra longe o lençol que cobria a mulher morta. Walter mirou o rosto dela logo em seguida. Amanda, e todos por perto, também se viraram para ver.

Após mirar a mulher desfalecida estirada na maca, um avassalador sentimento de horror e nostalgia combinados fez com que Walter sentisse um arrepio percorrendo cada parte de sua espinha, como uma onda de mau agouro que lhe trouxesse tamanha frieza a ponto de congelar todos seus membros. 

Do fundo de sua mente (onde ele tentava guardar a imagem da irmã e seu destino mortal), o rosto de Emily preencheu os sentidos de Walter de uma forma tão destruidora que agora ele enxergava a irmãzinha completamente desfigurada, toda cheia de crateras e furúnculos em uma pele toda preta, carbonizada, como no cadáver em sua presença.

"Mais um maldito vislumbre do passado". Outro. Teria mais outro? E depois?

A associação daquele rosto falecido com o da sua irmãzinha tinha sido resultado de uma infeliz semelhança de Emily com aquela mulher que agora ocupava o interior da ambulância. 

E mais uma vez aquele amaldiçoado incidente, a tanto tempo atrás, tornava a angustiá-lo, e amedrontá-lo.

Incomodado psicologicamente mais uma vez, Walter decidiu ali que queria começar desesperadamente a mexer os pauzinhos na busca de uma solução por uma paz interior.

- Vamos logo dar o fora daqui! A essa altura, o fogo já foi controlado. - apressou ele.

- Tá se sentindo bem? - perguntou Amanda.

- Aham, só um pouco agitado. - mentiu Walt. - Vamos logo!

Os dois entraram no Subaru prateado de Walt, modelo 2005. O líder da família Seaman deu a ignição, e eles bateram em retirada. 

Walter se certificou de que as mangueiras já não cuspiam mais seus insistentes jatos d'água. O fogo tinha sido finalmente cessado. O acidente da Rua Medven fora finalmente neutralizado. Mas o fantasma de Emily, esse permanecia bem vivo.



                                                                          4


10h18. 

Parou o carro bem na frente do café. O café Lisbon, primeiro lugar da cidade que tinha ido ao se mudar com a família pra Minnesota, agora 4 meses atrás.

- Vamos tomar uma aqui, ok. - convidou Walt.

- Opa, fazer uma quebra na manhã, bora! - concordou Amanda, que já tinha esse hábito matinal.

O café Lisbon estava quase lotado, com exceção de duas mesas vazias, uma no centro e outra no canto, bem ao fundo. Walter se encaminhou pra lá de prontidão, levando Amanda. Queria privacidade.

Pediram seus cafés, e logo Amanda iniciou:

- Cara, estou precisando morar sozinha, porra! - disse ela.

- O quê? Não gosta mais da companhia e dos privilégios da mamãe? - zombou Walt.

- Vai se fuder, haha. Mas é isso também. - iniciou a garota. - Domingo retrasado eu cheguei em casa com o Rich, ele ia dormir lá em casa. Era umas 23h30, e a essa hora minha mãe sempre está morta, no sofá ou na cama. Quando a gente passou pela sala, estava tudo apagado, então pensei que ela já tinha ido pro quarto dela....

- E você subiu pra ter certeza de que ela estava dormindo no quarto, né? - Amanda o olhou com irritação.

- Não mano, mas eu tinha certeza, caramba. Você já deve imaginar a merda que acabou rolando...

Em vez de intuir a cagada de Amanda, Walter logo se distraiu, sozinho. Lembrou do propósito da vinda deles ao Lisbon. Aquela conversa não estava agregando nada, mas a garota prosseguiu:

-...e justo na pior hora, quando a gente tava de boa no sofá, uma luz surge do nada. Quando eu olho por cima do sofá, de espreita, quem eu vejo saindo da cozinha? Sim, cara.....minha mãe, caralho! Como se não bastasse só a luz da cozinha pra ela se guiar, ela resolve ligar todas as luzes do térreo, porra. Eu e Rich gelamos. Tivemos que ficar mais silenciosos do que nunca embaixo do cobertor. Aí não rolou né. Foda, e também minha mãe sabe que......

- Posso imaginar, hahaha. - cortou Walter.

