segunda-feira, 17 de junho de 2013

Years Gone - Dr. Sin (Adap.)

How many times will we close the door
There´s nothing left
That we had before.

Hang on, don't you lose it,
Write it off
That's the way it is.
Give it up, you gotta choose it.......today.......or yesterday.

Today or yesterday.
Today or tomorrow.
Tomorrow or yesterday?

Choose it.

Remember yesterday, and learning about all you had already lived,
It's the same that make a better present.

Choose tomorrow, if you prefer.
It's the same that live the present,
Transforming it into something better,
Who cames from lessons of the past.

Choice, change these lessons if they are limited,
And create their own ones.

Years gone.

Dr. Sin - Years Gone (Andria Busic, Ivan Busic, Eduardo Ardanuy; Brutal, 1995)

quarta-feira, 12 de junho de 2013

[Conto] Investimento Falido

Cap. 1 - Inspiração Fraternal

Evan acordava todo dia as 6h30 da manhã com aquela mesma sensação psicológica de inércia e mal-estar da primeira hora do dia. Se trocava sempre em 4 minutos e, no máximo 2 vezes por semana, se olhava no espelho antes de sair de casa. Pouquíssima vaidade? Já era demais pra ele. Mas também, é bem difícil tentar olhar o reflexo da sua cara após tanto esforço e stress: dormindo em média 5 horas por noite. Seus retornos para casa do trabalho ocorriam entre as 22h e a 1h30 da madrugada. Evan estava esgotado de sua rotina incessante.

Já estava há 10 meses em serviço na pizzaria Carlton. Trabalhava uma média de 50 horas por semana. Cumprindo o expediente e fazendo os bicos, ele sobrevivia.

Os finais de semana de Evan deixaram de se basear em festas, bares, chapação e ócio. Em vez disso, ele ficava preparando massa de pizza. A clientela na pizzaria era estável, o lugar ficava sempre apinhado de gente faminta, e isso já era o suficiente para que Evan suasse pizza todos os dias.


- - - - -

O curso técnico de Sistemas de Informação que Evan estava cursando tinha duração prevista de 1 ano e meio. Só que aí, veio a decisão de abandonar o curso, de maneira prematura, passado apenas 1 ano. 

Evan desejava mais do que estudar softwares, algoritmos e programas de computação. Ele desejava o sucesso e o poder que ficavam além da simples tecnologia. Estava absurdamente insatisfeito com sua vida social, e principalmente econômica.

A solução de Evan para essa insatisfação foi apenas uma: Will, seu irmão mais velho. 

Corretor imobiliário em Cleveland a 2 anos e meio e apenas 4 anos mais velho do que ele, Will já tinha um Audi novo na garagem. Quando Evan esteve na cidade pra visitar o irmão, não se lembra de ter pago por alguma coisa que comeu, bebeu, ou usou. Will fora um anfitrião nato e lhe bancou em tudo.

A vida promissora de Will estava servindo como faísca de excitação para que Evan pudesse ascender na vida. O garoto queria estudar na Universidade de Ohio pois estava determinado a construir uma carreira de trabalho na mesma área de atuação de Will. Ele queria fazer isso, mas precisaria arrumar um emprego em Cleveland que o sustentasse. Não poderia viver pra sempre na sombra do irmão mais bem sucedido.

Por isso, Evan fez um planejamento de vida a curto prazo: arrumar um emprego próximo à casa de Will em Cleveland, onde ficaria pelo tempo necessário pra que pudesse formar uma quantia de dinheiro razoável que o permitisse estabelecer-se financeiramente.

Lá em Cleveland, junto de Will, ele investiria em um curso preparatório de admissão á Universidade de Ohio, com duração de 6 meses. Este curso foi recomendado pelo próprio Will, que sabia da dificuldade do exame admissional, tendo ele já feito o mesmo curso.

Após o abandono do curso de Sistemas de Informação e da decisão de seguir os passos do irmão, à sua maneira, Evan pensou que havia tomado uma decisão racional, finalmente.

A paixão pelo ofício e pela vida do irmão o motivou a querer entrar na Universidade de Ohio, a mesma faculdade que o irmão estudou, com a diferença que Will era graduado em Administração de Empresas, enquanto Evan queria prestar o curso de Economia.

Para Evan, essa oportunidade de estudo e carreira profissional se encaixou da melhor maneira possível em uma conversa casual dentro do escritório de trabalho de Will, naquela primeira viagem para Cleveland.



Cap. 2 - Proposta Influenciada

Will trabalhava em um prédio comercial de tijolinhos ao lado de uma indústria inativa de produtos químicos, caindo aos pedaços. Era lá onde ficava o escritório matriz da imobiliária Petrucci. O setor imobiliário apresentava um panorama econômico progressivo. Os negócios estavam pegando fogo. 


