quarta-feira, 31 de julho de 2013

[Conto] Refúgio da Noite (Prelúdio)

Esse é o prelúdio de uma saga fictícia, habitada em uma região nobre da Rússia, cujo protagonista é Dimitri Olic, capitão do exército principal da fortaleza do distrito de Mahri, mesmo nome de seu pai, do qual herdou todos seus títulos nobres. 

Cumprindo apenas por obrigação seu papel de capitão das tropas durante o dia, e sem motivação alguma cumprindo esse papel, Dimitri percebe que vive em uma ilusão dentro daquela fortaleza na qual passa seus dias, e somente conhece a si mesmo, plenamente e de acordo com sua personalidade e seus valores, no período da noite, uma hora após o crepúsculo, quando geralmente já terminou suas tarefas de comandante do exército e pode, enfim, sair diariamente pelas ruas e vasculhar tudo e todos em busca da verdade fria e cruel da realidade vigente naquele distrito russo que era desolado por caos, desesperança, fome, pobreza e muito frio. 

Saindo, durante o dia, do conforto, do luxo, da importância de seu nome, e do contato com pessoas falsas que para ele vestem máscaras (que é apenas o que lhes atribuem valor), coisas que lhe são insignificantes, ele busca na noite e nas pessoas subjugadas que fazem parte dela os valores que determinam o real caráter de sua pessoa.

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Introdução



Ficou à espreita, no limite da multidão, como sempre fazia. Ficou observando, como sempre fazia. Avaliava as pessoas na rua, cuidando da vida de alguma forma, e ele se fascinava apenas contemplando-as tocarem seus negócios. Algumas pessoas corriam apressadas para cumprir seus compromissos urgentes, outras andavam cabisbaixas e distraídas, e alguns levavam na volta para casa uma sacola com pães, grãos ou especiarias quaisquer para abastecerem suas despensas.

No frio do inverno ou mesmo no calor do verão, Dimitri Olic se metia em várias camadas de roupa, todas com grandes rasgos e as barras caídas, o tecido sujo e escurecido de graxa e pó acumulado do asfalto ou dos pedregulhos da rua. As calças roçavam na calçada de tão compridas, e cobriam com vantagem aquelas pernas de vara pau. 

As calças eram cinzas, como o capuz, que estava erguido, escondendo seu rosto arruinado e cheio de crateras e cicatrizes que só podiam ser vistas de relance; as órbitas vazias de seus olhos, criando fossas salientes abaixo deles, o nariz gigante e torto. Porém, seus dentes resplandeciam, seus olhos eram coroados por um azul escuro e brilhavam toda vez que luz batia neles. Seu cabelo era negro do mais escuro, e mechas dele se espalhavam pelos seus ombros e ao redor do capuz acinzentado. Ele tinha queimaduras na bochecha esquerda, resultado da exposição frequente ao frio extremo. Mas bom russo como era, gostava do frio. Era adaptado a ele.

Ele gostava do frio, e mais ainda, gostava de discrição. Para ele, a diferença entre ser reconhecido ou não pelas pessoas da rua era de tamanha importância, dado o fato de ele ser herdeiro do comandante Mahri, já falecido. Seu pai foi capitão da principal tropa de batalha que subjugou todos os distritos russos a seus domínios e leis, e morreu quando todas as cidades vizinhas as quais batalhou finalmente renderam seus homens ao poder de seu exército remanescente.

Na fortaleza que um dia foi comandada por seu pai, ele passava a maior parte do tempo, infelizmente para ele, tratando e cuidando de suas responsabilidades, que não eram poucas, dada a influência que a família Olic ainda detinha nas redondezas, através dele e de sua irmã, Anna. 

Ele era conhecido e respeitado por todos, uns até lhe fazendo reverências ao lembrar da honra e glória vivida por seu pai e atribuídas a ele. Ele não se sentia orgulhoso, e na verdade nunca se sentiu quando as pessoas lhe agregavam status elevado. Preferia comer quieto, realizava suas tarefas seguindo uma rotina preestabelecida e conversava com todos no mesmo tom, desde os criados dos lordes, os cavalariços e as cozinheiras, até as damas de honra e os capitães das tropas de segurança da fortaleza do distrito. Usava um tom geralmente calmo ao falar, pois não gostava de esquentar a cabeça a cada problema que aparecesse. Ele já notava muitos por si só.

Mas, na rua, sempre a noite, ele seguia algumas regras pessoais das quais não abdicava de forma alguma, e uma delas com certeza era não ser reconhecido, pelo menos de rosto, por ninguém que seja. 

A maior frustração de sua vida ele achava que estava no seu sangue. Desde à infância até seus atuais 43 anos, foi tratado como um pupilo de ouro, sempre reverenciado e prestado a ser elogiado por alguém, cuidado de alguma forma, sempre saciado seus desejos e necessidades, tido as mulheres as quais apontava os dedos ao demonstrar atração. Ele percebia o respeito no olhar das pessoas. Mas as tratava sempre como era tratado, de forma exímia, ele achava, pois mantinha sua consciência tranquila. Porém, ele não era idiota, e não se deixava enganar por rostos bonitos, roupas exuberantes, adornos de ouro ou expressões simpáticas. 

Dimitri se frustrava por aquela adoração cega que as pessoas mostravam claramente sentir por ele. Ele tinha convicção plena de que era admirado apenas pelo que corria em suas veias, o sangue da lendária família Olic. Respeito absoluto e garantido. E por isso odiava aquele comportamento submisso por parte das pessoas para com ele. Preferia ser tratado sem que a linhagem de sua história fosse levada em consideração. Mas sabia que isso não aconteceria. Pessoas importantes geravam descendentes de importância, de renome, e isso ele não podia impedir, era um desses. 

O que podia fazer era procurar por um subterfúgio no qual pudesse viver de maneira livre, aventureira, estudiosa das pessoas que passavam por reais dificuldades, dos que lutavam para viver, com suas dificuldades iminentes, e Dimitri se sentia maravilhosamente bem fazendo isso, e o fazia; em vez de agir como os que ostentavam para demonstrarem serem pessoas dignas, amáveis e confiáveis, quando se escondiam no manto de mentiras, discórdia e avareza.

Para Dimitri, todas as pessoas que habitavam aquela fortaleza antiga escondiam seu caráter e suas verdadeiras ambições por trás de máscaras, as quais utilizavam para desempenhar distintos papéis, assumindo cada um deles conforme a conveniência da situação. Ele também usava uma máscara. Não física, mas a que sabia que todos tinham em seu semblante quando queriam. A máscara da verdade, ou da mentira, do amor e do ódio, da saudade, ou do frio, da solidão e do desamparo, da esperança e da ambição, ou do desejo e da impotência. Qual delas ele usava, não sabia, mas ele não se importava qual delas era. Não era nem um pouco vaidoso, então qualquer uma servia.

Também não se importava muito com isso.

Vestido religiosamente daquela forma, com trapos cinzas cobrindo seu corpo, ele saía todas as noites, sem falta. Não precisava dar desculpas para ninguém sobre onde estava, já que ninguém ousava questionar seus atos, pelo menos após seu expediente.

Ele vivia uma espécie de vida dupla. Um rico e nobre herdeiro de um ex-capitão condecorado durante o dia, e um pobre e sujo viajante noturno das ruas. A primeira personalidade lhe era imposta pelo sangue, a segunda ele escolhera seguindo fielmente os valores que acreditava fazer parte de si mesmo, como uma jornada que lhe foi auto-descoberta. Dimitri adorava conhecer as pessoas e suas formas de vida durante a noite e parte da madrugada. Naquela região da Rússia, fome, pobreza, caos e desolação tomavam conta das ruas, todos os indivíduos que frequentavam as calçadas e paralelepípedos durante a noite o faziam por falta de opção, e muitos só tinham as roupas do corpo como moeda de troca para recursos de sobrevivência.

Devido ao frio infernal que fazia na maior parte do ano, a maioria dos mendigos, transeuntes, malabaristas, atores, sapateiros, vendedores de ervas, curandeiros malucos e demais lutadores pela sobrevivência morriam antes de completarem uma semana vivendo naquelas condições severas.

Dimitri Olic saía as ruas durante a noite pois aquilo representava um ritual do qual não pretendia abrir mão, até o fim de sua vida, faria parte dele. Apenas nas ruas ele sentia paz e conforto, onde todos pareciam sentir medo e desesperança. Ele se sentia observando o mundo de uma forma real, peculiar, verdadeira, em todo seus sentidos, apenas a noite, nas vielas. 

Durante o dia inteiro recebia convites para sair de mulheres que queriam explorá-lo, convites para reuniões com líderes corruptos, e jantares com lordes ambiciosos. Era reverenciado por pessoas que se limitavam à sua condição privilegiada. Mas privilégio ele não percebia, nunca percebeu enquanto cumpria seu cargo. Ele notava mentira, luxúria, ambição, comensalismo, jogo de interesses, trapaças e tramas que geravam intrigas dentro daquela fortaleza fria. Ele guardava isso para ele, é claro, e por isso todos por lá ainda o suportavam como um homem de importância e status inquestionáveis.

Dimitri se sentia extremamente melancólico com toda essa bajulação.

Por isso ia às ruas, sempre ao cair do sol dos dias, sempre uma hora após o crepúsculo. Quando atravessava a calçada, os pais diziam a seus filhos assustados: "É só um homem das ruas, não lhe fará mal", olhando para ele como se não estivesse ali. Ás vezes, esses mesmos pais ou quaisquer outras pessoas lhe jogavam moedas a seus pés, talvez para compensarem a forma como o tratavam de antemão. Dimitri olhava para as moedas e não se dignava a pegá-las. Ele as chutava para bem longe. Talvez por isso, e por outros motivos, ele era chamado por ali como o "homem maluco da noite" ou como o "homem da máscara cinza".

O que ele queria não era mais nomes, designações de poder. O que buscava ali era exatamente tudo que lhe ofereciam enquanto o sol mantinha-se no céu, mas ele não aceitava por considerar como falsidade. Preferia buscar por si só por conforto, sexo, amizades, bebida, aventuras, e se necessário, brigas e discussões. Criava uma bolha na qual se mantinha durante a noite. Aquilo lhe revigorava, lhe dava forças para aguentar toda aquela falsidade que pairava na fortaleza, lhe fazia entender as razões e sentimentos legítimos das pessoas, a conhecer o mundo frívolo e nada acalentador que nunca lhe apresentaram antes.

Vivia na noite e com as pessoas que nela buscavam sobreviver, pessoas que eram subjugadas por todos, mas reverenciadas por Dimitri, assim como faziam com ele durante o raiar do dia. Mas Dimitri preferia o escuro. Era uma criatura da noite.

Esse é o prelúdio da saga que criei baseada no personagem Mahri, do livro: "O Trono do Sol", de S. L Farrell; Livro Um.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Fraude Paranormal

"Existem dois tipos de pessoas lá fora com poderes "especiais". Os que realmente pensam ter algum tipo de poder, e os que pensam que conseguirão enganar as pessoas. Ambos estão errados."

O filme Poder Paranormal (2012), de Rodrigo Cortés, fala com muita propriedade sobre a ilusão da existência de eventos paranormais, mágicos ou psíquicos. 

Na trama, uma psicóloga e doutora chamada Margaret Matheson, especialista em eventos sobrenaturais, e seu assistente, o jovem físico Tom Buckley, estudam e analisam com atenção diversos fenômenos metafísicos com o objetivo de provar a origem fraudulenta desses eventos. Dessa forma, eles tentam desmascarar supostos psíquicos, médiuns e videntes que enganam as pessoas afirmando terem poderes divinos e salvadores, quando na verdade criam um espectro ilusório que oferece uma falsa esperança de "salvação" para seus cegos seguidores.

A atenção dos dois se volta para Simon Silver, um lendário vidente cego que se tornou famoso por curar os males das pessoas através do poder da palavra, que ele acreditava ter recebido por forças maiores. Silver reaparece nos palcos depois de 30 anos sumido dos holofotes, por conta da misteriosa morte na época de um repórter que o acusava de mentiroso. 

Esse vidente alegou para a psicóloga Margaret, há muito tempo atrás, que o filho dela estava doente, e ela não estava deixando ele ir embora desse mundo. Na época isso não era verdade, mas o filho de Margaret acabou entrando em coma, e por isso a psicóloga passa a vida tentando investigar fraudes paranormais, e principalmente desmascarando o vidente que a fez acreditar um dia que poderia perder seu filho, e de fato acabou por o perder.

Tom Buckley também começa a ficar intensamente obcecado por Silver, que decide retornar aos palcos e cujo poder de atração volta a crescer a cada manifestação de eventos paranormais sem explicação.

A seguir, algumas passagens do filme que resumem o argumento.

