terça-feira, 2 de julho de 2013

[Conto] Catch .44

Conto do filme: Catch 44 - 2011, USA, 94 min, De: Aaron Harvey.

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- É triste. Eu trabalhei com você por 7 anos. Sete anos. - Diz o homem. - Sempre gostei de você. Sempre cuidei de você. Mas nunca confiei em você. - Ele termina.

(PAUSA) - Tes em seu carro

"E esse é o segredo"."Esse é o segredo?", pensou Tes, dirigindo seu carro. "Sim", confirmou sua voz interior. 

(PAUSA) - No restaurante. Três mulheres jovens, atraentes, na faixa dos 20, conversam, sentadas em uma mesa. Tes, loira. Dawn, ruiva. Kara, a morena. Elas discutem com atenção redobrada (pelo perigo de sua missão), durante sua tentativa de interceptar um carregamento de drogas que será passado por mulas desconhecidas em um restaurante estilo lanchonete, e então, levado a um chefão do tráfico organizado. Elas fazem isso em trabalho a Mel, um milionário negociante do mercado negro.

- Ela está certa, Tes. Todo mundo já sabe. - diz Dawn.
- Sim. Por que não nos conta outro? - perguntou Kara.
- Tudo bem. 2º segredo: fingir.- começa Tes. 
- Isso não é nenhum segredo. - diz Kara.
- Em parte, é. - diz Tes.

Um homem de barba malfeita, usando um boné de Kentucky, permanecia oculto em uma mesa distante, olhando atentamente para as garotas, sua boca e nariz envoltos na ligeira fumaça quente que seu café exalava da xícara. Elas continuam com seu papo de patricinhas, como um disfarce para o trabalho que precisavam fazer.

- Certo. E o que tem a ver com o que vamos fazer agora?
- Eu digo. As mulheres costumam usar o 2º segredo para uma coisa: sexo. Fora isso, somos muito verdadeiras. Porque isso faz parte de nós, o que é o nosso ponto fraco. Mas fingir nos mantém no mundo masculino. - afirma Tes.
- E quem quer viver no mundo masculino? - pergunta Kara, franzindo o cenho.
- Já estamos nele, meninas. - responde Tes.
- Deixa eu perguntar uma coisa, então. - sugere Kara, bebendo um gole do refrigerante de laranja. - Abrir mão é fingir? Porquê não dá para fingir essas coisas.
- Até dá. - contradiz Tes.
- O que isso quer dizer? - pergunta Dawn.
- Abrir mão já é fingir. Se não abrirmos mão, nós teremos tudo. Nesse caso, não é fingimento, mas enganação. Por exemplo, homens cedem abaixando a tampa da privada. Abaixam porque não tem jeito. E não finjo que não me importo que larguem a tampa levantada. Porque me importo - diz Tes.
- Espera aí. Do que você abre mão?? - quer saber Kara.
- E disse que nós temos que fingir. - acrescenta Dawn.
- Abro mão fingindo outras coisas para ter o que quero. Ou eu fecho as pernas. - conta Tes.
- Do que você está falando? - pergunta Kara, dando umas risadas forçadas. - Acho que você confundiu tudo.
- Acho que é complicado demais para você entender. - provoca Tes.
- Não, de modo algum. Eu entendi, só não concordo. Para mim, abrir mão não é fingir. - diz Kara.
- Tudo bem. Então vamos ter que discordar. - concluí Tes.
- Ou pode concordar que estou certa e abrir mão. - diz a morena, dando umas risadinhas, assim como Dawn.
- Façamos o seguinte: eu finjo, e podemos concordar com isso. - rebate a loira.
- Tudo bem. Mas você abriu mão ao concordar em fingir. - lembra Kara, fazendo um sorriso malicioso. - Posso explicar, se estiver complicado.
- Acho que ela pegou você agora, Tes. - diz Dawn para a loira, sorrindo.
- Obrigada. - desiste Tes.

Algumas trocas de olhares entre Kara e o homem barbado, provavelmente um caminhoneiro de Kentucky. Ele agora fuma um cigarro.