Em seu escritório, Will apresentou Evan para seu melhor amigo e também chefe de trabalho, Luciano, um italiano conservador e metido à besta. Luciano era 20 anos mais velho que Will, que o conhecera em um evento na Ohio. Juntos, Will e Luciano atuavam na imobiliária Petrucci, controlada pelo italiano e que fora fundada há mais de 23 anos.

A situação nos negócios era a seguinte: na época em que Will apresentou Luciano para Evan, o italiano estava completamente sobrecarregado de serviço devido a um acidente que sofrera em uma viagem para sua cidade natal, Bari, em que acabou tendo de amputar uma perna, e então, Luciano vinha passando por uma situação delicada, tendo que permanecer em repouso por vários dias.

Luciano ficava a maior parte do tempo no escritório da Petrucci, que ficava na cidade de Elyria. Um fato é que Luciano já não estava mais conseguindo administrar todos os empreendimentos da região onde sua imobiliária operava, além de seu outro negócio, uma empresa familiar, estar com contas já no vermelho. 


Will sabia da dificuldade de seu chefe e, por isso, ofereceu uma solução criativa, considerando a situação de seu irmão e de Luciano. 

A situação era que Will morava em Cleveland, no norte do estado de Ohio, e trabalhava em Elyria, a cidade vizinha onde ficava o escritório da imobiliária Petrucci. Luciano, porém, apesar de ficar em Elyria a maior parte do dia, morava bem mais ao sul de Ohio, na cidade de Lancaster, onde por acaso ficava a instituição do cursinho preparatório que Evan iria cursar. 

Dessa maneira e exatamente por isso, Will sugeriu que o italiano admitisse Evan como funcionário temporário de sua empresa familiar, o que diminuiria a carga de trabalho excessiva do italiano na imobiliária. E ainda, o curso preparatório para admissão na Universidade de Ohio era dado bem próximo à casa de Luciano, o que abriu margem para o surgimento de outra ideia.


O italiano se alegrou com a possibilidade de contar com Evan logo de prontidão, pois isso afrouxaria bastante seu calendário, e o italiano precisava realmente de ajuda em sua empresa. Não demorou para que sugerisse que Evan trabalhasse para ele. Luciano sabia da pretensão de Evan de fazer o curso, e, estando a instituição de ensino perto de sua casa, pensou que o garoto poderia morar com ele, pagando com uma parcela do salário que ganharia por cama e pelo menos 2 refeições diárias. 

Isso permitiria que Evan pudesse concluir o curso sem que precisasse voltar imediatamente para Vancouver logo que o terminasse. E a fatia do salário determinado como pagamento pela pensão foi pequena, aos olhos dos dois. 

Evan explodia de êxtase devido a oportunidade que surgia. Tinha conseguido, por influência do irmão, um esquema que se adaptava perfeitamente ao que desejava. 


3 - Aproximação Intencional


Os pais de Evan há algum tempo já sabiam de sua vontade de conseguir uma formação acadêmica em Ohio. Eles insistiam em provisionar integralmente não só o curso do filho, como também todas as suas despesas pessoais. O pai era juiz e a mãe, uma contadora. Dinheiro não seria problema para Evan se ele acatasse a proposta, ou no seu caso, o presente. Mas ele era orgulhoso, e por nenhum instante sequer chegou a cogitar aceitar toda aquela grana dos pais. 

Sua mãe colocava em seu emprego todas as razões negativas pelas quais ele não crescia na vida. Ela dizia: "Quem consegue alguma coisa passando mais de 10 horas por dia fedendo à pizza? Ele respondia apenas com um olhar desacreditado. As pizzas nem importavam mais. Já tinha batido o martelo e estava determinado a entrar na Universidade e buscar uma vida mais digna. A mãe não mudaria a ideia dele tão facilmente.

E não mudou, afinal. Menos de 5 meses após a viagem para Cleveland, Evan já se encontrava novamente na cidade, dessa vez de forma definitiva, ele esperava.

A maior dúvida na cabeça de Evan era como seria o novo ambiente em que moraria provisoriamente. Não tinha nenhuma ideia, claro, de onde era a casa, o quão próximo ficava da instituição de ensino que estudaria, como seria o dia a dia da família de Luciano ou se teria que dividir quarto com alguém. Sobre esta última dúvida, ele começou a saber através do próprio Luciano:

- Acho que você vai se dar muito bem com a Susan e a Ellen. - disse o italiano. - e o Thor também, claro!

- Susan seria sua esposa, Ellen a sua filha, e Thor.... - indagou Evan.

- ....meu papagaio. - disse Luciano. 

Evan começou a gargalhar.