1 - Na Sala de Aula


A professora Margaret está dando uma aula e respondendo a dúvidas comuns entre seus alunos:

- A senhora já se deparou com algum caso que não pudesse ser explicado, como a existência de alguma habilidade anormal? - pergunta um aluno, chamado Ben.
- Uma habilidade anormal, como o quê? Como correr 100 metros em menos de 10 segundos? Como compor uma sinfonia sendo completamente surdo? Seu cérebro pode ser uma exceção, Ben, mas muitos cérebros realizam uma imensidão de processos mentais complexos a cada segundo, 100 bilhões de neurônios em comunicação sináptica constante, programados para gerar e regular nossas sensações e percepções, como reagimos, pensamos, nossas emoções de imagens mentais, atenção, aprendizado, memórias. Esses já não são méritos suficientes para o cérebro, sem precisar de outros poderes especiais?
- Está dizendo que a existência de qualquer outro tipo de poder paranormal é impossível? - pergunta uma aluna, chamada Owen.
- O que estou dizendo, Srta. Owen, é que depois de 30 anos investigando todo tipo de fenômeno, com os controles adequados aplicados, não testemunhei um único milagre.

2 - No Corredor da Universidade


Margaret Matheson discute com o Dr. Shackleton, cientista ortodoxo da Universidade:

- Eu estava assistindo sua aula... - cumprimenta ele.
- Dr. Shackleton.
- Inspirador, mas sabe, eu admiro seu ceticismo, Margaret. Mas não pode negar a realidade só por não poder explicá-la. 
- Não é totalmente verdade. Não sei porque o seu departamento recebe o dobro da nossa verba, mas não nego o que aconteceu...
- Então vamos conversar, unir forças. Estamos realizando grandes avanços nos centros de pesquisa. Uma visão esclarecida como a sua poderia ajudar muito.
- Eu não faço abracadabras, Dr. Shackleton, e sugiro a você que também não faça.

3 - Na Lanchonete


A Srta. Owen, a aluna de Margaret, passa na sala de pesquisa dela para procurar pela professora, a fim de tirar alguma outra dúvida, mas só encontra Tom Buckley, o assistente dela. O físico acaba a chamando pra sair, e eles vão para uma lanchonete no centro da cidade: 

- Você trabalha a muito tempo para a Matheson? É um psicólogo também, ou um mágico? - Owen pergunta.
- Hahaha, não, eu não sou um mágico, longe disso. Na verdade, eu sou físico.
- E por quê faz isso?
- O quê?
- Investiga coisas paranormais falsas. Não acha isso meio estranho?
- Eu só tento ajudar a Margaret...
- Mas pra quê? Se alguém diz que tem poderes e na verdade não tem, quem liga? Quem se importa?
- Quem se importa?? Ok, vamos supor então. Se sua mãe fosse uma dessas pessoas, que procurasse um médium, porque está com uma dorzinha no estômago, e o médium dissesse que não era nada, só uma leve gastrite, mas, depois, você descobrisse que era um câncer no estômago, e que era tarde demais. Ainda diria: quem se importa?
- Isso...aconteceu com você?
- Não. Você só se importaria se acontecesse com você? Ou com alguém que você ama? Eu não.

A menina não respondeu a pergunta de Tom e decidiu mudar de assunto.

4 - No hospital


Margaret visita seu filho, David, na UTI de um hospital. Ele está em coma, respira por aparelhos e não dá nenhum sinal de lucidez há semanas. Tom a acompanha na visita.

- A razão para que acreditem em fantasmas, é a mesma razão para que acreditem em casas assombradas ou "túneis de luz", porque isso significaria que existe alguma coisa após a morte. Eu queria que existisse. - dizia Margaret, passando a mão no rosto de seu filho. - Mas não estou pronta para deixar minhas crenças serem determinadas pelos meus desejos ou necessidades. Se David acordasse e se olhasse no espelho, não reconheceria o homem que está olhando para ele, não saberia quem eu sou. Se eu pensasse só por um segundo, que existe mais alguma coisa além disso, desligaria essa droga toda de aparelhos e deixaria meu filho ir, livre de sofrimento.
- Margaret, ei.
- Em um caso que acompanhei, uma mulher alegou que foi visitada e estuprada diariamente por um extraterrestre. Selvagemente possuída, todas as noites. Então, ela foi a sessões de hipnose e as visitas do ET pararam, aí ela voltou ao consultório e perguntou: Dá pra fazer ele voltar uma vez por semana?
- Ela foi as sessões de hipnose querendo se livrar das visitas do extraterrestre, mas na verdade o que a fazia se sentir segura e controlada eram justamente essas visitas. - disse Tom, e a psicóloga confirmou com a cabeça.
- Tom. Existem dois tipos de pessoas por aí com "doenças especiais". As que acreditam que possuem de fato algum tipo de poder, e as que acham que nunca serão desmascaradas. Ambas estão erradas.

5 - No Programa de Debate


Durante um programa televisivo de debates, Margaret discute com mais dois profissionais da ciência, a agente de Simon Silver, Srta. Mansey, e o apresentador, todos eles duvidando e tentando contestar tudo o que a psicóloga afirma. Sempre na defensiva, ela tenta manter uma postura adequada e firme para organizar suas ideias e expressar argumentos para aquecer a discussão deles, sobre paranormalidades e especificamente sobre a volta do vidente Simon Silver após 30 anos oculto, e também sobre um estudo que a Universidade deseja fazer sobre a autenticidade dos "poderes" do vidente, estudo esse que foi rejeitado pelo próprio Simon Silver.

- Sim, Dra. Matheson, existem sensitivos que são impostores, mas assim como existem céticos. Você sabe, até cientistas erram todos os dias, mas a senhora cética profissional também parece ser boa em retórica. Então não morda meu dedo doutora, entenda meu ponto de vista. - falava um dos convidados, um cientista.
- Os erros dos cientistas são aleatórios, os dos pseudo-cientistas tem razões direcionadas.
- A Dra. Matheson se esquece que já batia nessa tecla há 30 anos. Muitos profissionais estão cientes dos perigos de fraude e montam seus experimentos com toda precaução. Nós acreditamos doutora, não somos crédulos. - dizia outro dos convidados, mais um cientista.
- Pessoas muito inteligentes são as mais crédulas, e atraídas por todo tipo de fenômeno. São vítimas fáceis de fraudes porque pensam logicamente, e os profissionais que alegam ter poderes paranormais contam com isso. A pergunta é: Por quê todo fenômeno parapsicológico desaparece cada vez que tem um cético qualificado na sala? - Matheson perguntou.
- Três em quatro americanos dizem já ter vivido uma experiência metafísica, e uma porcentagem ainda maior diz ter alguma causa nesses eventos. Essa é uma pergunta pra senhora: Não acha que tem muita coisa para ser explicada?
- Acredito que até meus colegas, psicólogos experimentais, também têm estatísticas que dão base para negar a existência dessas ocorrências que você diz serem paranormais.
- É só retórica, estou dizendo, é só retórica. Ela está falando por falar! Pra refutar a ideia de que todos os corvos são negros, basta existir um corvo branco.
- Eu nunca vi um corvo branco. Você já viu?
- Srta. Mansey, você como principal agente do vidente Simon Silver, sabe que ele irá se apresentar no auditório da cidade hoje à noite. A senhora acha que apresentar é a palavra certa pra descrever o que acontecerá nesse espetáculo? - muda de assunto o apresentador.
- Eu diria dividir. Simon nunca teve vergonha de dividir suas habilidades e.... - a Srta. Mansey é interrompida por Margaret.
- Acho que apresentar é exatamente a palavra certa. Porque permitir um estudo rigoroso sobre a veracidade dos poderes de Simon Silver quando um espetáculo para as massas está lá para servir como distração para os resultados desse estudo? Tirar vantagem das pessoas, é por isso que ele não quer fazer parte desse estudo.
- Você fica surpresa por Silver não desejar ser estudado? Como em uma gaiola de Faraday ou através de uma lavagem que pretendem fazer nele? Pra quê ele se submeteria a uma prova de que não precisa, e de que as pessoas também não precisam?
- Não, não fico nem um pouco surpresa por ele se recusar a seguir o único protocolo que eliminaria qualquer possibilidade de fraude.
- Isso tudo parece muito convincente, doutora, mais na verdade eu conversei com supostas vítimas dessas fraudes, cujos olhos você diz ter aberto, mas elas não tem coisas boas a falar sobre você.
- Dizer as pessoas que elas foram enganadas e tentar tirar essas ideias da cabeça delas é como tentar tirar o osso de um cachorro. O que estou dizendo é: me dê a prova de que um fóton de luz possa passar por um corpo humano e começarei a acreditar em invisibilidade, caso isso não aconteça, tudo que estão dizendo aí são simples crenças subjetivas.

Após dizer isso, a agente Mansey se desconcerta e diz algumas coisas ofensivas para a Dra. Matheson, que sai do programa de cabeça erguida ao perceber que o assunto havia virado pessoal em vez de técnico.


6 - No Camarim


Tom Buckley vai à procura de Simon Silver. Ele deseja ter uma conversa a sós com o homem que se diz vidente, e que iludiu a Dra. Matheson "prevendo" um acontecimento que acabou se tornando verdade, por coincidência (a condição inane de quase morte de David, o filho da psicóloga). Buckley se sente colérico por somente uma coisa em sua vida, desvendar e desmascarar aquele homem. E ele finalmente consegue ter seus primeiros momentos a sós com Silver. Esse homem misterioso que acredita ser um vidente começa a falar com Tom:

- Quanto a mim, eu vivo cada dia como se fosse o último. Estou começando a ficar cansado, muito cansado. Nem sempre cobro pelos meus serviços especiais, sabia disso? Pelo menos não em dinheiro, existem outras formas de ser pago. Mas você já sabe disso, não sabe? Ser ou parecer ser, essa é a questão, sempre é. Todos tentamos ser quem não somos.

Buckley se mantém em silêncio. Não sabe se sente ódio, desprezo, ou fascinação por aquele homem que passou a vida provando a si mesmo e aos outros que detém algum tipo de superioridade. Se não fosse pela convicção de Silver, com certeza Tom teria enlouquecido em sua jornada, juntamente com Margaret, para desmascarar aquele homem. Silver continua seu monólogo:

- Sonhamos cerca de 27 vezes por noite. Um mecanismo neurológico intrincado de proteção nos faz esquecer. O que protege você? Uma linha de sal? Dos tempos dos antigos gregos até os dias de hoje, filósofos e estudiosos afirmam que o homem é essencialmente racional, eu não concordo com isso. Se alguém observa e estuda uma pessoa, sem ter estudado outra antes, como sabemos que nossos instrumentos estão configurados adequadamente? Como sabemos se somos confiáveis? Não temos provas. Só há uma maneira de ter acesso a verdade, e é não esperar por nada. Se nossas intenções não são puras, podemos acabar criando monstros.

Silver pode estar certo, mas o que ele não sabia é que já havia se tornado uma espécie de monstro, ao se iludir achando que havia recebido um dom que poderia mudar a vida das pessoas. Mas vendo destruí-las cegamente, Tom e Margaret passam o filme tentando abrir os olhos de Silver, que não por ser ser cego, sempre esteve com os olhos fechados. 


domingo, 28 de julho de 2013

Restless

Aquele Lugar


O ser está indo, mal pode esperar para chegar lá. Não sabe onde é, mas sabe que quer ir. Saiu de casa noite passada, estava correndo pela vida, e ouviu o que poderia ser no futuro. Não gostou do que ouviu, pois é pouca coisa para muito tempo, não dá pra ser alguém que não sabe o que se tornou, e nem se tornar o que não se sabe ser. Então é melhor correr para algum lugar que se quer, do que lugar nenhum.

Pegando a estrada, como uma criança agitada, correndo para chegar a um destino, e depois o quê? Voltar para casa, voltar pelo caminho das ruínas ou tentar ficar onde se chegou?

Uma tempestade nos olhos, furacões dançantes na mente. Forças turbulentas que impelem esse ser para o lugar que quer ir, para onde precisa ir. E depois o que for, é viver o que se desejou. E aí, se decidir voltar, foi o destino que não se formou. Mas se o destino pode ser manipulado, então que valha a viagem de ida, e que se foda a viagem de volta. Se for pra voltar, ele voltará, sempre. E se for pra ir, também sempre irá.

Uma besta rugindo no ínterim, como em uma criança selvagem. Ela sabe que vai, ela quer ir. Tudo que sabe é que o melhor momento para ir é o melhor momento que puder, então espera seu ser reagir, e vai quando der.

Por muito tempo, competindo contra o vento e se limitando á sua resistência. Aquele ser quer escolher um caminho, e que esteja a favor do vento, mas se não tiver, que seja o tormento, as tempestades, furacões, ventanias, brisas que sejam, pelo caminho que vale a pena.

A sede por chegar ao caminho que se escolheu, e depois a liberdade de ficar ou partir de novo, liberta aquele ser. Essa sede é boa, faz queimar o corpo, e produz fogo que alimenta a obsessão pela chegada no destino. Sem desperdiçar lágrimas perdidas no caminho, sem andar mais devagar ou parar por distrações mundanas, guardando apenas a força de que precisa e a vontade que tem de chegar ao destino. 

Caminhando, nos braços do vento, que o carrega para onde se deixa levar. Mas também controlar os ventos para se ir até onde se quer chegar, e depois se soltar do vento, respirá-lo e sentí-lo, e se for pra ser, ceder aos seus domínios, e voltar a viagem. Controlando o vento que o acompanha para onde se quer ir, sempre. E eu, aquele ser, caminha nos braços do vento, e somente aqueles que estão dentro, podem prender as chaves que nos deixam entrar.  