A risada de Walt não foi assim tão espontânea. Ele bateu o olho pelo local. O único olhar na direção deles vinha de uma bebezinha, sentada torta dentro de um carrinho rosa pra bebês. De resto, apenas gente trabalhando ou conversando. Murmúrios e vozes ligeiras se faziam ouvir por todo o local. 

- Mandi, deixe eu te falar. - começou Walt, sério. - Eu sei que é estranho eu tocar nesse assunto tão....delicado aqui. Eu poderia te dar alguma prévia, algum contexto, mais enfim. O fato é que eu estou decidido a te contar algo que tenho certeza, não sei como, que vai me aliviar um pouco. 

Amanda silenciou. 

- Parece alguma coisa ruim.

- Ah.....bom não é, nem um pouquinho.

- Ok. O que aconteceu, Walt?!

Em sua cabeça, Walter matutou por alguns instantes, como se esperasse algum momento que comprovasse ser aquela a melhor hora, a melhor pessoa e o melhor lugar para que relatasse o que vinha lhe corroendo a cabeça a anos. 

Mais alguns instantes, segundos, e ele começou:

- Eu e minha irmã Emily somos...bem, éramos né, gêmeos. No último ano da faculdade, nós decidimos fazer uma viagem no Spring Break. Queríamos acampar perto de uma floresta a alguma horas de Tucson, e acabamos fechando esse esquema. Íamos em quatro. Eu e Jennifer, minha namorada na época, Emily e o ficante dela, Ryan. 

Ao pronunciar esse último nome, Walt percebeu que o tinha enfatizado demais.

- Você não gostava dele, certo?

- Pelo que aconteceu, você mesmo responderia. Mas estaria mentindo se dissesse que gostava dele. Na verdade não tinha contato algum com ele antes dessa viagem, apenas algumas conversas breves, enfim.

- Hmm....

- Bom, continuando. Montamos o acampamento todo, eu e ele. Armamos as tendas, arrumamos os mantimentos e pertences. Passamos o dia nadando no lago, até pescando. Conhecemos alguns grupos de pessoas que também passavam o dia por ali. E nem percebemos quando a noite chegou.

- Ah, vocês estavam só de boa então?

- De boa? Depois de algumas garrafas de cerveja, uma de vodca e metade de um LSD pra cada um, estávamos tão de boa a ponto de não reconhecer nem que a noite tinha chego. Só quando entramos pelados no lago de novo é que percebemos o reflexo na água, e olhamos pro céu. Aquela lua cheia. Puta que paril! - Walt passou a mão pelos cabelos oleosos, devaneando.

- Walt, até agora você me contou uma trip de universitários chapados só curtindo uma pausa nas aulas.......que mal tem nisso?

Amanda disse isso e logo fechou a cara quando viu o rosto de seu colega, a mirá-la, fulminante.

- O que eu te falei até agora, e o que eu vou te dizer, nunca vai sair daqui. Não existe possibilidade alguma, de jeito nenhum. 

E ele repetiu esta última palavra duas vezes. 

- Você entende isso, Amanda?

Se ela tivesse respondido 'sim' imediatamente, Walter não se convenceria. Mas a garota se mostrou amedrontada em um grau que Walter achou necessário, pois o homem queria que, quando precisasse dela ou quando Amanda se lembrasse do evento que iria descrever, aquilo ficasse em tabu eterno, apenas entre eles. 

Walter já tinha decidido por realizar sua confissão. Já tinha resolvido que seria para Amanda. Disso ele não tinha dúvidas. Mas o tempo de quebra que entremeou a resposta da garota e o olhar fundo dela para Walter fez com que o homem se sentisse devidamente seguro para prosseguir sua narrativa. 

"Não, ela irá entender, irá guardar para si, ela é forte". Walt prosseguiu então:

- A noite já ia longe, e decidimos fazer uma pausa pra comer e relaxar um pouco. Enquanto eu e Jennifer fomos buscar lenha ali perto pra atiçarmos uma fogueira, Emily e Ryan ficaram na tenda arrumando as coisas e preparando o que desse.

A jovem era só ouvidos.

- Enquanto pegávamos troncos secos em uma campina pela região, eu e Jennifer ouvimos um grito...não...porra. Aquilo não foi um grito, foi um urro. 