- Imagino que ele fale ou cante o que você mandar, né? Hahahaha. - zombou Evan.

- Mais é claro! E já o treinei pra falar: "Vai trabalhar Evan, seu vagabundo de merda", quando te ver fazendo hora na cozinha ou na sala de TV.

- Ah...vou precisar mesmo de um papagaio chiando no meu ouvido! 

E os dois riram.


- - - - 

Logo em sua primeira semana de trabalho com Luciano, Evan foi mergulhado em intenso treinamento para conseguir assimilar toda a carga de tarefas as quais teria responsabilidade, o que não era pouca coisa. Passou os primeiros dias inteiros na frente da tela do computador, aprendendo sobre os processos da empresa de Luciano através de uma enxurrada de papéis, planilhas e projetos, acompanhando o italiano nas excursões pelas obras e, durante seus momentos de lazer, assistindo a filmes, ouvindo música, saindo para andar pela cidade, ou, o que lhe vinha agradando mais, conversando com Ellen, a filha de Luciano.

A garota era bem alta, tinha a pele parda, cabelos castanhos longos até o meio das costas. Seu olhar era sempre calmo, e ao mesmo tempo atraente. Pelo sorriso sempre presente, e um bom humor até exagerado, ela poderia facilmente ser percebida por Evan como uma pessoa extremamente agradável e cativante. 

Mas ele já havia ouvido sons altos durante a noite, que claramente eram gritos dela, durante o que pareciam ser discussões bastante sérias. A julgar pelo anel no anelar direito da garota, Evan concluiu que o par das discussões seria provavelmente o namorado dela.


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Em 1 mês de curso preparatório, o garoto já tinha acumulado 2 apostilas de exercícios sobre disciplinas variadas, as quais seriam cobradas no exame de admissão para Universidade de Ohio. O garoto tinha em média de 2 a 3 horas por dia de tempo livre pra se dedicar aos estudos, mas raramente passava de 60 minutos diários concentrado em inúmeros testes e problemas a resolver. Evan estava sendo tão acionado por Luciano na empresa que deixava o cursinho em segundo plano. Ou melhor, em terceiro plano. 

Ellen era sua prioridade.

Ele dividia seu tempo entre as atividades na empresa de empreendimentos, as visitas ás obras e participação em reuniões da imobiliária, estudando, saindo de vez em quando com alguns conhecidos que conhecera no cursinho, e passando um tempo cada vez maior com Ellen.

A garota, de 21 anos, dois mais velha do que ele, já estava sendo considerada por Evan como uma pessoa bastante próxima, íntima, tanto que ele já nem estranhava quando a garota chegava da faculdade tarde da noite e o encontrava estirado no sofá de casa (quando lhe fazia companhia durante um filme ou algum programa); ou quando Evan estava a 10 cm da tela do computador, alimentando planilhas com os olhos encovados de sono, e ela o interrompia pondo a mão em seu ombro, lhe oferecendo uma xícara de café enquanto segurava uma outra, sugerindo que as bebessem durante horas de papo sobre relacionamentos, hobbies, experiências e viagens alucinantes.

Essas horas, com o passar dos tempos, se tornaram um hábito diário. Não demorou para que a xícara de café se transformasse em copo de whisky, de vodca e, principalmente, de vinho. 

Luciano tinha uma adega invejável e amava vinho, bom italiano que era. Metade de uma parede da casa era reservada para uma prateleira de madeira, dispondo dezenas de garrafas de vinho. E Evan logo notou que Ellen havia pego o gosto pela bebida, obviamente por influência de seu pai. Ele mesmo não gostava muito de vinho, mas a garota frequentemente entornava 2 ou 3 taças. Em uma dessas noites de podres e ideias adolescentes regadas à bebedeira, Evan se certificou de que Ellen já havia bebido uma quantidade suficiente de álcool para tirar uma dúvida sobre a garota:

- Outro dia te ouvi gritando com alguém. Você parecia estar bem puta. E esse anel aí que está usando... - iniciou ele.

- Ah tá, devia ser o Eric, meu namorado. Ele fala umas merdas às vezes, me deixa muito puta mesmo. Mais nem repara, é sempre besteira. 

- Aham.... 

- Também, já tô meio de saco cheio, viu. - confessou ela. - Me passa o isqueiro aí.

Ela acendeu um cigarro como que dando uma deixa pra eles mudarem de assunto, e Evan acendeu outro, esperando que a garota se distraísse e eles pudessem retomar a conversa. 

Não voltaram a esse assunto.


- - - - -

Em uma noite, ao chegar da Petrucci, Luciano abordou Evan enquanto este organizava umas pastas em uma gaveta.