Criado com base nas músicas: "Evermore"; "Restless Gypsy"; e "Arena of Pleasure", da banda WASP.


sexta-feira, 26 de julho de 2013

A Tirania dos Deveres

Os ambientes sociais (família, colégio, local de trabalho e a comunidade em geral), criam normas culturais que são baseadas em crenças pessoais e específicas. A psicanalista alemã Karen Horney dizia que os meios sociais não saudáveis, ou "tóxicos", tendem a criar nas pessoas sistemas de crenças que não são saudáveis, e que impedem as pessoas de concretizar seus potenciais, por acreditarem que as normas criadas pelo meio social em que vivem são "guias" do seu agir e pensar individuais. O que limita a autonomia de ação.

Para Horney, é essencial reconhecer quando não estamos agindo com base em nossas próprias crenças, mas sim, induzidos por crenças internalizadas a partir de um ambiente tóxico. Tais crenças atuam como mensagens internas, principalmente na forma de "deveres" (por exemplo, "eu devo obter poder e reconhecimento"; "eu devo ter um carro de luxo"; ou "eu devo ser magro"). 

Horney usava um método clínico, em que sugeria aos seus pacientes a tomar consciência de duas influências em sua psique comportamental: uma seria o "verdadeiro eu", com desejos autênticos, e o "eu ideal", que luta para cumprir todas as demandas dos "deveres".

O "eu ideal" acaba preenchendo a mente com ideias e objetivos que são impraticáveis e inadequadas ao "verdadeiro eu", o que acaba gerando respostas negativas, com base nos fracassos do "verdadeiro eu" em não conseguir alcanças as expectativas do "eu ideal". Isso leva a um desenvolvimento de um terceiro eu, o "eu desprezado".

Horney entendia que os "deveres" impostos pelo "eu ideal" são a base da "barganha com o destino"; e se prestarmos obediência cega aos "deveres", nós acreditamos poder controlar de alguma forma a realidade externa, embora, na verdade, eles nos induzam á neurose e á infelicidade profunda. As opiniões de Horney foram bem assimiladas na Alemanha do início do século XX, de forte tendência conformista.

Hoje, se percebe que a grande maioria das pessoas não se preocupa com os males que a tirania dos deveres cria, e se esforça cada vez mais para corresponder aos desejos incessantes de seu "eu ideal". 

Pode parecer digno e respeitoso tentar conquistar sempre o que se pensa como "ideal", mas ao se notar a todo instante que o que temos agora não é o ideal, isso pode levar a uma frustração do "verdadeiro eu" que, segundo Horney, levaria a pessoa a se aprisionar em seu "eu desprezado".


Baseado em: "A Tirania dos Deveres"; abordagem psicanalítica do "Livro da Psicologia", Ed. Globo.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Silence of Stone Cold

Deitado de bruços na rua, para não atrapalhar as pessoas que passam pela calçada, com suas capas de roupa aconchegantes, com suas camas e cobertores quentes a aguardar um sono que lhes será acalentador, o homem tenta dormir, e não consegue.

As pessoas olham para a rua, "mas ninguém se importa", seus peitos estão aquecidos e não compartilham daquele frio do asfalto de quem o sente.

O desconforto muscular, ou a ausência de resposta dos músculos forçam o homem deitado a se levantar. A dor o motiva. Mas seu espírito ainda permanece oculto àqueles que têm para onde voltar. Voltar não só para a cama e o calor das cobertas, mas para algum outro lugar.

O homem está de luto, decorando orações vazias que só causam dor em sua garganta. Está frio. Nunca achou que fosse pagar o preço, e agora deve pagá-lo duas vezes. Todas as mentiras que lhe contaram, e ele acreditou. Pensou que mentir fosse adequado, então ele mentiu, e foi enganado.

Perdeu tantos amigos, nesse caminho sem volta, e o machuca saber que está morto para eles, como uma pedra fria. Mas essa dor, da solidão que o fizeram e de como ele próprio a sente, é o que o mantém vivo. A dor, mesmo que possa ser gelada, é só um sentimento, uma força, uma energia, negativa, mas mesmo dessa energia se tira calor, e o homem movimentou seus músculos e se levantou.

O conforto de um lar, ilusão da realidade, que têm frio, sede, têm muita fome e só sono.

Para os que passam na calçada, o homem é frágil. Não há nenhum respeito. Os transeuntes vestidos só vêem um homem que parece ter agulhas enferrujadas em seu corpo, com dois tipos de veneno. O orgulho e o medo. Mas foi realmente o homem quem se aplicou essas agulhas? Ou lhe foi aplicado? O homem não sabe, não enxerga as agulhas, ele está cego. E só sente orgulho porque sabe lidar com a dor e o medo.

Apenas o homem se dá mérito. Um selvagem furioso das ruas, como é visto. Uma selvageria que vêm da ausência de lágrimas, já todas desperdiçadas, em vão. Ele é visto como uma pedra fria e morta.

Mas o orgulho e o medo bebem da mesma fonte, e o homem então pode saciá-los juntos. O medo o faz se sentir vivo, ainda, e ele se sente orgulhoso. O orgulho lhe faz crer que ele pode se levantar, e por que não, tentar andar? Mas é perigoso andar nas ruas, ele sabe, já foi ferido antes, e prefere esperar a calçada ficar vazia, para caminhar por lá. 

Segurança e esperança ele busca, na calçada, mas das duas ele não encontra nenhuma, pois ao entrar na calçada, ele não se sente parte dela. Porque ele é frágil, sujo, incômodo ás pessoas aquecidas e felizes que nela andam, mas que, em sua aparente felicidade e acalento, transmitem apenas ódio e pena. Não desgosto, não ódio e pena pelo homem, mas por si mesmas.

É o desgosto de pessoas que percebem esperança, vontade, e orgulho em seres que para eles são perdidos e inferiores, como julgam ser aquele homem. Percebem que o homem definha, ou parece definhar em seu orgulho, para eles irracional. Ao perceber a força e a garra daquele homem, o odeiam, não por sua fragilidade, mas por notar a própria inanidade. Inanidade que não vêem em si mesmos, então o projetam naquele homem.

"Para a perfeição mais errada, orgulho e medo bebem ao lado, frágil as vezes pra quem foge e volta, pra quem deseja serve o ato". Ódio e pena as pessoas desejam sentir, dessa forma se sentem mais poderosas. Mas das pessoas que agem e pensam igual, elas se escondem. Por seu desígnio, por seu egoísmo e por sua ilusão de maioridade. São ridículas aos olhos daquele homem, que nem sabe o que idealiza. 

O homem não sabe que é mais valoroso sentir o frio corroendo seus ossos e espinhas, do que sentir um calor que ofusca as pessoas em egoísmo e indiferença.

Começa a chover, a garoar baixinho. O homem se alimenta de seu silêncio, cria dele seu calor próprio. E ele pode dar de beber a seu orgulho e a seu medo. Pode criá-los. Ele está vivo, sente a água tocando sua pele, sente seu orgulho por não precisar de roupas, de camas, de cobertores, como aquelas pessoas quentes e tão vazias. Mas disso ele precisa, do calor, pois seus sentimentos estão feridos e há razões para isso. 

Tendo como referência de calor as pessoas aquecidas, andando na calçada , ele acha que o caminho quente é por ali.

Mas do vácuo que sente ao pisar na calçada, do vazio que nota nas pessoas ocas, ele não sente falta, não sente calor. Ele sente frio. E por isso volta, e permanece na rua, no silêncio da pedra fria.
 
Baseado nas músicas:

- "Stone Cold Dead" - Dr. Sin;
- "Silence" - Michael Kiske;
"Duo" - Madame Saatan. 

sábado, 20 de julho de 2013

[Conto] 21 Jump Street

Esse conto é uma versão baseada no filme "21 Jump Street" (2012), de ação/comédia, com o diretor e protagonista Jonah Hill (do Superbad) e Channing Tatum. Esse filme também foi baseado na obra "21 Jump Street", seriado policial exibido pela FOX na década de 80 nos EUA, que consagrou o então jovem ator Johnny Depp, inicialmente na TV.

Ele trata de questões como o preconceito, o racismo, a indiferença, a amizade e o trabalho em equipe.

No filme, um grupo de jovens policiais é selecionado para realizar investigações de alunos criminosos em escolas. Essa investigação fazia parte de um programa inovador da polícia americana, no qual policiais assumiam o papel de alunos, que se infiltravam nas escolas em busca de esquemas criminosos entre alunos (no filme, os alvos são os possíveis integrantes de um esquema de comércio organizado por um fornecedor e os "alunos traficantes" vendedores de uma nova droga sintética, que começava a se disseminar cada vez mais nas escolas, daí a necessidade da criação do programa de investigação pela polícia). Esses policiais designados eram forçados a reviver os tempos de colégio disfarçados de estudantes do ensino médio. O tal grupo de jovens policiais era chamado de "Anjos da Lei", e faziam suas reuniões (sobre estratégias de ação) numa capela abandonada no número 21 da rua "Jump Street" (daí o nome da série). 



PRÓLOGO

Subiu lentamente as escadas do colégio, andava sozinho, com a mochila pesada nas costas. Abriu as portas para o corredor principal, e sua figura se fez presente mais uma vez na instituição. O cabelo amarelo mostarda, um sorrisinho frouxo que mostrava ferrinhos em todos os dentes da boca, em processo de "ajuste" pelo aparelho fixo. Cartazes espalhados informavam: "Baile no fim de semana", "Garanta ingressos para o baile". 

Ele parou do nada no meio do corredor, parecendo assustado. Percebeu a chegada súbita de uma garota de cabelos loiros, extremamente atraente:

- Ei, Melanie. - cumprimentou Schmidt.
- Ei.
- Ouça. Sei que agente se conhece há muito tempo, mora na mesma rua. O baile vai ser daqui a 4 dias e....
- Você não está mesmo me chamando pra ir nesse baile, né? - perguntou ela, franzindo um dos olhos.

Três rapazes riam gostosamente, se apoiando nos armários, olhando com desdém para a cena. 

- Ah, não, não. Até mais. - e o garoto saiu, de cabeça baixa.


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7 anos depois


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1 - Formatura e Excursão no Parque


- Atenção, senhoras e senhores! Estes são os formandos da turma 137. - anunciou o porta-voz do Exército Americano na sala de colação de grau.
- Prepare-se pra ser um policial fodido. - sibilou contente Jenko.
- Estou preparado. - falou Schmidt, mantendo um sorriso de contentamento.


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Os dois policiais andavam de bicicleta pelo parque, reclamando que queriam mais explosões e perseguições no trabalho e menos mendigos cagando por toda parte. Enquanto tentavam impedir um menininho de jogar pedaços de pão para um cisne, eles viram ao longe um grupo de homens vestidos de jaquetas pretas com adornos metálicos, ao redor de motos que pareciam Harleys, pelo menos no aspecto.

- São traficantes. Eles estão em 4....5? Se conseguirmos prendê-los, com sorte eles ainda nos transferem de parque e nos afogam em outro lago. - disse um deles.
- Está vendo o mesmo que eu, ali? - perguntou o outro, indicando um dos homens que acendia alguma coisa.
- Ah, estou. Cannabis sativa. - um dos homens fumava um baseado.
- Sacou?

E foram os dois, montados nas bicicletas, em direção ao comboio de homens mal encarados que usavam o cabelo na altura da bunda e tinham tudo preto.

- Senhores, estão dando uma festinha? Esqueceram a palavra ILEGAL? - perguntou Schmidt.
- É medicinal, senhor policial. - disse um dos homens. - Tenho glaucoma.
- E eu tenho aversão a multidões. - contou outro.
- Herpes.
- Levanta daí. - disse Jenko para um deles que estava estirado na moto.
- Calmate, gringo. - respondeu.
- Quer um pouco de respeito? - Schmidt fazia revista em uma das motos.
- Vá se ferrar, guardinha!
- Ei, por quê tem sal aqui? - perguntou Schmidt, segurando um saquinho. - Caralho, não é sal. Pega eles! - gritou, demorando 10 segundos pra conseguir sacar a arma do coldre.

Os cinco homens, todos á moda American Chopper, saíram correndo, cada um para um lado.

- Siga alguém.
- Sigo alguém? E as bicicletas?
- Foda-se.

Schmidt olhou pra trás e viu um dos homens correndo na sua direção. Devia ter uns 168 quilos. Corria muito lentamente, devido ao peso elevado, e o jovem policial mirou nele.

- Pare aí! Pare! Vou atirar, pare! - gritava em desespero, mas o homem ia encurtando a distância entre eles. - Pare!  

E o homem trombou em Schmidt, desgovernado, o deixando estatelado no chão.

Jenko algemava as mãos de um dos homens. Schmidt conseguiu se levantar e se juntou ao companheiro.

- E agora seu merda? E agora? Você têm o direito de permanecer em silêncio....e....  

Ele não terminou. Não sabia mesmo, e claro, nem Schmidt sabia quais eram os direitos, as quatro orações declamatórias e a pergunta de rotina que faziam parte do que era dito aos réus quando eram capturados, segundo seu oficial ensinara.


