quinta-feira, 2 de maio de 2013

A Arte do Diálogo e a Ignorância de Sócrates

Sócrates é um dos personagens mais enigmáticos de toda a história da filosofia. 


Ele não escreveu uma única linha sequer sobre seus pensamentos. Apesar disso, pertence ao número dos que exerceram maior influência no pensamento europeu. O fato dele ser conhecido, mesmo por quem não conhece muito sobre filosofia, tem muito a ver com a sua morte trágica.

Sócrates nasceu em Atenas e por lá passou toda sua vida, principalmente nas praças e nas ruas, onde conversava com todo tipo de gente. 

Como conta Jostein Gaarder em seu livro "O Mundo de Sofia", Sócrates achava que os campos e as árvores não podiam lhe ensinar nada. 

Por vezes, ele ficava horas e horas sozinho, completamente concentrado em profunda reflexão. 

Era visto como uma pessoa estranha, mas após a sua morte ele foi considerado o precursor das mais diversas orientações filosóficas. Por ser tão enigmático e ambíguo, inúmeras correntes do pensamento reivindicam suas ideias. 

Dizia-se que Sócrates tinha uma aparência horrível. Segundo Gaarder, ele era pequeno e gordo, tinha olhos salientes e um grande nariz achatado. Por seu livre-arbítrio incontrolável e por suas atividades filosóficas ousadas, Sócrates foi condenado à morte, aceitando tomar um cálice de cicuta.

Mas o retrato de Sócrates (e como ele era como pessoa), não são fatores tão importantes quanto são suas ideias. Milhões de pessoas e pensadores mundiais se inspiram nele até hoje.

Duas concepções alimentadas por Sócrates foram: a sua arte de dialogar, e seus métodos de argumentação na busca do conhecimento:

O Reconhecimento da Ignorância


Um dia, um homem perguntou ao Oráculo de Delfos (a profetisa de Atenas) o seguinte: quem seria o homem mais inteligente de Atenas?

O Oráculo respondeu: Sócrates. Quando ele mesmo ficou sabendo disso, provavelmente deu uma boa risada, ou admirou-se, pra dizer o mínimo. 

Ele estava longe de aceitar essa apreciação dos deuses por sua sabedoria. 

"Só sei que nada sei", afirmou Sócrates. Essa frase é a mais pura verdade, mas ela é completamente contraditória á afirmação do Oráculo sobre a sua suprema sabedoria, pois como ele poderia ser considerado o homem mais sábio de todos, quando ele mesmo reconhecia sua própria ignorância?

Socrates só se interessava pela moralidade e pelo conhecimento. Por isso, preferiu a morte a ter de encarar uma vida de ignorância.

A sabedoria de Sócrates residia na consciência dos limites do seu próprio saber, numa tomada de consciência do não saber. Só aquele que tem consciência da sua própria ignorância procura o conhecimento. Aquele que julga que conhece tudo, contenta-se com o saber limitado que possui. 


A única pessoa que não pode pensar é aquela que acha que já sabe de tudo.

Sócrates se limitava à busca do saber através de questionamentos que, primeiro, geravam uma série de novos problemas que nasciam das perguntas que ele fazia. Quanto mais respostas ele procurava solucionar, mais perguntas e problemas apareciam. Ele mesmo não acreditava em uma sabedoria plena, e sim num método de busca de conhecimento que nunca termina, ou seja, num método que não tem um fim.

A busca do conhecimento, para Sócrates, é a busca do conhecimento de nós mesmos. Sendo contra um conhecimento manifestado por terceiros, Sócrates aponta para um saber que se revela a partir da auto-descoberta do próprio indivíduo.

A Arte do Diálogo


Um diálogo socrático revela como diferentes perspectivas e formas de pensar podem facilitar a compreensão de conceitos e ações com os quais lidamos diariamente.



Na verdade, o que distinguia a atividade de Sócrates era o seu desejo de não ensinar as pessoas. Em vez disso, parecia ele mesmo querer aprender com elas. Assim, não ensinava como um vulgar professor de colégio: ele dialogava.

Durante as conversas com os outros, Sócrates começava assumindo o posto de que não sabia nada, e então simplesmente fazia perguntas às pessoas, expondo contradições nos argumentos delas e encontrando falhas em suas respostas. Dessa forma, ele fazia com que as pessoas, caso estivessem equivocadas, conseguissem perceber aonde estavam errando, e elas então extraíam novos insights e aprendiam novos conhecimentos.


No discurso do diálogo, Sócrates levava frequentemente os outros a reconhecerem os pontos fracos de suas próprias reflexões. Numa 1ª fase, ele procurava de forma polêmica destruir a suposta coerência do raciocínio de seus interlocutores. 

Ele fazia com que os outros falassem sobre aquilo que pensavam e afirmavam, os obrigando a refletir sobre aquilo que julgam. 

Assim, seus interlocutores se conscientizavam da suposta "verdade" das suas afirmações, levando-os a um exame de consciência que lhes dava conta da sua própria ignorância.

Sócrates, com isso, opunha-se a verdade estereotipada e ao dogmatismo, e pretendia destruir os preconceitos irrefletidos. 

Ele pode ser considerado também um mestre da persuasão. Mas essa persuasão não tinha o objetivo de convencer ninguém a fazer nada, e sim de reformular o pensamento das pessoas.

É dito ainda hoje que a mãe de Sócrates era parteira, e ele mesmo comparava a sua atividade filosófica com a arte de sua mãe, a obstetrícia. Não é a parteira que dá à luz a criança, ela apenas está presente e ajuda a mãe. 

Sócrates compreendeu também que a sua tarefa era ajudar os homens a "parir" o saber correto, porque o verdadeiro saber tem de vir de dentro e não pode ser importado. Só o conhecimento que vem do interior é uma "inteligência". 

Portanto, já que a capacidade de dar à luz é uma faculdade natural, todos as pessoas podem compreender as verdades filosóficas usando simplesmente a razão. Quando alguém recorre à razão, retira qualquer coisa de si mesmo, ou seja, traz para fora algo que já está dentro de si. Como uma parteira.

- - - 

Leia mais sobre Sócrates no livro "O Mundo de Sofia" de Jostein Gaarder. No "Livro da Filosofia" (página 46-49), da Ed. Globo, há uma seção específica que resume a vida e obra de Sócrates.


Nenhum comentário:

Postar um comentário