- Evan, deixa eu te falar. - começou Luciano. - Na quinta que vem vou pra Orlando, visitar meu pai. Preciso te deixar algumas coisas pra fazer, e algumas reuniões que você vai ter que ir, mas relaxa, Will vai com você. 

- Ok, e fica por lá ate quando?

- Vou na quinta-feira dia 23, volto na segunda 27.

- Tranquilo, acho que não vou ter muitos problemas não viu.... mais qualquer coisa, te ligo.

- Ou fala com teu irmão, né.

- Sim.....tá certo Luciano, fica tranquilo. O curso tá apertando pra caramba, mas dá pra levar.

- Tenho alguns dados de material de uma obra. Atualiza lá pra mim? - disse o italiano, entregando alguns recibos ao garoto.

Evan os pegou e foi logo para a frente do computador.



4 - Compromisso  

Parando pra pensar, Evan chegou a conclusão de que havia tomado uma decisão certa ao deixar praticamente tudo, sua família, seus amigos e suas ambições em Vancouver, para se aventurar em um mundo completamente novo, em que tentaria começar a construir uma imagem e uma reputação renovadas, uma carreira profissional bem sucedida e uma vida tão privilegiada quanto a de seu irmão, de quem tinha tanto orgulho.

Evan pensava muito como Will. Chegava a uma espécie de idolatria. 

Essa referência cega do irmão era benéfica pelo fato de Evan se sentir constantemente comprometido e motivado á conquista das metas que havia estipulado, a exemplo de Will; e essa ambição não havia perdido forças. Mas esse idealismo em relação a Will poderia lhe ser prejudicial no aspecto de Evan estar agindo cada vez mais de maneira cega, resolvendo trilhar um caminho de sucesso alheio que não necessariamente corresponderia à sua própria realidade. 

Idolatrar o irmão havia lhe dado um propósito, que poderia ser obscurecido ao comprometer sua autonomia de pensamento e também sua capacidade individual de decisão. 

Evan agia naturalmente copiando os outros, e isso era importante, considerando sua experiência precoce de vida. Mas poderia estar deixando de considerar os riscos pelos quais passava. E isso ele não identificava como um problema. Para Evan, sua vida havia se encaixado de uma forma maravilhosa, até fantástica, idealizada. Se sentia mais leve, mais confiante, havia conhecido um grande número de pessoas em pouco tempo e conseguia tocar sua vida turbulenta na medida do possível. 


- - - - -

Dias antes da ida de Luciano a Orlando, o garoto estava mais ansioso que o normal. Ficaria responsável por toda a contabilidade da empresa. E já tinha algumas tarefas pendentes a resolver. 

A esposa de Luciano, Susan, se mostrou a Evan uma pessoa bastante reservada. A mulher falava pouco, e quando falava era para dizer as mesmas coisas. Era simpática, mas frequentemente Evan via frascos de remédios controlados e alguns para dor de cabeça em cima da bancada da cozinha; os frascos rotulados com etiquetas brancas contendo o nome de Susan e a dose recomendada. 

Ele achava que a mulher lutava para controlar um temperamento excêntrico, e nas horas em que Susan assumia uma expressão serena e ficava em silêncio na casa, por um longo período, o garoto associava que Susan havia acabado de tomar sua dose diária dos psicotrópicos de tarja preta. 

Mas sua relação com a mulher de seu chefe nunca havia passado de conselhos e perguntas sobre a vida do garoto em Vancouver, a ocupação de seus pais e alguma ou outra piada ou conversa descontraída, raramente. Ele não precisava de muito mais que isso. O tempo livre que passava era quase sempre com Ellen, com quem se sentia muito mais a vontade. 

Essa abertura no relacionamento com Ellen começou a intrigar Evan de alguma forma. Ele começava a se aproximar de Ellen, sorrateiramente, tanto em presença quanto em pensamento. Ideias surgiam toda vez que estavam juntos. Era fácil essas ideias se desenvolverem, pois os dois passavam um bom tempo interagindo, e o garoto ia nutrindo uma atração evidente por ela. 

Atração que vinha sendo controlada tranquilamente por Evan pelo fato da garota estar comprometida, e ele também, até mais do que ela.

Tudo corria sob controle. Chegou quinta-feira e Luciano foi para Orlando. 


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Lá pelas 22h da sexta-feira, Evan havia terminado de resolver o que tinha pendente e, sem mais nada pra fazer, pensou em sair de casa. Mas lembrou que a casa estava vazia, e ele não poderia sair.

Se fosse sua casa, em Vancouver, ele poderia fazer o que quisesse, como uma festa. Mas a casa não era sua, e ele não poderia de modo algum cometer uma estupidez dessa. Por isso ligou para Ellen, perguntando se não poderia chamar um ou 2 amigos do cursinho. Só algumas cervejas, trocar ideia, som no volume baixo, clima inofensivo.