2 - Briefing


Dentro da sala particular de seu superintendente, os policiais estavam sentados lado a lado, relatando do ocorrido no parque para o oficial:

- Eu estava perseguindo o meu criminoso. - iniciou Schmidt.
- E como foi?
- Ele...sinceramente, ele fugiu. E me derrubou com tudo. Machuquei feio o cotovelo.
- Posso ver? - perguntou o oficial, olhando para a mancha vermelha no cotovelo de seu policial e fazendo uma careta de dor.
- Sim, sim. - respondeu Schmidt, se aproximando e mostrando a ferida. - Ainda entrou terra e....AI PORRA! - o oficial dera um peteleco na ferida.
- A sorte de vocês, é que estamos ressuscitando um programa cancelado dos anos 80 e modernizando. Os encarregados não são criativos, e não têm ideias, como vocês dois. Agora só reaproveitam porcarias do passado e esperam que agente não veja. Um desses programas envolve o uso de agentes que pareçam jovens e imaturos...
- Está dizendo que vai nos mandar para uma rede de escravidão infantil? Senhor, se eu tiver que chupar o pau de alguém...
- Idiotas, vocês são perfeitos para o programa. Inclusive já foram transferidos do departamento.
- Beleza. Beleza.
- Ótimo. E pra onde vamos? - quis saber Schmidt.
- Rua Jump. Rua Jump, nº 21. Lá, receberão ordens.

_ _ _


Igreja Aroma de Cristo. Era onde indicava o endereço. 

Lá dentro, um homem negro, no lugar do padre, palestrava:

- Levantem essas bundas daí. Vocês vão se disfarçar de alunos do ensino médio. Estão aqui apenas porque tem rostinhos bonitos e aparentam ser burros e riquinhos como Justin Bieber ou Miley Cyrus. Sei o que estão pensando: "Capitão negro e nervosinho". Isso não passa de um estereótipo estúpido, pois adivinhem? Sou negro! E dei um duro danado pra virar capitão. E, às vezes, fico irritado, entenderam?? Que se foda o meu temperamento! Estou querendo que incorporem o estereótipo de vocês, que nem aquele cara ali. - e apontou para Jenko. - É bonitão, e provavelmente uma besta. E o outro, do lado, é baixinho e inseguro.
- Desculpe, comandante...mas...
- Calado. Faça cara de adolescente!!


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Mais tarde, ainda na igreja, o capitão informava as regras. A primeira era que não podiam, de jeito nenhum é claro, serem expulsos. A segunda era que não poderiam ter relações sexuais com alunos nem professores. Caso contrário, seriam exilados da rua Jump.

Depois, em seu próprio gabinete, o comandante mostrava a Schmidt e Jenko um vídeo na tela do computador, mostrando um garoto tirando de um zip lock o que parecia ser apenas uma das metades de uma bolachinha. Parecia ter uma consistência molenga, como um chiclete. O menino o engoliu. E o capitão pausou o vídeo.

- Isso aí, é uma nova droga sintética. É chamada nas ruas de PQP.
- Eles põem na internet, pra todo mundo ver? - questionou Schmidt.
- São adolescentes, cara. São muito burros. - e deu continuidade ao vídeo, que mostrou as fases típicas do efeito da droga no garoto.
- Hahaha, que moleque doido. Passaria o dia inteiro vendo isso. - disse Jenko.
- Os pais dele o encontraram aí nesse quarto, com overdose, seu ignorante. Ele morreu. - e Jenko emudeceu. - O que ele tomou o laboratório não viu. E ele é branco. As pessoas realmente se importam.
- Senhor, eu gostaria de dizer que se ele fosse negro, eu me importaria. - o capitão ignorou a ironia.
- Se a droga se espalhar, vira moda em poucos dias, e por isso estou os mandando diretamente para a Escola Sagan.

Mandou-os para lá, porque até o momento era o único lugar ao qual a PQP havia chego. 

O comandante analisou o histórico escolar dos dois e resolveu matriculá-los em disciplinas distintas, para assim eles poderem entrar em contato com mais alunos e professores, aumentando seu raio de influência na Escola mais rapidamente. Jenko ficou com áreas artísticas como Fotografia e Teatro. Schmidt cursaria na turma de Química Avançada.

- Jenko e Schmidt! Suas novas identidades: Brad e Doug McQuaid. A missão é o seguinte: enturmem-se com os traficantes e achem o fornecedor. - clarificou o capitão.
- Seremos irmãos??
- Sim. E morarão na casa de Schmidt. - e o próprio arregalou os olhos, em espanto.


3 - O Playboy Influente e a Viagem de Dois Policiais



Iam empurrando as malas com as coxas para dentro da casa. Os pais de Schmidt insistiam em ajudar a carregar as coisas e só atrapalhavam, fazendo com que nenhum deles conseguisse entrar na casa por tempo demais. Mas acabaram entrando. 

Em uma das paredes da casa havia no mínimo 20 retratos de Schmidt quando criança. Em todas aquele semblante sempre melancólico e inocente. 

- Podemos jogar isso fora? - perguntou Schmidt aos pais. - Parece que morri em um acidente de carro e vocês não se conformaram.  
- Se tirarmos isso daí, não poderemos mais nos gabar de você. - confessou o pai.

No quarto, na madrugada daquele dia, os dois acabaram relembrando alguns fatos da época em que realmente estudaram juntos. As lembranças não geraram nenhuma conversa amigável, pois apesar de terem sido amigos bem próximos naqueles tempos, um era visto como popular e o outro como um típico nerd. Ambos achavam que, dessa vez, não se dariam tão bem quanto no colégio. Mas, teoricamente, já eram adultos.

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Pararam o carro, oferecido pelo departamento, no estacionamento do colégio e andaram por sua extensão, até serem parados por um garoto branco de moletom, parado, ao lado de um poste. O garoto prestava atenção aos dois desde que saíram do carro e, quando os abordou, foi somente para elogiar o carro, mas seu olhar de fascínio deixou transparecer que era alguma coisa a mais do que isso. A namoradinha dele chegou logo em seguida, com sua bicicicleta rosa, parando ao lado do garoto. 

Então, o casalzinho e os dois, Jenko e Schmidt, agora fazendo o papel de Brad e Doug, começaram a conversar entre si, até serem interrompidos por um garoto, negro, que tentava estudar em cima do capô de um carro ao lado deles. Estava sentado á moda indiana, e entre suas pernas um livro aberto, no qual mantinha-se concentrado, até ali.

- Vocês podem ficar quietos? Estou tentando estudar. Valeu. - disse ele, dando um sorrisinho.
- Olhe pra ele. Está estudando, se esforçando. Que nerd! Veja o nerd, veja o nerd! - provocou Brad.
- Chamou quem de nerd? - perguntou o menino negro, postando-se a frente de Brad.
- Desculpe, o que você disse... - e Brad terminou o tom da pergunta dando logo um soco seco na testa do garoto, que sucumbiu.
- Que merda Jenko, digo...Brad!! - praguejou Doug.
- É sério isso? - perguntou o playboy, incrédulo.
- Desliga essa musiquinha aí de viado. - Brad ainda zombava.
- Me socou porque sou gay? - perguntou o menino negro ainda caído.
- O quê? Não, eu... - gaguejava Brad.
- Isso não é legal, cara. - disse Doug.
- É muita insensibilidade. - ditou o garoto de moleton.
- Não soquei ele por ser gay. Eu o soquei, e depois soube que era gay. - explicou-se Brad.
- Eu era gay quando me socou! - gritou o menino.
- De certa forma. - começou Doug. - Podia ter sido homofobia não socá-lo só porque é gay.

Os dois foram para a Diretoria.


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Com algumas semanas de aula, Doug e Brad haviam se familiarizado com quase todos da classe que se manifestavam a eles de alguma forma. Para eles, importava nada o conteúdo das matérias, as experiências que tomavam aulas inteiras de Química Avançada e as representações teatrais no palco do colégio. Em quase toda conversa com alunos e professores, eles tentavam tirar toda e qualquer lasca de informação que pudesse levar a possíveis esquemas de passagens de drogas. 

Nesse meio tempo, começaram a perceber também algumas atitudes isoladas e estranhas em determinados alunos. Ou, eles julgavam precipitadamente serem ações que pudessem levar a identificarem o fornecedor da PQP. Na grande maioria das vezes, essa percepção era distorcida e no máximo ficavam sabendo de trips alucinantes em festas, de momentos histéricos, eufóricos, extasiantes ou tranquilizantes causados por alguma outra merda de substância, mais eles não queriam saber a reação de drogas no organismo daquelas pessoas, mas conversavam sobre isso com elas necessariamente. Afinal, fornecedores não vendiam para quem falava, mas para quem realmente usava seus produtos.

Como a amostra de alunos (nenhum professor, a princípio) que já havia conversado sobre drogas e afins com Brad e Doug era imensa, eles decidiram que quem não havia falado sobre esses assuntos já poderia ser deixado de lado da investigação.

Com alguns alunos, a intimidade era maior, propositalmente, não por serem mais legais, mas por serem os maiores suspeitos. Um deles, coincidentemente, era o playboy de moleton que aguardava a chegada de sua namorada vinda na bicicleta rosada, parado ali ao poste do estacionamento do colégio. O nome dele eles ouviram através dela. Eric.

A proximidade com o garoto possibilitou que Doug e Brad conhecessem mais sobre sua aparente influência na Escola. Era o garoto ao qual todos conheciam, e falavam. Aparentava ser apenas um riquinho de New Orleans com um pai de conta gorda, tendo meninas a seus pés quando quisesse. Fazia um bico no jornal da Escola, escrevendo em algum tipo de coluna fútil. Fazia isso dentro de uma salinha empoeirada com computadores, CPU's e mais um monte de outras máquinas de papelarias e escritórios.

Depois de uma aula de Química, Brad encontrou com Doug, para comparecerem áquela mesma salinha, a fim de trocar ideias com o mais provável traficante do Colégio. Depois de uma hora entrando em depósitos e salas de aula vazias, eles conseguiram encontrá-la, e o garoto estava lá.

- Ei. - cumprimentou Doug.
- Vocês já se desculparam com Fred? - perguntou o rapaz, se referindo a seu amigo, o menino negro. - Quer dizer, você né? - apontou para Brad.
- Foi um mal-entendido o que rolou naquele dia. - disse Brad, em tom de desculpas.
- Foi. Total. - concordou seco o playboy.
- Você é o traficante? - sondou Doug, descontraído.
- É você? - e agora Brad aponta para o moleque, que se estira na cadeira.
- Sou eu.
- Você faz a parada?
- Tenho cara de cientista? Não, só vendo.
- Ele só vende. - diz Doug.
- É...foi mal. Quanto vocês querem? É $20,00 cada.
- Uma pra cada. Uma PQP pra cada.
- Ah, já sabem até o nome. Não são da Narcóticos, né? - sondou o playboy.
- Não! Você deve ser da Narcóticos!
- Sabe quem diz "narcótico"? O pessoal da Narcóticos.

Brad olhava com desprezo para o playboy.

- O seu argumento não é claro, pois, se disse que somos da Narcóticos, e o pessoal de lá usa a palavra "narcótico", e você usou a palavra... - iniciou Doug.
- Você disse isso. - confirmou Brad.
- Bom. Não tenho tempo pra isso. Vão querer ou não?? - o moleque se irritava.
- Vamos querer. - e o garoto pegou duas das mini bolachas, o PQP, dando a eles.
- A primeira vez... vocês tomam aqui mesmo. - mandou o garoto.
- Mas...eu queria preparar meu quarto antes, apagar as luzes, acender um incenso, sabe. Essa droga aí deve ser pesada, hehe. Queria criar um mantra antes, sabe? - perguntou Brad.
- E eu queria tomar antes de me masturbar. - brincou Doug também.
- Ou tomam aqui, ou saiam. Preciso terminar a página do vôlei feminino!

Os dois trocaram olhares, e resolveram continuar com seu plano. Comeram as bolachinhas.

Logo depois, saíram da sala direto pro banheiro. Tentaram vomitar, um com o dedo na goela do outro, como dois jovens desesperados transbordando álcool em seu primeiro PT. Não vomitaram nada, só baba, e desistiram de tentar excretar o PQP. Eles acataram que sentiriam seus efeitos. 

Os efeitos vieram pouco depois, durante uma conversa com o professor de Educação Física. Eles o viam ora como uma casquinha de sorvete falante, ora com o gato de Alice no País das Maravilhas no lugar da cabeça. E riam, riam, freneticamente. Passavam pelas fases de gargalhadas extremas e viagens de alteração na percepção dos sentidos. A 1ª e a 2ª fases.

De acordo com os recentes laudos do laboratório, os estágios pelos quais o indivíduo passa ao ingerir o chamado PQP são a fase de gargalhadas constantes, a alteração na percepção sensorial, o excesso de confiança, a fase de inconsequência (ou o "foda-se"), e por fim, sonolência.