Ele parou um pouco antes de continuar seu relato:

 - Antes de pensar, eu e Jennifer já tínhamos reconhecido aquela voz e saímos correndo a todo pique, e....

- Quem tava gritando?? Emily ou Ryan?

- Calma. Era Emily. Corremos como dois fugitivos endoidados. Eu só queria saber de chegar logo na tenda pra ver o que tinha acontecido com minha irmã. Nós ouvíamos os gritos, mesmo na adrenalina da corrida. E finalmente nos aproximamos.....

As mãos de Walter estavam tão úmidas de suor que ele as secou em um guardanapo.

- A cena que eu vi quando chegamos perto da cabana, Amanda. Eu vou viver, por quantos anos eu aguentar. E vou morrer. E aquela merda de cena nunca vai sair da minha cabeça, vai continuar tão lúcida como já está.

Amanda só queria saber da continuação da história, mas o silêncio foi o máximo que usou pra se expressar. Walter continuou:

- Chegamos na nossa tenda.....minha irmã estava deitada, não, estirada, praticamente toda nua, com exceção das meias e do shorts jeans aos seus pés, com aquele filho da puta montado em cima dela.

Walt respirou:

- Ela tava toda ensanguentada das pernas pra baixo. Nem gritava mais, parecia já ter desistido de qualquer tentativa de fazer aquele verme sair de cima dela.

- Meu Deus. - Amanda estava branca como papel.

- Relaxa, só ouça. Logo que a raiva me dominou, fui invadido por uma mistura de surpresa e desentendimento, porque Ryan se levantou de cima de Emily, calmamente, e pegou uma garrafa semi-cheia de vodca.....

- O quê?? Você está me dizendo que esse psicopata...bem...estuprou ela....e....e depois....foi dar uns goles de vodca? - Amanda riu alto, não de graça, mas de nervoso.

- Não.

- ??

- Ele deu só um gole de vodca. O resto.... - Walter tinha seu rosto formigando. - O resto ele jogou em cima dela, por todo corpo dela.....

- Não. Nem fudendo!!

- Ele jogou em cima dela tudo que tinha de vodca naquela garrafa. Eu vi até as últimas gotas, pingando. Ele saiu da tenda, de costas pra ela, e se virou, ficando de costas pra mim e Jennifer, bem ao longe. Nós oscilamos e paramos um pouco, foi muito rápido. Vimos então ele segurando uma caixinha minúscula, de papelão, pegando algo dentro dela.

- Ouu...

- O primeiro impulso que tive quando vi uma chama crescendo foi de ir até lá o mais rápido que pudia. Mas só pude correr. Nunca corri tanto na minha vida. Jennifer me seguia. A uns 10 metros da tenda, comecei a correr na direção de Ryan, que tinha me notado só agora, de tão bêbado e drogado que estava. A tenda estava engolida em fogo. 

Walter pausou, pegou sua xícara de café e a virou de uma vez goela adentro. 

- Naquela hora, com todo aquele fogo, eu não sabia se meu rosto estava molhado de choro ou de suor, que porra!

O próprio rosto de Amanda, quase lacrimejando, já estava na iminência de ruir. Logo seria ela quem ficaria com o rosto ensopado.

- Coloquei na cabeça que não pararia de correr de jeito nenhum, até por as mãos naquele maldito. E ele também começou a correr quando me viu, amalucado. Aquele filho da puta chegou a dar uns gritos de vez em quando, parecendo mesmo uma besta selvagem.

- Ele não poderia ter aguentado correr por mais tempo que você. - constatou Amanda.

- Quando cheguei próximo dele o suficiente, estiquei o pé e lhe chutei uma das pernas contra a outra. Ele se desequilibrou na hora e caiu com tudo no chão. Á essa altura, eu e ele já estávamos dentro da mata.

- Imagino o que você não deve ter feito com ele.

- Eu não fiz nada, a princípio. Mas já sabia o que queria fazer desde que meus olhos flamejaram com aquela luz forte vinda do fogo na nossa barraca. Eu carreguei ele, enquanto se debatia, por todo o caminho de volta até a clareira onde ficava a tenda.

- Sim..