A garota não gostou muito da ideia e achou melhor que ele não chamasse. Então, Evan ligou a TV e começou a assistir um filme. 

A Espera de um Milagre. Stephen King, muito bom, o deixaria entretido naquela sexta.

Durante a cena da execução na cadeira elétrica, quando o gerador de energia pifa e o acusado literalmente frita compulsivamente na cadeira, Evan ouviu o barulho da porta batendo e viu Ellen passando pelo corredor. 

Ele voltou a assistir o filme. Logo depois, a garota entra na sala.

- Quem você queria chamar pra vir aqui? - perguntou ela.

- Dois amigos do cursinho. 

- Ah, sei lá. Hoje queria ficar em casa mesmo. Acho que uns amigos devem passar aqui daqui a pouco. - disse ela.

- Hmm. Que horas?

- Uma meia-noite, não sei. Por aí.

- Rola eu chamar um pessoal do cursinho?

- Esse dois amigos só? - o garoto confirmou com a cabeça.

- Então não pega nada. - concordou Ellen.

- Beleza então. Vou ligar pra eles.



5 - Clímax 


Na madrugada daquela mesma sexta-feira, os amigos de Ellen e os de Evan haviam chegado e todos se reuniram na área da churrasqueira no quintal da casa (pro churrasco tinha metade de uma peça de carne e um mini-grill com 17 anos de uso). Demorou 1 hora até o fogo acender. Até lá, a maioria se distraía com vodca, rum, até gim, além de várias Buds trincando no freezer (que era novo). 

Ellen chamou duas amigas da faculdade. Apenas um dos conhecidos do cursinho de Evan, Joey, acabou indo. Todos acabaram se conhecendo rapidamente, e o ambiente logo se tornou casual. 

As amigas de Ellen, Carrie e Lisa, levaram 2 garrafas de bebida, uma de rum e outra de vodca. Os cinco iam as esvaziando rápido, e às 3:00 da manhã não restava uma gota de álcool, apenas umas quatro ou cinco latas de cerveja. Evan já estava completamente bêbado, assim como todos, menos Carrie, que estava dirigindo.

- Hey, abaixa o som um pouco! - pediu Ellen a Carrie. 

- Ninguém reclamou ainda. Deixa assim. - teimou Carrie.

- Abaixa só um pouquinho pra ninguém ter que ligar aqui depois enchendo o saco. - disse Evan, que estava a 10 minutos sentado em uma cadeira, quieto, olhando para Thor, o papagaio.

Carrie reduziu o som e eles continuaram conversando. Evan reparou em Lisa fazendo um aceno de mão para. O garoto não entendeu o que era. Continuou brisando no papagaio.

Uns 15 minutos depois, Joey olhou para Lisa e apontou em direção a uma porta, que dava para a lavanderia. Lisa devolveu com um olhar. Na deixa, Joey se levantou e Lisa o acompanhou para dentro da salinha onde a diarista de Susan e Luciano esfregava e passava roupa, e onde os dois passariam um bom tempo.

Carrie parou de falar alguma coisa e olhou para Evan, que mirava Ellen com um olhar explorador, fascinante. O garoto dava a impressão de ter se perdido na figura da garota alta de cabelos longos com quem estava vivendo como se fossem irmãos.

Ellen se levantou para pegar o cinzeiro que estava na mesa da cozinha, e Carrie a acompanhou, para ir ao banheiro. Evan trocou de música no leptop e resolveu acender um cigarro também. Ellen voltou da cozinha com o seu já aceso.

- Me empresta o isqueiro. - pediu Evan. 

Ellen o jogou pra ele.

- Eu tava tão bêbado a ponto de não ter sacado o lance do Joey e a Lisa? - perguntou ele.

- Hahahaha. Você ficou uma meia hora dentro da casa. Falou que precisava ir ao banheiro. A gente achou que você tinha dormido na privada. - comentou ela.

- Hahahaha. 

Então, os dois se sentaram sozinhos ali no quintal iluminado pela lua, em uma noite de calor intenso e prazeroso em Lancaster. 

Ideias nada inocentes já passavam pela cabeça de Evan, como vinham passando desde que vira a filha de seu chefe pela primeira vez. Após o que pareceu longos minutos, o garoto deixou a mão vacilar, até tocar suavemente a perna de Ellen. Ele a tirou em seguida. A garota se fazia de despercebida, olhando vacilante para qualquer lugar, no vazio. 

- Tava pensando. Nunca vi seu namorado, nem você comentou muito dele.

- O Eric? Ah, ele é gente boa. Você iria se dar bem com ele.