Durante a 3ª fase, de confiança extrema, na aula de Química Avançada, Brad escrevia na lousa e explicava algo para os "colegas" sobre alguma substância química:

- Uma partícula de unobtanium reage com um capacitor de fluxo, transformando o isotoner atômico numa aranha radioativa. Vá se foder, ciência! - e saiu da sala de aula, de braços erguidos.

Enquanto isso, Doug se preocupava em acertar coisas na cabeça dos outros, durante uma corrida na aula de Educação Física.



4 - Como Touros em uma Loja de Porcelana

- Os traficantes são populares, mas não do jeito convencional. Eles comem granola, e convenceram todo mundo de que são bacanas. - relatava Doug para o comandante, no nº 21 da rua Jump.
- Isso não é nada bom, e precisa ser impedido. O traficante é Eric Molson. É o cão alfa. - disse Brad.
- Ele que é o cara. Participou da corrida da Aids, seu carro é movido á biodiesel, já foi aceito na Berkeley e fala a minha língua. - Doug falava e apontava para variados pontos de um mural gigante, onde haviam fotos com alunos e alunas sorridentes, alguns mapas e fios que interligavam alguns dos rostos, e infinitas anotações classificando-as.
- Pelo que vejo aí nesse projeto de mapa global do FBI, parece que queriam me mostrar fotos de alunos sorridentes. Quero saber onde está a porra do fornecedor nesse arranjo todo! - falou o capitão. 
- Não sabemos. Por isso há uma interrogação no rosto dele. - disse Doug, indicando o papel sem a foto, com o sinal.

O capitão fez uma cara de pouquíssimos amigos, praguejou e foi buscar uma xícara de café.

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Enquanto almoçavam no refeitório da Escola Sagan, Doug e Brad discutiam sobre Eric:

- Ele gosta de quadrinhos, se preocupa com o meio-ambiente, assiste Glee. Cara, não é tão difícil assim se tornar popular então. Se fosse assim, eu teria sido o cara mais popular da escola. - dizia Doug. - Eu posso me enturmar com os populares, e você também. Só precisamos fazer algo bem irresponsável, para ganhar a confiança deles. - terminou, olhando para Eric e as quatro meninas que o faziam companhia em sua mesa durante a refeição.
- Vamos dar uma festa? - sugeriu Brad.
- Eu agito Eric e o pessoal da sala dele. Você chama o resto de quem acha que vai chamar outras pessoas, e temos uma festa. - indicou Doug.

Doug preferiu agitar a festa e os preparativos para Eric e sua "turma", pois estava interessado tanto no traficante quanto em sua namorada, a loirinha da bicicleta rosa, Molly. Por passar grande parte do tempo com Eric, Doug percebeu que o garoto mantinha próximo de si pessoas que ele julgava ser seus amigos, mas alguns desses "colegas" de Eric logo saíram apenas da linha da amizade e passaram a integrar, juntamente com o playboy, daquele esquema ilícito envolvendo o PQP. Por isso, o jovem policial desejava manter-se próximo a esse grupo.

A pessoa que Doug mais gostava de conversar era Molly. Ela ficava praticamente o tempo inteiro junto a Eric, com exceção das aulas de Teatro, quando Doug a abordava frequentemente. Ele tinha um tesão por ela desde o dia do incidente preconceituoso com o garoto negro, Fred, no estacionamento. 

Molly, por sua vez, parecia se dar muito bem com Doug, afinal. Os dois até já formavam o par de testes para uma cena que faria parte do espetáculo daquela temporada na Escola Sagan, "Peter Pan". Pela forma de agir, Doug parecia estar mais interessada na garota loira do que na Wendy.


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A festa foi preparada, e parando pra pensar, às 20h da noite, Doug tinha certeza de que sua casa estaria entupindo de gente daqui a poucas horas. Quase todas as pessoas que Brad havia chamado vieram primeiro, principalmente o grupo dos que se consideravam nerds, que iam ajudando na maior parte da organização da festa.

Luzes psicodélicas iluminando o corrimão das escadas, enfeites escandalosos no teto e nas paredes, garrafas fechadas com todo tipo de bebida e pessoas sedentas por euforia iam fazendo a prévia da noite.

- Preparem-se, o Eric chegou. Aguardem o sinal. - alguém da sala de Química Avançada disse.

Brad combinara com o pessoal de sua sala, de Química, de tentar confiscar o celular de Eric durante a festa, para que pudessem analisar seus contatos e mensagens, e classificar aquelas que pudessem levar ao fornecedor da nova droga sintética. Fariam isso copiando o cartão de memória do celular dele para um lep top, e introduzindo um chip no celular, que serviria como escuta.

Quando Brad viu que Eric estava com o celular na mão, fez o sinal para um dos envolvidos. Este veio e criou uma distração rápida para Eric. Nesse meio-tempo, Brad deu um empurrão leve com uma das mãos, "sem querer", nas costas de Eric, e com a outra recolheu agilmente o celular do garoto, entregando para outro rapaz, que subiu as escadas em direção a algum quarto, onde sabiam que havia um notebook para onde poderiam passar o conteúdo do cartão de memória do celular, e também implantar o chip de escuta nele. 

Durante a mini-operação, Doug tratava de mostrar a casa para algumas pessoas e incentivar o início das bebedeiras.

No quarto, quem bebia mais do que o normal era o grupo de alunos que copiava os dados do cartão. Brad notou que era a primeira vez que bebiam, o que não seria de grande ajuda para a pequena missão deles de roubar informações potenciais sobre o esquema ilegal.

Lá embaixo, na sala, outro grupo de 4 rapazes, desconhecidos por todos até ali, iam se inteirando no ambiente:

- Cadê o Eric? Cadê o Eric? - perguntava um dos rapazes.
- O que faz aqui, Scott? A Escola Kennedy não deu nenhuma festa hoje? - perguntou Eric. 
- Não. Eu soube que estão curtindo coisa nova. Quero o contato para entrar no ramo. - disse Scott. 
- Tenho outros compromissos, sabe. - falou Eric.
- Não foi um pedido.
- Ow, ow. Devagar aí.  Eu cuido disso. - tentava acalmar Doug, se pondo entre os dois e ficando de frente para Eric.
- É mesmo? - perguntou Scott. - e Doug se virou para encará-lo.
- Ei meu chapa, não te conheço. - Doug falou.
- Não se estresse com isso.
- Já me estressei.
- Porquê?
- Porque a festa é minha. Este é o meu templo. - dizia Doug, apontando para vários cantos da casa. - É onde encontro paz. E você entrou aqui como um touro em uma loja de porcelana, metaforicamente derrubando vasos e incomodando a galera. E eu pergunto, quem é Scott?
- Ah, é esse tipo de festa? - perguntou Scott.
- Ou, na verdade, estou ficando com calor. - disse Doug, e tirou sua jaqueta xadrez.
- É verdade, bem verdade. Também tô com calor. Deu vontade de me mexer. - e Scott socou o meio do estômago de Doug.

No quarto, lá em cima:

- O que foi isso? Ouviram? - perguntou Brad ao pessoal no quarto, e saiu correndo para as escadas.
- Gostou dessa, o dono da festa aí? - zombou Scott.
- Schmidt! Doug! - gritou Brad.
- O que eu faço? - perguntou Doug, dolorido.
- Bate nele! - e Doug socou a testa de Scott.
- Porra! Doeu mais o soco em mim! - choramingou Doug.

A partir daí, foi uma sequência de socos e empurrões para todos os lados, tornando a sala principal da casa um ringue de lutadores cegos e ébrios.

- Quer um chute no saco? - perguntava uma garota.
- Cuidado com o vaso da minha mãe! - bradou Doug.

Scott tentava socá-lo, e o vaso chegou a tombar. 

- Dane-se o vaso! - gritou Scott, se lançando para cima de Doug.
- Então é foda-se? - perguntou Doug.

E o policial disfarçado pegou o vaso e o estilhaçou no meio da testa de Scott, onde havia acertado seu golpe inaugural. O rapaz  caiu de costas no carpete da sala.

- Isso!! - berravam praticamente todos na sala, de braços erguidos em êxtase.
- Esse é meu parceiro! - elogiou Brad.

Após terminar a cópia dos arquivos do celular de Eric, os garotos de Química que haviam feito o trabalho desciam as escadas, e Brad os notou. Um dos garotos, um coreano de 1,58, passou o celular pelo meio da manga esquerda da jaqueta que Brad usava. O policial o pegou, e o introduziu rapidamente no bolso de trás da calça jeans de Eric. Serviço concluído.

Então, a festa pôde começar realmente.

As luzes-guia no corrimão das escadas se mostraram convenientes para os pares, ou trios, que desejavam trepar nos quartos do 2º andar. As 4h30 da manhã, o carpete fedia a álcool e vômito. Pessoas tentavam constantemente subir nas paredes, em cima dos armários, e alguns jogavam tequila no grande aquário que tinha na casa, para animar os peixes. 

Enquanto isso, no carro, os pais de Doug voltavam de seu rolê daquela noite. A mãe fumava o incrível baseado que havia conseguido produzir, apesar de sua mão ensebada de creme e suas unhas que pareciam de ratazana. Passando a mão no saco de seu marido, ela colocou o cigarro de maconha, ainda bem inteiro, na boca dele. Este deu uma tragada suave, fazendo biquinho.

- Nossa, Peter, esse biquinho que você faz é tão sexy. Chegando em casa vai ter. - e o marido soltou a fumaça canábica, sorrindo que nem um imbecil.

Sorrindo também estavam todos na casa do casal, claro. Quando abriram a porta, o pai e a mãe de Doug perceberam a felicidade e a chapação de um mundo de gente que ressoava pela sua casa, e perceberam também que haviam sido feitos de idiotas. O sexo pós-brisa anunciado pela mãe não iria rolar, pelo visto.

- Que porra é essa?! - berrava a mãe de Doug, enquanto garotos e garotas corriam pela cozinha segurando cuecas e calcinhas.
- Foi mal mãe, foi mal! -  e Doug saiu correndo para a rua, junto à toda aquela multidão sem roupa e sem razão.
- Seu merda!! - berrava a mãe.

No fim, a noite rendeu a eles mais do que queriam. O fato de Doug ter enfrentado o idiota que penetrara na festa, para defender Eric, fez com que a intimidade entre eles aumentasse substancialmente. E isso era essencial para as investigações. 

Na rua escura, pouco depois da debandada de todos da casa, Doug e Eric riam conjuntamente sobre a cena hilária que haviam acabado de provocar e presenciar:

- Haha, que incrível. Foi a melhor festa que vi em anos! - dizia Eric.
- Faço essas loucuras o tempo todo. - animava Doug.
- Aposto que faz! Estou muito empolgado! - falava rindo Eric. - Gosto do seu jeito. Tá afim de ganhar dinheiro? - perguntou, e mesmo tendo despertado por dentro, Doug se manteve interessado, mas calmo.
- Seja o que for, estou dentro. - respondeu.
- É o seguinte. Não consigo vender tudo sozinho, mas só envolvo gente que eu curto. Se mandar bem, pode participar. Eu te apresento ao fornecedor. O que acha?
- Por mim, tudo bem. - aceitou Doug, animado.

E o jovem policial agora gozou de rir por dentro. Estava impressionado com sua capacidade recém-adquirida de se relacionar e transmitir importância para um garoto considerado popular. Um garoto que sempre quis ser. E agora, adquirira respeito pelo garoto mais popular da Escola Sagan. O mais popular, e como Doug já sabia, o mais importante traficante que trabalhava para o fornecedor que objetivavam capturar. 


5 - Sarcasmo


A proximidade entre Doug e Eric já era tamanha que o policial até acompanhava o garoto em alguns de seus "compromissos", como por exemplo ir em lojas de calçados para que o playboy pudesse comprar pares de tênis mais macios e confortáveis para seu pés tão calejados. Aliás, comparecer a lojas com Eric era tão comum que Doug se perguntava se o garoto não poderia adicionar alguma coisa para ele em sua lista de compras semanais. Na loja de sapatos:

- Eae, anda conversando com a Molly? - perguntou Eric, descontraidamente.
- O quê? Eu não...Molly. Talvez, é...
- Relaxa, cara. Qual é? - tranquilizou Eric, abrindo um largo sorriso de moleque arteiro. - Não sou um atleta ciumento das antigas. A gente fica de vez em quando, mas não temos nada. Sei lá, não sou possessivo, sacou?
- Saquei. Saquei mesmo, é. - disse Doug, extremamente satisfeito.

_ _ _


Depois da compra dos sapatos de Eric, eles acabaram voltando para a casa do playboy, onde a noite, algumas pessoas passariam por lá para uma pequena festa casual de meio de semana, habitual na casa do traficantezinho.

Alguma hora da noite, o garoto mais popular da Escola Sagan tocava violão e criava um discreto sarau no quintal de sua casa, de 400m². Uma roda com umas 12 pessoas cantava serenamente em volta de uma mesa, ao lado da piscina esverdeada pelas luzes que iluminavam suas entranhas.

Dentro da casa, no sofá de camurça bege da sala, Doug trocava ideias com Molly. A garota parecia séria e preocupada, quando o assunto de seu papo se vergou para a parceria entre ele e seu "ficante". Aquele esquema de drogas, pelo que a menina sabia.