- Chegando lá, ele ficou tão assustado quando viu a cena que tinha criado, que começou a gritar sem parar de jeito nenhum, mesmo eu lhe tapando a boca, ele mordia, mordia. Eu acho que naquela hora ele já tinha pressentido o que lhe aconteceria.

Amanda pensou em diversos finais que Ryan poderia ter tido. Em todos eles havia presença de fogo. Chamas. Fogo e sangue.

- Peguei um pedaço de corda que tínhamos trazido de casa, 1 metro mais ou menos, e amarrei os braços dele. Dei uns 5 nós. Ryan só podia se contorcer enquanto eu o segurava pelas pernas. Jennifer chorava ao meu lado, pedindo não para que eu parasse, mas como que suplicando que eu fizesse logo o que estava pretendendo. Ela tocou de leve em meu braço, me deu um beijo idiota na testa e se afastou dali, deixando eu e aquele desgraçado à sós.

- Ela devia estar histérica. - disse Amanda.

- Todos nós estávamos Amanda! E queria que aquele miserável doente do inferno também morresse daquela maneira, em histeria......então, segurando as pernas dele, o carreguei diretamente para a fonte que ele mesmo havia criado, e onde ele merecia repousar. 

Amanda não mexia nenhum músculo aparente do rosto.

- Atirei ele na borda da tenda, onde o fogo fazia limite com a grama ainda não queimada, e o empurrei para o fogo, sem deixar de segurá-lo pelos pés. Ryan se debatia que nem um peixe fora d'água. Eu queria ver a agonia que ele sentia enquanto todo seu corpo era assado, pouco a pouco, que nem minha irmã tinha sido. Continuei segurando firme seus pés, enquanto deixava o fogo cuidar do resto do corpo. E quando ele parou de gritar, soltei os pés para que queimassem por último. Minhas mãos já estavam completamente cinzas, bolhas já apareciam. Mas depois eu não consegui sentir mais dor. Não depois de ver Emily morta....

Uma lágrima caiu na mesa.  

- Cara....isso é...

- Pesado?

- Sim, mas...

- Você está sentindo medo, Amanda? Igual Emily sentiu quando estava sendo comida embaixo daquele psicopata, não é?? Eu não estou sentindo medo, nem um tiquinho. Nem medo e nem arrependimento. O medo me impediria de ter feito justiça. E Ryan morreu, morreu sem arrependimento algum, cacete, tenho certeza disso. Quem fez o que ele fez perde totalmente a chance de receber algum tipo de piedade. E o que ele tirou da minha vida, eu nunca vou poder ter de volta. 

- Não precisa se explicar, Walt. Não tô com medo, nem arrependida. Tô assustada. Na verdade, não consigo entender como...como você ainda vive com isso.

- Com o quê? Com a morte de Emily? Com a morte de Ryan? Ou a morte de Jennifer?

- Como assim? Jennifer??

- Sim, carcinoma, fatal. 6 anos atrás. Desde que Jennifer morreu, minha mente associa aquele fato diariamente, e não pára. Ela era a única pessoa que compartilhava daquilo comigo. Agora essa pessoa é você, Amanda. Não estou mais sozinho.

Os dois se olharam com uma intensidade emocional que contagiou todo o Café Lisbon.

- Bem, eu... - vacilou Amanda.

- Me diga apenas uma coisa, Amanda. Se você tivesse presenciado sua irmã sendo estuprada e depois queimada viva......poderia viver com isso??

Obviamente, a jovem ficou calada. Ela e o próprio Walter sabiam da resposta. Nenhum deles precisava responder. Walter não sabia como, mas sabia. A garota não abriria a boca para ninguém sobre o que acabara de escutar. Amanda também tinha uma irmã, uma irmã 1 ano mais nova do que ela. Penny. Eram como carne e unha. Como fogo e fagulha. Eram como Walt e Emily foram.

Após terminar de fazer a pergunta à Amanda, Walter podia, ele mesmo, quase ver a cena hipotética que a amiga projetava em sua mente. Ele podia ver que a amiga era só medo, e receio. 

Mas Walter não precisava sentir nos outros aquele sentimento colérico e traumático que mantinha guardado em sua consciência.

Ou precisava??