- Hmm...eu acho que não. 

Ela franziu as sobrancelhas.

- Porquê não?

- Não quero conhecer ele.

- Qual o problema?

- Nenhum.

- Então... porque você quis saber dele aquele dia? - Ellen meneou os ombros.

- Eu não queria dele, se é que você não percebeu. Na real, acho até melhor que você nem fale dele. Desnecessário né? - perguntou Evan, pegando na mão da garota.

Quando Ellen não tirou a mão de seu toque, Evan tentou a beijar, mas a garota desviou levemente a cabeça para o lado, deixando o corpo mole. Mesmo tendo desviado do beijo do garoto, Ellen ainda não havia soltado a mão de Evan. Com a outra mão, Evan roçou na perna dela e se aproximou novamente. Ela desviou. Quando Evan recuou pela segunda vez, a garota o puxou pela gola da camisa e o beijou.

Por um bom tempo ficaram ali, se pegando, até que duas cadeiras fossem desnecessárias e eles se ajeitassem em uma delas. De esguelha, Evan viu Carrie chegando no quintal, parando, e indo discretamente para uma cadeira de espreguiçar. Agradeceu que a amiga de Ellen tinha colaborado ao se demorar no banheiro e em não ter interrompido os dois quando voltou. 

O ambiente esquentou, as mãos deles se enlaçavam no corpo um do outro. Suas caras estavam embaçadas de suor, devido ao calor excessivo. Naquelas condições, suas roupas logo estariam esparramadas no chão. Num momento aleatório, os dois se separaram, e quase que simultaneamente esticaram a mão para o banquinho onde estavam um maço de Marlboro Green e um Lucky Strike. 

Ao mesmo tempo fumavam e iam batendo as brasas, trocando olhares ligeiros e dando um ou outro pega. Como que terminando um ritual, os dois descansaram as bitucas uma do lado da outra no cinzeiro vermelho de vidro (que Luciano trouxera de Barcelona), e voltaram a se beijar, mas só por alguns segundos, como uma introdução de uma cena principal.

Em algum momento a garota se levantou, e Evan avançou firme junto a ela, encaminhando-os para dentro de casa. Apenas nesse meio-tempo Ellen notou Carrie de volta ali, deitada na espreguiçadeira branca, numa situação ao menos constrangedora.

 Algum sinal entre elas, uma resposta. E Carrie e Evan entraram dentro de casa.

Evan dormia em um quarto que fora improvisado de uma salinha, que tinha sido construída para ser uma espécie de escritório. Era um quarto pequeno, mas pelo menos a cama era boa, e o armário minúsculo suportara todas suas roupas.

Os dois passaram pela cozinha sem se desgrudar. Ellen esbarrou num pote de creme de amendoim que estava em cima da bancada, o pote rodopiou e estourou ao bater no chão.

Entre continuar o caminho para a salinha do escritório improvisada de quarto e deixar o chão impregnado de creme, os dois aceitaram que encontrariam a cozinha fedendo a amendoim pela manhã e seguiram para o quarto do garoto. 

O único local da casa de onde vinha luz era justamente aquele quartinho de Evan. Eles foram em direção a ele. A porta foi trancada. 

E as luzes foram apagadas.



6 - Repercussões 


No dia seguinte, Evan acordou e Ellen já não estava mais na cama. O garoto levantou e foi no banheiro para lavar o rosto. Estava mais magro. Um olhar encovado já era visível sempre no fim dos dias, quando geralmente estava exausto. Mas agora ele estava pouco se fudendo. Se sentia absurdamente bem. 

Deu um meio sorriso tosco e apático para si mesmo no espelho, passou água na cara e foi procurar Ellen.

Ela fumava um cigarro matinal sentada na cadeira ao lado do som, no quintal. Carrie já havia ido embora. Joey e Lucy deviam estar dormindo no meio das roupas passadas na lavanderia.

- Acordou faz tempo? - perguntou Evan, como dando bom dia.

- Aham. Faz umas 2 horas.

- Cadê o resto do pessoal?

- Ryan e Lucy devem estar dormindo. Ou trepando. A porta da lavanderia tá trancada. Carrie passou por ali e nem os ouviu. Sei lá deles.

- Ah. Entendi. Bom, vou tomar uma água.

Aquele sentimento de constrangimento após uma situação igualmente constrangedora era evidente agora para Evan e para Ellen. Só que esse sentimento até ajudou para que o resto do sábado seguisse o mesmo roteiro: acordar, trepar, comer, sair (ou ficar mais um pouco em casa), trepar, sair de casa (por pressão de Ellen), dormir, comer, trepar...... e assim foi no domingo.