- Ei! - alerta Tes, olhando seriamente para Kara.
- O quê? 
- Pare de encarar o cara!
- Não estou encarando.
- Está encarando, sim. Sabe o que é ser óbvio? Ou tenho que explicar também?
- Kara, pare de encarar. - pediu Dawn.
- Eu não estou sendo óbvia. - teimou a morena.
- Nos somos as únicas aqui com dentes. Somos muito óbvias. - diz Tes.
- E se for o cara que queremos? - pergunta Kara.
- Está vendo algum caminhão laranja? - Tes indica o lado de fora, onde não há nenhum caminhão.

Elas param. Kara olha para uma mesa ali perto e comenta:

- O que acham do casalzinho? - pergunta Kara, indicando a mesa onde um sujeito baixinho vai colocando lentamente uma batata frita na boca de sua namorada, 3 vezes maior que ele.
- O que é que tem? - Tes.
- Deixem eles, são inofensivos. - disse Dawn.
- E se o perdemos? Passamos 20 minutos com Elmore. E se ele já foi embora? - questiona Kara.

Elas param pra pensar. Um garçom coloca uma cesta cheia de batatas fritas em cima da mesa do caminhoneiro de Kentucky.

- Então, o que vamos fazer? Você tem um plano? - Kara pergunta a Tes.
- Mel disse 2h30. - diz Dawn.

O relógio do restaurante-lanchonete indica 3h04. Uma mulher de cabelo loiro pintado está debruçada na bancada do bar, lendo alguma espécie de folheto, concentrada.

- Ok. - começa Tes. - Acho que ela é dona do restaurante. Se as coisas rolam aqui, ela ganha alguma coisa. Se alguém sabe de alguma coisa, é ela.
- Certo, eu cuido dela. - se compromete Kara. - Vamos ver o que ela sabe.
- Eu fico com a porta. - soma Tes.
- E eu, com o caminhoneiro. - completa Dawn.

As 3 levantam, simultaneamente. Kara saca sua arma e a aponta para a loira de salão de beleza e dona do restaurante-lanchonete.

- Eu nem preciso falar, vocês sabem o que é isso! - adverte Tes.
- Fica na sua, cara! - diz a ruiva para alguém.
- Quem dirige o caminhão e cadê ele? - pergunta a morena berrando, olhando seriamente para a dona do lugar. - Eu perguntei quem de vocês sabe do caminhão!! - grita Kara, se virando para o meio do local.

Nesse intervalo, a oxigenada dona do restaurante, sem tirar os olhos de Kara, pega uma escopeta (ou uma shotgun) debaixo da bancada. Ela aponta para a frente, onde está o corpo da morena, que vira novamente o corpo e aponta a arma em resposta para o cano da shotgun. Sem tempo. O tiro da arma pesada perfura o meio do corpo de Kara. Seu estômago e intestino, ou os restos deles, foram arremessados para o outro lado da bancada. O impacto do tiro forma um buraco no meio dela. Aquele vazio era preenchido pelos olhares petrificados de Tes e Dawn.

Uma poça de sangue vermelho escuro, quase chegando ao preto, se forma velozmente ao redor da morena desfalecida. Também rapidamente, Dawn aponta a arma para a dona do recinto e da shotgun, e lhe acerta um tiro certeiro no mesmo local do peito onde havia feito um buraco cheio de sangue em Kara. Com o tiro, o braço da loira oxigenada vacila e gira pra trás, soltando a shotgun e deixando seu corpo cair todo torto. 

- Dawn!! - Tes grita.

Andando em direção á loira, Dawn vai dando uma série de tiros ritmados. Cada tiro fazia as mãos da oxigenada se contorcerem ao lado da cabeça. A dona do local caiu sentada, e um pote de picles em conserva (pelo que parecia uns 3 anos) também caiu e quebrou no meio das suas pernas. A responsável pelo estabelecimento acabou inanimada, empoçada em sangue, e também em água de picles não mais conservado. 

- Kara! - resmunga Dawn, seu corpo vacilando enquanto olha para a amiga morta no chão, e tenta ir até ela. Tenta.