- Posso te pedir uma coisa? - começou ela. - Só quero que você e o Eric tenham cuidado com seja qual for o plano de vocês.
- Sim, vamos ter. - Doug respondeu.
- Seria péssimo se algo de ruim acontecesse, porque...você é um cara legal.
- Ahn, é, acho o mesmo de você, só que na versão feminina. Você é menina.
- Eu sou.
- É. - e os dois riam.
- Pus esse vestido pra você não se esquecer disso. - disse Molly, mostrando sua roupa infantil, vermelha com desenhos amarelos.
- Haha. Está empolgada com a peça? - perguntou ele.
- Estou. - disse ela decidida.
- Está estampado na sua cara.
- Estou muito empolgada. Isso faz de mim uma super nerd?
- Não, de forma alguma...
- Você é do comitê do baile. Acha que vai ser divertido?
- Acho que vai ser maneiro!
- Sou muito cética, mas, se alguém legal me convidasse, eu iria. - afirmou a garota.
- Você e o Eric não vão juntos?
- Não que eu saiba. - e eles se olharam com voracidade por alguns segundos incômodos.

Nesse ínterim, Doug se lembrou de seu verdadeiro eu, Schmidt, nos tempos de colégio. Quantas vezes havia passado por momentos incômodos, quase sempre terminando em frustração por sua parte e indiferença para com alguma garota mais bonita do que ele se dava capacidade para beijar. Naquele sofá, naquela hora, a imagem daquele garoto de cabelos cor de mostarda, aparelhos azul bebê nos dentes e a esperança de conquistar Melanie no meio do corredor do colégio surgiu em sua cabeça como uma revisita sarcástica do passado. O policial estava preso no constrangimento. 

- Então....você...é - e ele deu umas tossidas.
- Você está bem?
- Sim, sim, relaxa, estou bem. Eu gostaria de saber... se....você...não gostaria de ir...ao baile comigo. Quer ir ao baile comigo?
- Quero. Eu adoraria ir ao baile com você. Obrigada pelo convite. - e ele sorriu totalmente sem jeito, enquanto ela avançou alguns centímetros na direção do policial.
- Então, aperte aqui. - disse ele, sorrindo e estendendo a mão à ela.
- Estou apertando bem aí. - disse ela, rindo e apertando a mão de Doug.

O pessoal que cantava para a noite, no quintal, entrou na casa, e a maioria se juntou a Doug e Molly no sofá de camurça. Eric se sentou ao lado do seu novo amigo e contato, o jovem policial à paisana que o playboy nem imaginava estar lidando. 

Longe dali, dentro de uma sala equipada com computadores e outros equipamentos eletrônicos, e juntamente ao pessoal de sua sala de Química Avançada, Brad acabava de ouvir a suposta namorada do traficante aceitando o convite para o baile de seu companheiro da investigação policial. 

Quando decidiu pegar seu violão para dedilhar alguns acordes, instantes atrás, Eric havia deixado seu celular com Molly, que o guardara no bolso de sua calça. E com o chip de escuta já implantado no celular do traficante, Brad e seus amigos de Química ouviam tudo o que Doug e a loira estavam conversando, através de um dos computadores de uma sala. Brad ficou estupefato quando ouviu a resposta positiva da garota loira ao convite. Agora, se sentia feliz por seu amigo.

Uma das pessoas que saiu do quintal e foi se juntar a Doug e Molly no sofá, uma garota de cabelo chanel negro, tirava uma dúvida:

- Doug, você e Brad não são irmãos de sangue, né? São muito diferentes.
- Ele é adotado. - começou Doug. - Achamos que vem de uma família doida.
- Hahahaha, e onde ele está??
- Deve estar em casa, com os idiotas que andam com ele. - falava Doug, aos risos da galera.

E lá na sala, ouvindo seu amigo e irmão poluindo sua imagem assim, frente a todos, ainda fazendo isso sarcasticamente, Brad se sentiu desestruturado. Não estava entendendo nada sobre o comportamento estranho que Doug vinha assumindo em relação a ele, e isso prejudicava não só o andamento das investigações do esquema do PQP, mas também a amizade entre eles.


6 - O Mérito do Egoísmo

- A droga chegou em outras escolas! Eu avisei que iria acontecer. Vocês não impediram a disseminação. E não têm pistas! - bradava o capitão, dentro do headquarter no nº 21 da rua Jump. - O tempo está acabando. Ou acham o fornecedor, ou expulso vocês da rua Jump!
- Entendo, senhor, mas ouvi o Eric falando ao celular ontem com alguém que deve chegar com uma piñata recheada. - contava Brad, seriamente.
- Isso é algum tipo de código sexual? - perguntou o capitão.

E eles saíram da Igreja Aroma de Cristo, não sem antes ouvirem mais 11 vezes a ordem expressa de acharem o fornecedor o mais rápido possível.

- É sério? Piñata? - estranhou Doug.
- Sim. Lembra que grampeei o celular do Eric? Enquanto você se divertia ontem, fiquei escutando, e ouvi o Eric falar a alguém sobre uma piñata.
- Só ouviu isso?
- Aham.

_ _ _

Brad lia um trabalho em voz alta para a sala, na frente de todos:

- "Nitrato de potássio. Não o odeie. É ótimo. Pode servir de oxidante. Eu não sabia disso, mas agora estou mais sábio. Tem estrutura cristalina. Se você não respeita isso, é um pela-saco. É um dos ingredientes básicos da pólvora. O KNO³ não dá trabalho. Pode ser usado para fazer carne enlatada. Também é chamado de salitre." - Brad terminou e olhou para a professora, buscando sua aprovação.

Pela janela da sala de aula, Brad viu Eric saindo de carro no estacionamento, junto com outra pessoa que não identificou. 

Ele saiu da sala avisando que precisava ir urgentemente ao banheiro. Após encontrar Doug no camarim do teatro, já vestido de "Peter Pan", pois a peça seria dentro de 1 hora, eles pegaram um táxi emprestado que estava no estacionamento, mostrando seus distintivos, e saíram em perseguição a Eric.

Diminuíram a velocidade do táxi e encostaram ao lado de um pilar com uns 2 metros de diâmetro, que fazia parte da estrutura que segurava uma ponte interestadual. Embaixo da ponte, havia alguns carros estacionados, inclusive o de Eric, e uma passarela mais além, que devia ser usada apenas por mendigos e transeuntes metropolitanos.

Entre os veículos, eles avistaram Eric e o rapaz que o acompanhava, conversando com um grupo de homens vestidos de jaquetas que pareciam capas tri-revestidas da Suíça de tão grossas. Usavam óculos escuros e tinham a seu lado cada um uma moto. Doug adorava motocicletas, e notou que aquelas se assemelhavam a Harleys. Após notar também a barba branca que fazia parte do rosto de um homem imenso, com mais de 150 quilos, ele memorizou imediatamente a cena em que ele e Brad faziam ronda pelo parque principal da cidade, meses atrás, em que ele fora literalmente atropelado por aquele brutamontes. 

E associou. Aqueles homens eram os mesmos traficantes que haviam ferrado com eles. Aqueles que pareciam saídos de American Chopper.

- Puta merda, não pode ser. São os caras do parque! - disse Doug.
- Que loucura. - falou Brad, vendo Eric passar um cavalinho colorido para as mãos de um dos homens.
- O que deve ter ali dentro? - perguntou Doug, estranhando o cavalinho inusitado.
- Vai saber. Dinheiro. Droga. Podem ser novos compradores ou fornecedores. - e viu o homem que recebeu o cavalinho colorido resmungar algo e Eric voltar a seu carro.
- Temos que segui-los para descobrir o que é. - afirmou Brad.
- Ok, mas temos que voltar em meia hora. Tenho apresentação da peça, cara. - explicou Doug, ridículo naquela fantasia verde de Peter Pan.

Assim, os dois iam seguindo as motos pela avenida interestadual.

Quando as motos pararam em formação devido a um semáforo, Brad comentou:

- Não encoste muito neles, cara.
- Ficar longe é mais suspeito. - discordou Doug, acelerando e se aproximando mais dos homens. - Sei o que estou fazendo, e... - e Doug foi interrompido por Brad, que pisou fundo no freio do carro.
- Porra! - gritou Doug, batendo a cabeça no volante. - Se fizer isso de novo, vou socar seu saco. 

E nada poderia ser mais ridículo do que Doug falando isso naquele carro, vestido com aquela roupa esverdeada e usando aquele chapéu com uma pena na aba.

- Solte o freio! - pediu Doug.
- Não.
- Solte o freio!! 
- Não vou, não. - e então Doug pisou até o fundo do pedal do acelerador, enquanto Brad pisava fundo no freio.

Um dos homens do comboio de traficantes, o brutamontes que havia derrubado Doug no parque, estranhou o barulho que o carro fazia atrás dele, e se virou para ver quem era o idiota que o dirigia.

Doug resolveu mesmo socar o saco de Brad, que gritou e soltou o pé do freio. O carro então embicou para a frente como um foguete desgovernado, e bateu com tudo na traseira da moto do brutamontes. O impacto foi tão forte que o homem grande foi erguido de sua moto e acabou estatelado no capô do táxi. 

- Merda, merda! Veja o que você fez. - berravam os dois dentro do táxi.
- Vocês não sabem dirigir, seus fodidos, saiam do carro PORRA! - urrava o brutamontes, como uma besta, chutando a lateral do carro e dando socos na janela.
- Tranque essa porta! - e o brutamontes parou para olhar a fantasia de Doug.
- Você é um elfo, seu retardado? - perguntou o brutamontes indignado, arrancando a plaquinha de TÁXI de cima do carro e a jogando em cima do capô, que amassou na hora. - Está na hora de amassar! - gritava o brutamontes ensandecido, agora subindo ele mesmo no capô do táxi e pulando como em um bate cabeça de um show de Ozzy Osbourne.

Doug pisou fundo novamente no acelerador e saiu em disparada pela interestadual. Os roncos das motos se iniciaram também.

Correndo à toda, eles seguiram e seguiram, ligeiros, mas tiveram que parar bruscamente em uma ponte logo depois. Estava completamente congestionada. Saíram do carro, e desesperados, correram entre os carros parados na ponte, com medo de voltarem a ouvir os zunidos ferozes dos motores das máquinas andantes da gangue.

- Corre, corre cara! Mais rápido. - incentivava Brad a Doug.
- Não dá cara. O Peter Pan usa umas roupas muito coladas. Não consigo me mexer direito aqui.
- Nem eu. Tô usando uma calça skinny, é a mesma coisa!!

Os primeiros carros da fila congestionada já ouviam os roncos que se aproximavam. Brad e Doug tiraram um homem de terno branco de seu Porsche e entraram nele, saindo em disparada novamente. Mas as motos foram rápidas e já os seguiam em um pelotão logo atrás.

- Veja se tem alguma arma aí no porta-luvas. - deu a ideia Doug.
- Onde? Não tem porta-luvas no carro. Só tem umas bolas de golfe aqui nesse compartimento, e...isso. - disse Brad, mostrando as bolas e uma raquete de tênis....o que eu faço com isso??
- Não sei! Nunca fui perseguido em uma autoestrada.

Como em uma cena clichê-milionária de um filme de Silvester Stallone, Brad jogou a bolinha de golfe para cima e deu uma raquetada em direção ao comboio que os seguiam. A bola acertou no meio do capacete de um dos homens, o desestabilizando e o fazendo perder a direção. A moto bateu com tudo em um caminhão que levava um carregamento de tanques de propano, fazendo com que o impacto abrisse a comporta de segurança e os tanques com o gás saíssem rolando pelo asfalto.

- Caralho! Cuidado! Vai explodir!

Os traficantes que pareciam saídos de American Chopper entraram na explosão que se iniciou logo que dois dos tanques colidiram. 

Achando que estavam a salvos, Doug já dizia:

- Vamos voltar logo pra escola, cara. Minha apresentação vai ser em instantes.

Aquele zunido de motor de novo, e eles viram de relance apenas uma das motos os perseguindo. Era o que parecia, mas o traficante tentava os ultrapassar, carregando na traseira de sua moto aquele cavalinho psicodélico que mantinha em seu interior um conteúdo oculto. O homem atirava no Porsche para se proteger.

- Mas que inferno, tem que ter alguma arma nesse carro de milionário fresco e medroso!!

E realmente havia. Brad ainda não tinha a encontrado, pois confundira o porta-luvas com o compartimento do air-bag.

Brad pegou a arma e disparou uma sequência de tiros. Um deles pegou na roda da moto, que vergou desequilibrada em direção a um caminhão que transportava galinhas para alguma fazenda no interior, e outro pegou na cabeça do cavalinho, que explodiu simultaneamente a colisão da moto com o mundo de penas e berros das aves.

- Eu queria ter atirado, seu bosta! - reclamava Doug. - Vamos logo pra escola, bateu a hora da peça. Puta que paril, estou atrasado. Estou fodido!


_ _ _


Na porta da escola:

- Você foi muito egoísta, Brad. Pegou a arma da minha mão para dar uma de herói? - reclamava ainda Doug.
- Está de sacanagem? Olhe para você! Você se envolveu demais. Achei um formulário de universidade na sua mesa!
- Não sei quanto tempo o caso vai durar! O Eric vai para Berkeley, e também posso entrar! Quem sabe? Eu poderia ser médico e tal!
- Ficou maluco? Você acabou com a investigação.
- Pelo menos eu sei meus direitos, idiota. - disparou Doug.

