sexta-feira, 26 de julho de 2013

A Tirania dos Deveres

Os ambientes sociais (família, colégio, local de trabalho e a comunidade em geral), criam normas culturais que são baseadas em crenças pessoais e específicas. A psicanalista alemã Karen Horney dizia que os meios sociais não saudáveis, ou "tóxicos", tendem a criar nas pessoas sistemas de crenças que não são saudáveis, e que impedem as pessoas de concretizar seus potenciais, por acreditarem que as normas criadas pelo meio social em que vivem são "guias" do seu agir e pensar individuais. O que limita a autonomia de ação.

Para Horney, é essencial reconhecer quando não estamos agindo com base em nossas próprias crenças, mas sim, induzidos por crenças internalizadas a partir de um ambiente tóxico. Tais crenças atuam como mensagens internas, principalmente na forma de "deveres" (por exemplo, "eu devo obter poder e reconhecimento"; "eu devo ter um carro de luxo"; ou "eu devo ser magro"). 

Horney usava um método clínico, em que sugeria aos seus pacientes a tomar consciência de duas influências em sua psique comportamental: uma seria o "verdadeiro eu", com desejos autênticos, e o "eu ideal", que luta para cumprir todas as demandas dos "deveres".

O "eu ideal" acaba preenchendo a mente com ideias e objetivos que são impraticáveis e inadequadas ao "verdadeiro eu", o que acaba gerando respostas negativas, com base nos fracassos do "verdadeiro eu" em não conseguir alcanças as expectativas do "eu ideal". Isso leva a um desenvolvimento de um terceiro eu, o "eu desprezado".

Horney entendia que os "deveres" impostos pelo "eu ideal" são a base da "barganha com o destino"; e se prestarmos obediência cega aos "deveres", nós acreditamos poder controlar de alguma forma a realidade externa, embora, na verdade, eles nos induzam á neurose e á infelicidade profunda. As opiniões de Horney foram bem assimiladas na Alemanha do início do século XX, de forte tendência conformista.

Hoje, se percebe que a grande maioria das pessoas não se preocupa com os males que a tirania dos deveres cria, e se esforça cada vez mais para corresponder aos desejos incessantes de seu "eu ideal". 

Pode parecer digno e respeitoso tentar conquistar sempre o que se pensa como "ideal", mas ao se notar a todo instante que o que temos agora não é o ideal, isso pode levar a uma frustração do "verdadeiro eu" que, segundo Horney, levaria a pessoa a se aprisionar em seu "eu desprezado".


Baseado em: "A Tirania dos Deveres"; abordagem psicanalítica do "Livro da Psicologia", Ed. Globo.

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