Os olhos do caminhoneiro de Kentucky se abrem e seus globos oculares parecem dobrar de tamanho. Ele subitamente saca uma pistola de trás da calça e atira uma vez na ruiva. Ela cai no meio de dois banquinhos, no chão rente á bancada. O caminhoneiro atira novamente, todo espalhafatoso, e o tiro pega na madeira, ao lado da mão de Dawn. A garota treme de susto. Mesmo tendo errado o tiro, a ruiva permanece presa entre os banquinhos, como que capturada. O kentuckyano aponta novamente a pistola para seu alvo. Ele fecha um dos olhos. E a arma produz barulho novamente.

O caminhoneiro dá uma fungada, vira a cabeça para o lado e recebe quatro balas, duas no ombro e duas no meio do rosto. Após os tiros, Tes continuou apontando a arma para o caminhoneiro do boné, lá de Kentucky. Ela ofegava, mas a umidade na região de suas leves olheiras de constantes sonos mal aproveitados, vinha de lágrimas, e não de suor. Tes começou a andar devagarzinho em direção ao ex-caminhoneiro, ainda com a arma apontada para ele. 

Bem próximo do homem, ela foi surpreendida pelo aparecimento súbito de uma outra figura, outro homem, segurando a shotgun da loira oxigenada dona daquele restaurante-lanchonete, a shotgun que a mirava.

- Larga a arma. Larga a porra da arma!! - disse o homem.- Abaixa a arma, ou eu estouro seus miolos! - ameaçou. - Agora!

A figura tinha pele branca, o cabelo preto regado a gel, escovado para fazer um topete retrô, que formava uma "ondinha" brega acima da testa. Tinha um bigode fino e aparado. Aparentava um mexicano, senão, um americano da fronteira do Novo México. Usava uma regata preta.

- Não vou pedir de novo! Tem 3 segundos ou eu acabo com você! - avisou o homem.

Uma mulher chorava alto em uma mesa.

- Três! Dois! Cala essa boca. - disse ele, para a mulher que choramingava. - Escuta, não é um joguinho, não há alternativas aqui. - sibilou ele, para Tes. - Sua única opção é abaixar a merda da arma! - ela iniciou o movimento de negativo com a cabeça. - Dane-se! - disse ele.
- Abaixe a arma você! - Tes disse.
- Não vou abaixar nada.
- Está na cara que não vamos abaixar as armas, então vamos conversar. - sugeriu ela.
- Conversar? Isso não é terapia de casais. Só eu vou falar aqui. Abaixe essa arma!
- Está bem, me escute! Nós dois vamos abaixar as armas ao mesmo tempo. - a pistola continuava mirando a testa do homem, e a shotgun, a testa de Tes.

A mulher chorona voltou a se lamuriar. Aquele choro medíocre e totalmente ineficaz. 

- Dá para calar a boca dela? - indignou-se ele. - Tes o olhou com receio. - Acho que você não entendeu o que está acontecendo. Se você tivesse algum juízo, e estou esperando que tenha, abaixaria antes que Mel acabe conosco. - lembrou o metido a mexicano.
- Mel?
- É, Mel. - ele ressaltou. - Cara de terno azul. Sempre com sua noz-pecã.

Ela o olhava, sem compreender.

- Ow, ow. Você não sabe de nada, não é? - perguntou ele. - Porque eu estou no controle.
- Como você conhece o Mel? - quis saber Tes.
- Nós somos velhos amigos.
- O quê?
- Isso mesmo, o seu trem da alegria acabou. Desista logo, porque não vai sair daqui.
- E a droga. Cadê a droga e a grana? - sondou ela.
- Droga? Que porra de droga?? - ele começou a rir gostosamente, andando pra frente e voltando. - E grana? Haha. A única coisa que sei de grana é que o amigo Mel paga muito bem.
- Mel não faria isso comigo. Nunca faria isso! Você está mentindo. - arriscou ela.
- Calada, calada. Cale a boca dela! - gritou ele de novo, reclamando da mulher chorona e desiludida. - Mel não faria isso? - continuou ele. - Aposto que ele disse que tem alguém na rota dele? Acertei? Foi nessa que você caiu? E ele as mandou descobrir quem era, foi isso? Estou chegando perto?

Ela não sabia.

- Pensou que alguém ia passar carga na rota do Mel? Acha que ele não sabe o que se passava aqui o tempo todo? E alguém teria colhões de se meter com ele? E acha que, se fosse isso, ele mandaria 3 putinhas aqui para descobrir quem era? Hahahaha, nem eu sou tão idiota assim....e olha que nunca terminei o ensino médio - disse ele, logo antes de ouvirem mais dois tiros, logo em seguida.