E saiu correndo em direção ao palco do teatro. Olhou no relógio. Dez minutos se passaram da hora do início do espetáculo. Entrou no meio do palco, no meio da cena. Molly terminava de citar alguma passagem, e Doug empurrou o rapaz que encenava em seu lugar.

- Estou pronto, estou pronto pra atuar pessoal. Sei que perdi as primeiras cenas, mas... - parou de falar quando foi suspenso pela corda presa à fantasia em suas costas.

No ar, outra corda foi impulsionada. Brad havia prendido também uma corda em sua roupa e enguiçou-a, para bater bem de frente com Doug, quando viu que o companheiro de investigação havia enguiçado a sua. 

No ar eles se trombaram, e tentavam se socar.

- Quem é egoísta aqui, seu merda?
- Me solta.

O diretor da cena falava para si mesmo, pasmo:

- Preciso fazer algo. A cena não está legal.

No ar:

- Você é o pior amigo! Egoísta! Cuzão! - gritava Doug.

De repente, a corda que sustentava Brad se rompeu e ele caiu em cima de uma pedra figurativa. Mesmo a pedra sendo de isopor, a altura da queda não impediu a dor latejante que se fez nas costas do policial logo que bateu no chão. Doug empalideceu, mas viu que Brad já se levantava. Molly olhava para Doug com mágoa e desprezo.

- Me desculpe! - pedia ele.
- Nunca mais vou falar com você. -  e a loira deixou o palco.
- Seu merda! - Brad corria na direção de Doug. -  Você era meu amigo, você era meu amigo!
- Chega. Chega! Os dois estão expulsos!!! -  o diretor finalizou o espetáculo.



7 - Tensão e Transação

- É isso? Não vai gritar com a gente? - perguntou Brad, após Doug relatar a situação infantilizada entre eles, e a consequente expulsão.
- Não. - dizia o capitão, chateado. - Só vou demitir vocês.

Deixaram a Igreja Aroma de Cristo. No ar havia mesmo uma espécie de aroma. Um aroma podre, amargo, azedado pela infantilidade e imbecilidade como haviam agido no dia anterior.

De cabeça baixa, eles empilharam suas coisas e as empacotaram em caixas de papelão. Fizeram isso na rua Jump e na casa de Doug. 

Doug acompanhava Brad levando suas caixas para o ponto de ônibus. O último se despedia:

- Estou indo embora, cara. Saiba que eu teria levado um tiro por você. - Doug não respondeu, e nem ousou olhar na face de seu companheiro.

Doug olhou mesmo para um carro que reconheceu de prontidão, quando este parou em frente à calçada de sua casa.

- Entrem no carro. - mandava Eric, seríssimo.
- Que porra é essa? - quis saber Brad.
- Entrem no carro logo!
- Peça com educação.
- Entrem logo, por favor.

Eric os levou para detrás de algum armazém abandonado perto do píer da cidade.

- Aconteceu um lance estranho ontem. - o traficante começou. - Depois que fizemos a troca, nossos futuros sócios foram seguidos por policiais!
- Que doideira, cara. - disse Doug. - É sério? - perguntou, fingindo ignorância.
- Estou ferrado, cara. Sabem o que acontece com um cara bonito como eu? Rima com estudo! Rima com estudo!! - choramingava. - Isso não pode acontecer, não pode acontecer, por isso peguei isso do meu pai. - e o playboy mostrou duas pistolas que tirou de trás da calça.
- Hey, Eric, Eric! - acalmavam os dois policiais.
- Springfield .45. São usadas pela polícia e são potentes. Já usaram uma?
- Hmm, não, não. Nunca usamos uma arma. - mentiu Brad, pelos dois.
- Você. - começou a dizer Eric, apontando para Brad. - Seu gosto musical, o fato de parecer ter quase 40 anos...e depois do lance da peça, percebi... - e ele baixou a cabeça, entregando as Springfields, uma para cada um deles. - ...percebi que não tinha como vocês serem policiais.

Os dois tentaram, mas suas faces não deixaram de demonstrar seu alívio por ouvir aquilo.

- Vai rolar uma transação. O fornecedor vai. Preciso de gente de confiança.

Brad olhou para Doug, que olhou para Brad. Disseram:

- Conte conosco.


8 - Jenko e Schmidt

Colocaram o colete à prova de balas primeiro, branco, depois a camisa de linho, também branca. Prenderam dois cinturões, um na cintura e o outro abraçando os ombros. Neles, repousavam armas. 

Enquanto faziam a barba e apertavam o nó do smoking, os dois lembraram que iriam sem par para o baile. 

- Jenko... - começou Schmidt - Quer ir ao baile comigo?
- Pode ser. Tenho uns contatos que podem ajudar.

_ _ _


Da limusine, saíram Jenko, ou melhor, ainda Brad, junto a seus contatos que não passavam de seus amigos da sala de Química, todos eles acompanhados de mulheres com pelo menos 15 anos a mais de maturidade. Todos entraram, com Doug por último.

No meio da pista, Molly dançava sozinha. Usava um vestido longo, tomara que caia esverdeado, com botões dourados no meio. Doug a viu, e foi até ela.

- Oi, cabeção. Estou com muita raiva de você. - disse ela, mas o riso constante em seu rosto não mostrava raiva.
- Você tomou a droga?
- E se tiver tomado? Dance comigo.
- Molly, um lance sério está prestes a rolar, e não quero que se machuque.
- Já me machuquei. Não ligo.
- Você precisa sair. Vá embora daqui, agora. - Molly começou a rir. 
- Calma, está gesticulando que nem um louquinho.
- Meu nome não é Doug. É Schmidt.
- Hã?
- E sou policial.
- O quê?
- Ok. Eu me preocupo com você, e não quero que seja presa, então precisa ir embora agora. Por favor Molly, saia daqui agora. É sério.

Eric chamou Schmidt a alguns metros de distância:

- Ei, vamos para a cobertura. O fornecedor está esperando.
- Quem é você? - indignou-se Molly, olhando diretamente para Schmidt, que evitou o olhar.
- Ele está esperando. - avisou Eric novamente.
- Saia daqui agora! - falou de novo Schmidt para Molly.

E Schmidt seguiu Eric, ignorando exigências de explicação de Molly.

Os dois encontraram com Brad, ou Jenko, no elevador e subiram até o último andar. Eric abriu as portas de mogno, e deram de cara com um sofá, onde estava sentada uma figura, a qual só dava para se perceber a nuca, cheia de cabelos negros desgrenhados. Jenko o reconheceu logo, era o professor de Educação Física da Escola Sagan.

- Profº Walters? - ele se virou.
- Oi. O belo Brad. E o irmão. Você está lindo! 
- É o fornecedor?
- Aham, hahaha. Mas sou professor, e ganho como tal. Mal paga a pensão alimentícia. Fazer o quê?

Logo chegaram o restante dos envolvidos naquele esquema ilícito da nova droga sintética. Aquele grupo de homens que usavam jaquetas quase sempre pretas, com bastante metais enroscados nelas, os cabelos agigantados e destratados, mantidos não acima dos ombros, de maneira alguma. Mantinham também o semblante igual, todos eles. 

Jenko e Schmidt não conseguiam acreditar como aqueles homens haviam se livrado da explosão do caminhão cheio de tanques de propano. E estavam tensos, pelo fato de provavelmente serem reconhecidos rapidamente pelos traficantes se dessem as caras pelo local. E precisavam interagir com eles, hora ou outra.

- Esse é o Walters. Desenvolveu a droga. - disse Eric ao homem da gangue que se postava como líder.
- É um prazer conhecê-lo. - cumprimentou o Profº Walters.
- Seu nome não me interessa. A droga é boa. - disse o líder.
- Obrigado, é um elogio vindo de você.
- Estão dando uma festa? Quem são aqueles dois? - perguntou o traficante na liderança, apontando para Jenko e Schmidt.
- Oi. - cumprimentaram eles.

Todos da gangue olhavam para eles com cara de negação.

- Não gosto de estranhos. - comentou um dos homens.
- Está tranquilo. São meus parceiros. - Eric disse.
- Continuam sendo estranhos. - falou o líder.
- Como espera fazer novos amigos agindo assim? Todos são estranhos até darmos uma chance.
- Do que está falando?
- Só estou zuando. - Eric ficara com medo do traficante que liderava. - Faça o que quiser.

O líder foi em direção a Schmidt.

- Garoto, conheço você. - disse o negro traficante.
- Fiz um comercial de batata-frita quando era criança. É comum as pessoas acharem que me conhecem, mas acho que nunca nos vimos. - explicou-se Schmidt.
- Tenho cara de quem come batata frita? - perguntou o homem negro que dominava as ações da gangue naquele local. - Schmidt olhou para baixo e para cima.
- Sei lá, você parece em forma, mas deveria tirar um dia para experimentar aquelas batatas fritas que eu.... ah...sei lá.
- Não. Não vou provar porra nenhuma.

Schmidt decidiu cantar a musiquinha que fazia parte do comercial de batatas fritas que estrelava:

- "Venha ao Andrew Empório da Batatinha, onde a amizade e a batata-frita andam de mãos dadas..."

E os traficantes fecharam a cara, estranhando aquela cena ridícula. Mais estranho acharam quando Molly subiu as escadas e parou na frente da porta, gritando a plenos pulmões:

- Eu sei que você está aí, Doug, ou seja lá qual é o seu nome. Você mentiu pra mim! Vou matá-lo, seu policial idiota!!
- Ei, pessoal, ela disse porra seu idiota. - disse Schmidt.

Eric olhou para Jenko e Schmidt, cerrando os dentes. Os traficantes olharam um para o outro novamente.

- Cabeça de pau. Porra, seu filho da puta! - berrava Molly, esmurrando a porta.
- Ahh...ela disse capitão negro bastardo? Que racista... - tentava consertar Jenko.
- Eu sei quem são esses dois. - concluia o líder traficante negro para Eric. - Ele são policiais!
- Polícia! Todos pro chão!! - gritou Schmidt, sacando a arma juntamente com Jenko, como de costume.
- Vocês são policiais?! - perguntou Eric. - Passamos esse tempo todo juntos, cara.
- Eric, pra ser honesto, isso foi um gesto sincero...
- Ele estava realmente fingindo ser seu amigo o tempo inteiro. - constatou Jenko.
- Merda, odeio você, seu puto do caralho! - cuspiu Eric.
- Bata nessa criança. - ordenou o traficante negro para o brutamontes, e Eric tomou uma coronhada na testa, acabando desacordado. - e matem ele. - falou, apontando para o Profº Andrews.
- Não, não, esperem! Eu não sabia que eles eram policiais!

E Molly conseguiu entrar no quarto.

- Cadê você, seu filho da puta? - perguntava ela, ainda sob o efeito do PQP. - Onde ele está? Saia da minha frente! Ah, aí está você!!

O Profº Andrews se cansou da gritaria e pegou a garota á força, imobilizando-a.

- Joguem as armas ou estouro os miolos dela! - avisou o traficante disfarçado de professor.
- Onde você ouviu isso? Em um programa de TV?? Que clichê do caralho hein! - perguntou e afirmou o líder traficante para Andrews.
- Sei lá, nunca fiz essa merda de fazer refém! - choramingou o professor falso. - Joguem as armas ou eu a mato!!

E Molly adormeceu, do nada. Mas Schmidt sabia a razão da sonolência da garota, e tentou usar isso a seu favor.

- Parece que ela já morreu. - disse, fingindo acreditar no fato.
- Ok, vamos jogar as armas. - disse Jenko, e os dois as jogaram no chão a sua frente.
- Ok, DB. Mate eles. - disse o negro traficante que liderava para um de seus homens.
- Você é um mentiroso e um puta de um covarde! - falou Schmidt.

E então o tal DB colocou a arma na testa de Schmidt, que acreditava que iria morrer a qualquer momento. Mas o inesperado veio, e com uma puxada só o tal DB arrancou sua imensa barba loura, os bigodes e o resto da indumentária postiça que disfarçava totalmente seu rosto normal, moreno e com cabelos negros. Parecia que Jenko e Schmidt não eram os únicos no local que disfarçavam suas verdadeiras identidades.

- Tom Hanson, do Departamento de Narcóticos! - e apontou sua Magnum brilhante para a cabeça do líder da trupe traficante. - De joelhos, agora!

E mais outro agente disfarçado retirarou seus cabelos de mentirinha da cara e mostrou suas faces originais, desarmando assim a maioria dos homens que sobraram, os quais realmente faziam parte da gangue.

- Vocês arruinaram 5 anos de investigações. - dizia Tom para Jenko e Schmidt.
- Eu não tinha ideia. Você é um ator incrível, cara. - afirmou Schmidt, dando uma risadinha. 
- Tem alguma ideia de como é difícil se infiltrar em uma gangue dessas? - Tom perguntava para o líder.