- - - - -

De madrugada, no despertar de segunda-feira, Evan suava bem pouquinho na região da testa. Arfava também imperceptivelmente. Ele estava ligado, bem acordado. E pensava que seu fim de semana tinha sido tanto excêntrico quanto perigoso. Correu como ele queria. Ele conseguiu passar das conversas corriqueiras para transas a cada 8 ou 12 horas e um envolvimento pesado com a filha de seu chefe.

Mas, como todo negócio, este corria riscos. Luciano, italiano conservador, prezava com fervor sua personalidade teimosa e precavida. 

Ficava uma pergunta na cabeça de Evan: O quê um executivo renomado iria achar de seu "estagiário", morando em sua casa, estar transando com sua filha enquanto ele dormia, ou melhor, viajava?? 

Evan se perguntava: "Como Susan reagiria?"

Além disso, tinha o fato de que Ellen namorava. Quando Evan conversou com a garota na semana anterior, ela dissera que Eric tinha viajado com os pais para Buenos Aires, onde passaria todo o feriado. Nessa informação, surgiu uma faísca que acabou gerando o que de fato aconteceu entre os dois.

Evan estava mais que tudo, preocupado. Esses dias intensos provocaram um impacto no garoto, um choque emocional. Criara um apreço inexplicável por aquela jovem com quem estava morando. 

Ele divagava por várias horas, deitado na cama, com Ellen capotada a seu lado. Durante esses momentos ele se esforçava para não acordar a garota, se esforçava para não jogar na cara dela o que realmente estava acontecendo. O que estava acontecendo para ele.


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Luciano voltou de Orlando. Os negócios também não demoraram a voltar ao normal. E também a rotina cheia de Evan. Vieram intensas preocupações sobre Ellen e a repercussão que o caso deles poderia ter.

Não podia ficar com ela, não agora, nessa sua situação, porque talvez Luciano ou mesmo Susan julgassem um absurdo o relacionamento de sua filha com ele, e aí poderia correr o risco de perder o emprego, além de teto e comida. 

E sem o emprego, nada de dinheiro, e nada de conseguir pagar o cursinho. Se fosse obrigado a abandonar o curso preparatório agora, suas probabilidades de ser aprovado no exame para Economia, curso bastante concorrido na Universidade de Ohio, diminuiriam consideravelmente. E seu desejo de criar uma base para uma vida idealizada e bem-sucedida cairia por terra.

E esse dilema permaneceu na mente de Evan pela semana seguinte, e a outra, e todas as quatro semanas do próximo mês. Já estava a 3 meses em sua preparação para a carreira acadêmica e profissional. Faltava metade do curso. Aprendera muita coisa útil, mais ainda no trabalho do que no cursinho. 

Porém, ele começou a pensar nesse dilema com frequência cada vez maior. Pensava seriamente, e depois se convencia, de que estava mesmo gostando daquela garota.

Assim sendo, ele chegou a conclusão de que não adiantava criar conjecturas sobre o que Luciano ou Susan acharia dos dois estarem juntos. Ele arriscaria frustrar o italiano e perder o emprego, se esse fosse o preço para ficar com Ellen.

Ele se decidiu: investiria na relação com Ellen. Decidiu que abriria mão dos possíveis e até prováveis problemas graves que poderiam vir disso. E concordou consigo mesmo que a melhor forma de se aproximar da garota e suavizar a reação do pai dela era contando o caso diretamente para o italiano. 

Mas Evan não contava com um probleminha. Luciano e Susan haviam chegado de Orlando na madrugada de segunda para terça. Luciano foi até a lavanderia deixar umas sacolas de roupas sujas da viagem no cesto atolado. Por ironia do destino, acabou encontrando uma camisinha ali, estirada ao pé do cesto de roupas sujas. 

Quando o italiano segurou a camisinha na frente de Evan, este empalideceu:

- Evan, você deve saber que a Ellen namora um cara né, o Eric? - perguntou calmamente Luciano.

- Sei sim. Porquê? 

- Ellen me disse que Eric não estava por aqui, que esteve viajando com os pais, lá pra Buenos Aires, cara. Já foi pra lá?

- Não.

- Ah, que pena. Enfim, duas pessoas ficaram aqui enquanto eu estava fora. Que eu saiba, minha filha e você.

Evan já poderia soltar logo a verdade (que estava comendo sua filha e que estava realmente apaixonado por ela). Mas, dependendo da ordem com que falaria isso, significaria lucro ou prejuízo. Se ele dissesse que passara o fim de semana transando com sua filha e que estava apaixonado por ela, isso teria uma certa repercussão. Mas se ele falasse que estava apaixonado por ela e depois dissesse que vinha transando com ela, Luciano na certa intuiria que ele só estava dizendo que gostava dela justamente para amenizar o fato de estar comendo sua filha. 