O casal da batata frita jazia com as cabeças estiradas na mesa. Um xerife alto, gordo, e negro, direcionava sua arma prateada para a mesa do casal. Usava óculos estilo Aviador, e chapéu marrom-claro, da mesma cor que sua camisa, de tonalidade mais voltada pro bege. Todos os botões estavam fechados, a estrela que representava sua autoridade luzia no lado esquerdo do peito.

- Está bobeando. - disse o xerife, olhando pra baixo. - Está ficando mole, Billy. - ressaltou ele.
- O que está fazendo? O que quer vestido de polícia? - perguntou Billy.
- A pergunta mais importante é... - começou a responder o xerife. - O que você está fazendo aqui e por que não cuidou de tudo?
- O quê? E por que se importa? Você não está nessa. - Billy mantinha a shotgun apontada para Tes.
- Eu me importo porque está quente. Estou derretendo lá fora há uma hora, e você babaca, só conseguiu fazer isso. - disse o xerife.
- Babaca? Vá se foder! Tudo saiu do controle. Aqueles dois caipiras não saíam. - disse ele, apontando para o casal morto. - Essa vaca e as duas irmãs resolveram sacar as armas! Eu não planejei isso.
- Tem sorte que eu apareci. - disse o xerife, caminhando em direção ao lado da bancada, perto de Billy.
- Sim. Tire o dedo do rabo e me ajude. Essa piranha é louca!

O xerife encostou na bancada, tirou o chapéu de abas retorcidas, secou o suor intenso da cara com as mãos, recolocou seu chapéu e permaneceu parado, olhando para Billy.


- Calma! Só se acalme. - falava o xerife, olhando com anseio para a shotgun preparada. - Podem dizer o que houve?
- Eles atiraram! - disse Tes.
- Como assim? - perguntou Billy, incrédulo.
- Atiraram nas minhas amigas!
- Foram vocês que resolveram ser criminosas e começaram a disparar, criando uma confusão aqui. Elas atiraram na Francine, Ronny!! - disse Billy ao xerife. - Atiraram nela!
- Que triste....
- Ronny, conte o lance do Mel que está rolando. Me ajude!
- Vou chegar lá.
- Por que chama você de Ronny? Pensei que se chamasse Elmore. - disse Tes ao xerife, o reconhecendo de algum tempo.
- Porque vocês não abaixam as armas, antes que alguém se machuque? - pediu o xerife.
- Foda-se! Vou matá-la.
- Calma! Não vai matar ninguém.
- Não me diga para relaxar. Estou calmo.
- Está suando como um condenado. Se acalme, ouviu? - atentou o xerife.
- O que está acontecendo? - perguntou Tes.
- Calada! Calada! Fecha essa boca!
- Billy.... - disse o xerife, entornando a cabeça, como que avisando que era melhor Billy se manter calmo.
- Quem é você? Porque não está fazendo nada? - Tes perguntou ao xerife, puta.
- Eu? Eu? Que droga, Tes. - disse o xerife, frustrado. - Deve estar com muitas lágrimas nos olhos. Vamos!! - terminou, tirando o chapéu.

O xerife negro, com uma das mãos segurando o chapéu, abaixou um pouco os joelhos, virando os pés de forma a fazer uma pose de dança. E começou a dançar, dando alguns passinhos ligeiros para frente e para trás, para um lado e para o outro. Ele parou, tirou seus óculos, abriu os olhos e a bocarra em surpresa. 

- Não se lembra de mim? Vamos! Vamos! Vamos!! - falou ele, desacreditado. - Eu sou o cara da entrega.

Tes não se lembrava.

- Você já me disse que gostava de homens de uniforme. - o xerife tentou a fazer lembrar.
- Isso foi há 2 anos! Eu vi você por 15 minutos. - ela disse.
- Mas eu me lembro de você. Sempre foi especial pra mim. Mas eu não guardo mágoas de você. Mel não encoraja amizade entre o pessoal, não é, Billy? - o homem que segurava a shotgun olhou do xerife para a loira, e vice-versa. - Ele é um homem de negócios. Isso é só um negócio.