E Tom Hanson se virou para os dois policiais, jovens, que faziam o mesmo papel que o agente da Narcóticos, mas de uma maneira mais adolescente. Imatura. 

- Vocês tem alguma ideia de como é foda se infiltrar na vida desses merdas e correr riscos? Isso, é um nariz falso. - dizia o agente, mostrando um pequeno nariz de borracha. - Quer usar um nariz falso pra tapar suas narinas? Pra respirar que nem um asmático? Quer usar, por meses a fio, pondo aquelas colas pegajosas no rosto pra grudar tudo? Tivemos que fazer tatuagens no pinto, cara!
- Hey, quer parar de zuar eles? - brigou o outro agente da Narcóticos.
- O quê?
- Pare com isso, cara!
- Hey, cara, nós sabemos bem o que é trabalhar á paisana. - começou Jenko. - Divisão da Polícia Metropolitana da rua Jump.
- São da Rua Jump? - animou Tom Hanson.
- Somos.
- É realmente engraçado, porque nós começamos lá, na Jump.  - disse Tom, evidenciando a origem dele e de seu agente companheiro.
- O quê? Que loucura, é um mundo pequeno, não, e... - e um tiro interrompeu Schmidt.

A carótida de Tom Hanson foi danificada por um tiro que veio de alguém da gangue. Um tiroteio se iniciou e o outro agente da Narcóticos conseguiu disferir quatro tiros, matando dois traficantes. Mas logo foi atingido por balas viajantes e caiu quase morto ao lado de Tom, seu companheiro também baleado.

Jenko e Schmidt voaram para detrás de um sofá. Eles atiravam somente por cima dele, sem mirar. 

O outro agente da Narcóticos, que não comentou seu nome, dizia algo baixinho para Tom, ainda vivo de alguma forma. Dizia em volume baixo, mas alto o bastante para que Jenko e Schmidt também ouvissem:

- DOUG! - e o agente pareceu querer chamar a atenção de Schmidt, mesmo falando a 1 centímetro da orelha de Hanson. - Sei que me comportei como um idiota as vezes, com você, quando trabalhamos á paisana, mas....apenas....eu não me sentia bem comigo mesmo. - e Schmidt se abalava com o que ouvia. - Todas as pulseiras, anéis, colares, coletes, camisas, coldres, e aquelas roupas legais era apenas para as pessoas pensarem que são legais. 
- Eu só precisava da aprovação....do meu melhor amigo. - declarou Tom Hanson, prenunciando sua morte e a do parceiro. 

E os dois atrás do sofá se olharam como nunca antes. Pareciam ter entendido tudo e nada ao mesmo tempo sobre o que passaram juntos naquela trajetória até ali.

A dupla melhor amiga, da Narcóticos, faleceu na mesma hora em que Jenko e Schmidt se entreolhavam, totalmente imersos em constrangimento e entendimento misturados.

- Temos que sair daqui. - disse um dos dois jovens policiais agora totalmente entrosados.

E eles pularam o sofá, em cena típica de 007 ou algum filme falso de Tom Cruise, atirando em pleno ar. Mataram um traficante cada, restando apenas mais um deles, aparentemente, que descarregou sua submetralhadora por todo canto da sala. Quando se sentiu em silêncio, o traficante resolveu sair do aposento. Não antes de Schmidt arremessar sua arma descarregada, que pegou nas costas do homem ilegal. Ele se virou, e pegou uma arma rapidamente do chão, a apontando para Schmidt, completamente perdido e vulnerável.

E Schmidt continuou se sentindo perdido quando percebeu que ouvira 8 tiros, e não morrera. É que Jenko resolvera acabar com seu pente, descarregando-o no aparente último membro remanescente da gangue do tráfico. O fez a tempo de salvar seu amigo, como havia dito que faria, se pudesse.

- Que loucura! Você matou um cara, por mim!
- Cala essa merda de boca e vamos pra limusine logo, o professor, quer dizer, aquele bosta de traficante pegou a Molly!
- Mas tá foda correr com essas calças apertadas! Quase não consegui sair do chão quando pulei uns centímetros daquele sofá! E dei uma mijadinha de leve aqui, vamos no toalete antes? - e Jenko fuzilou seu companheiro com o olhar, os fazendo continuar correndo.

Pegaram a limusine preta e seguiram a outra que havia por ali, branca. Das duas saía uma saraivada de tiros que pegavam na lataria de algum dos veículos.

- Tem uma arma aí atrás, atire garoto! - mandava o Profº Walters, mas Eric se mantinha afoito e medroso, como uma criança.
- Eu não posso fazer isso, tenho que ir para Berkeley! - Eric choramingava.

Então, outro dos traficantes, um japonês baixinho, apareceu do nada no teto solar da limusine branca, que era guiada por Walters. Ainda restava ele e o líder, pelo jeito. O japonês mirrado sentava o dedo em sua minigun, estourando os vidros laterais da limusine negra, guiada por Schmidt. 

Jenko decidiu fazer o mesmo que o oriental, e embicou a cabeça para fora do teto solar, tentando estabelecer um raio de alcance para acertar o veículo branco e seus integrantes. Porém, ele ia sendo distraído por uma mulher que até o momento dormia profundamente no banco traseiro, mas que havia acordado e estava bastante animada, pois tentava tirar as calças brancas coladas de Jenko para lhe aplicar um boquete. 

O desejo da garota semi-bêbada-chapada veio em pior hora possível, e Jenko xingou todo tipo de deuses por isso. Precisava acabar com aquela fuga e resgatar Molly, antes de se preocupar com qualquer outra coisa.

- Escuta, você é realmente bonita e gostosa pra caralho, mas não tenho tempo pra isso bem agora!!
- Acha que sou gostosa? 

De saco cheio, Schmidt parou o carro. Jenko compreendeu, e enxotou a garota metida á ninfa pra fora da limusine, a fazendo beijar a calçada, ao invés do pênis de Jenko.

- Hey, caras! Também quero brincar! - lamentava ela, ao som do motor gritando em disparada.

E a perseguição entre a limusine preta e a branca retornou.

- Estou quase sem munição! - berrou Jenko para Schmidt.
- Caralho!
- Tenho uma ideia. Você tem balas da shotgun?
- Sim. - respondeu Schmidt, passando uma caixinha com os cartuchos da shotgun que havia perdido em algum lugar.
- Então é hora das notas do concurso de química. - dizia Jenko, enquanto armava algo. - O que acontece com baterias de lítio quando reagem com nitrato de potássio? Isso seria uma ligação covalente, cara. Ou seja, quando dois átomos compartilham os mesmos elétrons. Você vê, ambos precisam um do outro, isso faz com que eles fiquem juntos.
- Tá dizendo que eu e você somos como dois átomos em uma ligação covalente? Acho que...obrigado por isso, mano.
- O quê? Não, hahaha, não somos dois átomos. Ainda.

E Jenko segurou entre suas duas mãos o que havia acabado de produzir, devido ao conhecimento e a habilidade que acabou criando nas aulas de Química Avançada, não de toda inútil. Juntara as balas de lítio e o nitrato de potássio, formando alguma mistura mortal. 

Era uma garrafa de tequila, parecia uma El Jimador. Dentro dela, havia um líquido vermelho alaranjado. Pelo aspecto, parecia ser infinitamente mais mortífero do que uma bebida mexicana, que o frasco afirmava ser. 

Ele olhou para aquele conteúdo explosivo, tapado por uma fita e papel guardanapo, que faria flamejar, e arremessou no carro de luxo branco, aquela limusine inimiga. A garrafa voôu e caiu no buraco que o teto solar abria, caindo no interior do veículo.

- O que é isso? Tequila? Legal!

E na limusine preta:

- Uai, o que aconteceu? Era pra ter explodido há muito....

E explodiu mais tarde do que esperava Jenko. As chamas engoliram a limusine branca,mas uma das portas já estava aberta e destruída, logo que o veículo bateu no portão de um galpão abandonado. Da limusine estourada saíam o Profº Walters e sua refém, Molly. Schmidt e Jenko se aproximaram.

- Porquê não atira? Parece que acabou a munição, idiota! Haha. - praguejava Walters. - Fiquem parados, ou alguém aqui vai se machucar!
- Eric, me ajude! - pedia Molly ao garoto, que estava sentado na limusine semi engolida pelo fogo.

Então Schmidt se desesperou por não poder resolver aquela situação facilmente, e se pôs a correr em direção a garota loura pela qual estava claramente apaixonado. Mas Walters também se receou, e disparou sua pistola. No momento em que Jenko segurava o braço de Schmidt e pulava na frente de sua barriga, o salvando da bala.

- O quê? Atirou nele...você!! Atirou no meu companheiro, seu filho de uma puta do inferno!!! - berrava Schmidt, segurando firmemente sua arma. - Você está bem, cara? Tomou a porra de um tiro, por mim, que nem havia dito. Você é um imbecil, fez isso depois do que eu falei , na frente de todos e....
- Sim, me sinto um pouco dolorido agora, desagradável mesmo. Ele é todo seu, Schmidt.

Sob a luz do helicóptero que chegava, Schmidt se posicionou de frente para o falso professor, e apontou a arma para o meio da cabeça dele, que estava a poucos centímetros da de Molly. 

Se posicionou exatamente da mesma maneira que havia feito no parque, quando o alvo fora o brutamontes. Naquela ocasião, fora atropelado pelo grande homem, e terminara com um hematoma. Dessa vez, sua vida e da mulher que queria estavam em jogo. Ele lembrou de quando não havia conseguido atirar no líder traficante, na autoestrada, vestido de Peter Pan, cheio de receio.

Como que ajudando seu futuro parceiro, Molly deu uma cotovelada no estômago de Walters, que sofreu e não conseguiu segurar a garota quando ela se desvencilhou de seus braços e correu para um local seguro.

O falso professor de educação física ficou então ali, parado, estático, vulnerável como um animal acuado na linha de frente de seu predador. Em mais um insight dos tempos de colégio, agora quando usava aquele aparelho fixo azul bebê e tinha o cabelo da cor de gema de ovo, Schmidt oscilou pela última vez.

- Vamos... - incentivava Jenko, entorpecido de dor. - Agora.
- Você traficou na escola, seu filho da puta? - perguntou Schmidt.

E ele atirou. Mais para baixo do que um tiro mortal acertaria.

- Atirou no meu pau. Oh Deus!!
- Sim, sim, sim. Você está preso! Você têm o direito de ficar em silêncio! Qualquer coisa que disser pode e será usada contra você, no tribunal. - Jenko se juntou a Schmidt na oração habitual. - Você tem o direito a um advogado, e caso não possa pagar, será chamado um á sua disposição. Você entendeu seus direitos? Fui claro quanto a seus direitos?? - berravam os dois, exaltantes. - FODA-SE, SIM!
- Cara, você foi legal! Atirou no pinto dele para não matar! Quem faz isso? - elogiava Jenko.
- Eu o aprecio pra caralho, mano! Você é foda! Estamos de boa?
- Quero meu pênis de volta!! Oh, ele está ali! Peguem pra mim, por misericórdia! - suplicava o professor agora impotente.

Os dois riram, e viram um policial algemando e levando Eric para uma viatura. O garoto estava desiludido. Estava mais longe do que nunca de Berkeley.

- Hey, não servem granola na prisão, seu merdinha! - falou Jenko.


_ _ _


E ao lado da ambulância, ainda levemente chapada pelo efeito do PQP, Molly se apoiava na porta do veículo, quando notou a presença de Schmidt.

- Molly, eu realmente sinto muito. Eu sei que você queria um cara confiável e....eu queria tanto ser essa pessoa, e te decepcionei de várias maneiras, e acho bom que esteja com raiva de mim. É pra ficar mesmo. Acho que deveria ficar chateada, porque merece um cara melhor, que seja bom pra você e se importe. Tem tantos caras bons por aí, não idiotas como eu.
- Obrigado por salvar minha vida, seu bosta!
- Então aperta aqui minha mão, parceira.

A garota a apertou, firme. E puxou o policial para si, o domando e o beijando. 

Jenko dava gargalhadas, feliz, ali perto deles. E um policial olhava enojado para a cena. Provavelmente faria ronda pela noite e não teria ninguém que o pudesse beijá-lo naquela noite fria. Estava prestes a vomitar. 

- Volto mais tarde. - disse o policial frustrado.

Schmidt e Molly não ligavam, é claro, e continuaram representando a cena que não foi possível ser feita na peça do colégio, em "Peter Pan", como programado, e que podiam reproduzi-la agora, quando quisessem.

Schmidt deixou sua garota aos cuidados do paramédico responsável, e foi se juntar a seu irmão e companheiro de trabalho.

- Isso é a vida real? - perguntou Jenko, ou Schmidt.
- Sim, cara. Faz parte da vida real. Da nossa vida. 
- Eh, verdade. Esse caso foi um aprendizado mesmo, cara. Essa coisa toda me deixou tensa. Vai um baseadinho na volta pra rua Jump? Tenho certeza que o capitão vai estar tão feliz e surpreso que capturamos os traficantes e quebramos o esquema do PQP, que nem deve notar dois caras com olhos trincando.

Um dos dois riu, e eles voltaram ao headquarter, no nº 21 da rua Jump, ao estilo deles.