O garoto optou por contar a verdade, e omitir parte dela.

- Ah, então Luciano. Não te falei, porque é meio chato né, mas eu acabei esquecendo essa camisinha lá na lavanderia. -  disse ele, para não ter que citar Ryan e Lucy e a festinha na casa.

- Claro que esqueceu, só tinha você aqui de homem, moleque. Se estou te perguntando, é porque quero confirmar com você que realmente era sua. Ok......

- Desculpa, caramba. Sei lá o que dizer, cara. Desculpa mesmo, eu...

- Você resolveu trazer alguém aqui?

O garoto gelou. Mas se decidira pela verdade.

- Não. Deixe-me explicar. Na sexta, eu e Ellen...agente tava aqui no quintal... - ele começou, mas o italiano levantou ligeiramente a mão e o interrompeu.

- Chegou nesse ponto? - Luciano iniciou. - Ao ponto de um moleque como você trepar com minha filha, na minha casa, enquanto eu não estava, e eu ainda tenho que ver essa merda de camisinha toda gozada e jogada!! Você tá louco?

- Cara, me desculpa. Não é isso que você tá pensando! Eu gosto dela de verdade.....não foi nada......

- Gosta?? Gosta porquê se preocupou em usar camisinha né? Por isso você gostava dela? Transando com ela mesmo sabendo que namora um garoto que eu considero como filho? - disse o italiano, se referindo a Eric.

Evan se calou. E depois desse silêncio, veio um período turbulento.


7 - Consequências


O clima entre Evan e Luciano tornou impossível e insuportável que o garoto continuasse tendo relações tão intimadas com o italiano. Eles dialogavam normalmente nos dias que sucederam a discussão sobre Ellen, mas o garoto só esperava Luciano dizer:

- Cara, eu acho que você tem um potencial monstruoso, e é só por essa certeza que eu te falo que você deve ter um pouco mais de calma. Talvez não seja seu tempo ainda. Acho sensacional você querer entrar em Ohio, e vou te apoiar, sério. Mas não dá mais pra você seguir seu caminho aqui em casa. Por isso liguei pro seu irmão, e amanhã ele vem pegar você e suas coisas.


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Evan havia escolhido Ellen como um investimento paralelo à sua jornada para a Universidade de Ohio.

Ele recebeu um retorno precoce, imprevisível, desse investimento. 

E ele estava falido, desestruturado. Fracassado. Sem a garota e sem a vaga em Ohio.

O amor ilusório por uma linda garota, que apenas preenchia aqueles momentos de lazer e ócio do trabalho e dos estudos, prejudicou de forma decisiva na conquista de seu objetivo maior, objetivo esse que o havia feitoa deixar o país onde fora criado para poder retornar a ele, um dia, com mais dignidade do que acreditava merecer.

Quanto à Ellen. Ele já não estava nem aí pra ela. A garota tinha sido uma alternativa, uma pura curtição para o feriado, uma foda gringa diferente, já que seu namorado Eric estava tão longe. 

Só que Eric, ao voltar da Argentina, trouxe uma nova aliança para Ellen, que a aceitou, inclusive com lágrimas no rosto. Isso durante um jantar em um restaurante requintado, onde Eric abrira uma almofadinha vermelha, onde repousava a nova aliança de sua amada.

Aliança que selaria a desgraça amorosa de Evan. Tradicional. E lindo.

Resultado: Ellen e Eric acabaram terminando o namoro 50 dias depois. O motivo fora a traição de Eric. 

Parece que Ellen sofrera do próprio veneno, cedo demais.

E Evan, como já esperado até por ele mesmo, acabou não passando no curso para Economia. Não naquele ano. Ele acabou sim voltando para Vancouver, mas com o retorno, acabou reconquistando a motivação que uma série de frustrações haviam lhe tirado. 

Ele então passou 1 ano em intenso treinamento para o exame. Acabou sendo recompensado depois de muita paciência e noites sem dormir. No ano seguinte, se tornou um calouro da turma 1C de Economia da Universidade de Ohio.


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Evan agora trabalhava em um estágio na Tesouraria de uma empresa, mexendo com números e processos o tempo inteiro. 

Ele se tornara resistente ao risco de se envolver com alguém sem comprometer suas responsabilidades. De poder estar com alguém sem correr o risco do seu chefe dar um chute na sua bunda, o enxotando de sua casa, de sua empresa, e de sua vida. 

Em relação a isso, ele agora estava blindado. Afinal, morava com seu irmão. Seu melhor amigo, sua inspiração, e quem com certeza não se importaria de ver seu irmão caçula transando em sua própria casa. 

Pelo contrário. Will se orgulharia disso. Daquela falta de amor.