sábado, 18 de maio de 2013

Fama Roubada

O quadro Mona Lisa hoje está exposto atrás de uma caixa de vidro á prova de balas e com temperatura controlada em uma parede exclusiva no Museu do Louvre, em Paris.

Os agentes do Louvre estimam que cerca de 80% de seus 6 milhões de visitantes anuais vão ao museu principalmente para ver a Mona Lisa. O seguro atual da obra é estimado em quase 700 milhões de dólares (bem mais do que faturam a grande maioria das empresas e instituições públicas; muito superior também a qualquer pintura já vendida). Mas não se sabe se é possível atribuir algum valor, enorme que seja, a essa pintura.

É justo dizer que a Mona Lisa é mais do que um retrato, é um marco da cultura ocidental. 

Ela foi mais copiada, parodiada, elogiada, zombada, analisada e especulada do que qualquer outra obra de arte. Sua origem, por séculos envolta em mistério, intrigou pesquisadores, e seu nome foi tomado emprestado para óperas, filmes, músicas, pessoas, navios...até mesmo por uma cratera em Vênus.

Só que a provável sensação de um visitante do Louvre será de desapontamento ao olhar a pintura mais famosa do mundo. 

Para início de conversa, como conta o sociólogo Duncan J. Watts em seu livro "Tudo é Óbvio", quando ele mesmo visitou o museu, percebeu que a pintura é "surpreendentemente pequena". E, estando naquela caixa á prova de balas e sempre rodeada por multidões de turistas batendo fotos, é "irritantemente difícil de vê-la". 

Watts relata que, quando você enfim consegue se aproximar da Mona Lisa, está mesmo esperando algo especial nessa pintura (algo que o crítico de arte Kenneth Clark chamou de "o exemplo da perfeição", que faz aqueles que apreciam a obra esquecerem todas as suas dúvidas enquanto admiram esse "exemplo da perfeição"). 

O crítico de arte Kenneth Clark afirmou que há traços do domínio da perfeição em Mona Lisa que são visíveis apenas para olhos treinados. Então, leigos como eu ou você deveriam simplesmente aceitar o que nos é dito (ou seja, que a Mona Lisa é indiscutivelmente a pintura mais valiosa do mundo). 

Ok, é justo concordar com isso.

Mas, se isso é verdade, você poderia esperar que a mesma perfeição em Mona Lisa que é óbvia para Kenneth Clark teria sido óbvia para todos os outros especialistas em arte ao longo da história (o que é óbvio, não é). Como o historiador Donald Sassoon conta em sua biografia da Mona Lisa, nada poderia estar mais distante disso. 

A Mona Lisa, uma pintura que repousava nas residências de reis, é uma obra de arte, é claro, mas apenas mais uma entre tantas outras. 

Na verdade, foi somente no século XX que a Mona Lisa começou sua ascensão á marca global. E mesmo então, isso não foi resultado de críticos de arte que do nada começaram a apreciar Leonardo Da Vinci, nem devido a esforços de curadores de museus, socialites, reis ou políticos. 

Nada disso: a fama da Mona Lisa veio de um roubo.


A Fama Pelo Roubo


No dia 21 de agosto de 1911, um funcionário descontente do Louvre chamado Vincenzo Peruggia se escondeu em um almoxarifado até o fechamento do museu, quando então saiu com a Mona Lisa escondida sob seu casaco. 

Italiano orgulhoso que era, Peruggia aparentemente acreditava que a Mona Lisa deveria ser exposta na Itália (sua terra natal e de Da Vinci), e não na França, e estava determinado a repatriar ele mesmo o tesouro havia tanto tempo perdido de seu país.

Contudo, como muitos ladrões, Peruggia descobriu que era muito mais fácil roubar uma obra de arte do que se livrar dela. Depois de escondê-la em seu apartamento por 2 anos, ele foi preso enquanto tentava vendê-la para a Galeria Uffizi, em Florença. 

Mas, apesar de ter falhado em sua missão, Peruggia teve êxito em alavancar a Mona Lisa a uma categoria de fama suprema.

O público francês, ao invés de ficar revoltado, foi cativado pelo ladrão por causa da inesperada recuperação do quadro. Os italianos, claro, também ficaram extasiados com o patriotismo do conterrâneo, e trataram Peruggia mais como um herói do que como um criminoso (antes de a Mona Lisa retornar a seu dono francês, ela foi exposta por toda a Itália).

A partir desse momento, a Mona Lisa jamais retornaria ao anonimato. Como já dito, a obra foi usada em milhares de propagandas, copiada e parodiada inúmeras vezes por milhares de artistas, cineastas, músicos e por aí vai.



Como observou Donald Sassoon em sua biografia da Mona Lisa, todas essas diferentes pessoas, sejam ladrões, vândalos, artistas e publicitários, músicos, diretores de cinema......essas pessoas estavam usando a Mona Lisa para seus próprios objetivos: para defender um ponto de vista, para aumentar a própria fama, ou simplesmente para usar uma marca que sentiram que significaria alguma coisa para outras pessoas.

Dessa forma, é impossível imaginar, hoje em dia, a história da arte ocidental sem a Mona Lisa e, nesse sentido, ela é realmente a maior entre todas as obras de arte. 

Mas também é impossível atribuir seu status incomparável somente a algo da pintura em si, e esse último ponto apresenta um problema, porque quando tenta-se explicar o sucesso da Mona Lisa, é precisamente em suas características que focamos sua atenção. 

Segundo conta Donald Sassoon, quaisquer atributos que os críticos citem como evidência (a nova técnica de pintura que Leonardo empregou, o sorriso enigmático da Mona Lisa, ou até mesmo a fama do próprio pintor), "sempre podemos encontrar várias outras obras de arte que podem parecer tão boas ou até melhores que a Mona Lisa".


Podemos solucionar esse problema ao notarmos que não é nenhum desses atributos que torna a Mona Lisa tão especial, mas sim a combinação de todos esses atributos (o sorriso da Mona Lisa, o uso da luz e o sombreamento das cores, a reputação artística de Da Vinci). 

Geralmente, se mede a qualidade de uma obra de arte em termos de suas características, mas, na verdade, fazemos o contrário (decidimos primeiro qual pintura é a melhor, e só então nos vêm a intuição de que as características técnicas dessa obra devem ser suficientes para se explicar a sua qualidade). 

Mas não é o suficiente.

Antes do roubo planejado por Vincenzo Peruggia, o que era a Mona Lisa além de um mero quadro encomendado por um rei que queria comemorar, junto com sua esposa, o nascimento de seu filho?? 

Essa obra gerou retornos financeiros lucrativos para publicitários e agentes por exemplo, na ordem dos bilhões de dólares, mas não acho que a Mona Lisa seja melhor do que muitos quadros que já se viu, e ainda se vê por aí. 

O resultado é o raciocínio circular. Diz-se que a Mona Lisa é o quadro mais famoso do mundo porque ela tem as características X, Y ou Z. 

Mas então, porquê tantas outras obras (como o Dr. Gachet de Van Gogh, ou a magistral A Persistência da Memória de Salvador Dali), que possuem características técnicas tão apuradas quanto à Mona Lisa, não são tão lembradas e não geraram tanto dinheiro? 

A Mona Lisa é famosa porque é mais parecida com Mona Lisa do que qualquer outro quadro.

A sede de patriotismo de um ladrão italiano e a idealização pré-determinada dessa obra é apenas o que a torna famosa. 

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