Ele falava com uma naturalidade que o fazia realmente acreditar no que dizia.

- Mas, pra mim, Tes, este é o negócio do meu coração. - continuou Ronny, ou Elmore.
- Negócio do seu coração? Hahaha, o negócio do seu coração? - ela ria. - Você nos meteu nessa, lembra? Minhas amigas estão mortas por sua causa, seu maníaco!
- O que você achou que ia acontecer? Pensou que ia trabalhar por alguns anos, pegar a aposentadoria e morar em Boca Raton? - o xerife ia questionando. - Você é uma traficante de drogas, Tes. Você negocia drogas para viver. Achou que podia torrar 2 milhões de dólares em cocaína e sair na boa? - mandou a real. Esse trabalho mais recente, era o seu último.
- Você não respondeu á pergunta, Ronny. - disse Billy. - O que está fazendo aqui? - perguntou.
- Sabe...estou feliz por ter perguntado. Na verdade, Billy, vou precisar que você me passe o dinheiro. Tudo.
- Que merda está dizendo? O que está fazendo, Ronny?
- Não dificulte as coisas. - alertou o xerife, levantando a mão. - Tem o jeito fácil e o difícil. Eu vou deixar você escolher.
- Vá se danar! 
- Eu me danar? - começou Ronny. - Não! Dane-se você! - praguejou o xerife, sacando sua arma do coldre e a posicionando na direção da têmpora de Billy.
- Mas que merda, Ronny? O que está fazendo?
- Eu já disse. Você pode fazer do jeito fácil ou do difícil. Parece que escolheu o último.
- Não escolhi nada. - disse Billy, com uma cara de maníaco. - Abaixa a arma!
- Tenha um pouco de dignidade! Está gritando como uma garotinha. Eu vou levar meu dinheiro. Você vai me entregar e pronto, porque estou fora, Billy. Acabou.
- E o tira? Você matou um tira, Ronny.
- Eu não matei o tira. Você atirou nele. - disse o xerife, com cara de desdém.
- Eu? Como assim? Eu não atirei em nenhum tira! Você está delirando, Ronny!
- Achou que eu esperava que fosse me dar a grana? - perguntou Ronny ou Elmore com uma risadinha.
- O que vai dizer ao Mel? Que me matou pela grana que deu para apagar as vadias?
- Eu cuido disso.
- Do que ele está falando? - Tes entrou.
- Como assim? Foi uma armação! Abra os olhos, não vê o que ele está fazendo? - iniciou Billy. - Ia esperar vocês morrerem, ia entrar aqui e me matar pelo dinheiro. Que a propósito, eu nem tenho.
- Você está quase certo. Depois de roubar o dinheiro.... - começou o xerife. - ...você morreu com valentia num tiroteio com o policial, ao tentar fazer uma ousada fuga. Eu pego uma das garotas, coloco na mala do carro e dou no pé. Ela desaparece com a grana e nunca mais é vista. Isso dá conta de mim e dela.
- E quanto a você, o que vai fazer? - perguntou Billy.
- Eu nunca estive aqui. - disse o xerife, meneando os ombros.
- Vocês falam de dinheiro. Que dinheiro? - Tes pergunta.
- O dinheiro que Mel pagou para se livrar de vocês. - disse Ronny.
- Já falei. Não estou com o dinheiro! - começa falando Billy para o xerife. - Ronny, sou eu, o Billy. Por quê você não abaixa a arma, nós matamos essa piranha e damos o fora daqui juntos?

O xerife e Tes olham para Billy com horror.

- Isso não vai acontecer. Eu planejei partir sozinho, mas agora que nos envolvemos nesse pequeno impasse, eu vou ter que levar Tes comigo. - falou Ronny, ou Elmore, apontando para a loira parada a três metros dele.
- Ela? Qual é, Ronny? Eu te dou a metade do Jessie. Eu dou tudo!
- Achei que o dinheiro não estivesse aqui. Onde está? - quis saber o xerife.
- Não está aqui. Não tem grana aqui, Ronny! Vou te dar quando receber. Conhece o Mel, ele não deixa mexer na grana, sabe disso.
- Está mentindo, Billy.
- Eu sou o único aqui dizendo a verdade! - indignou-se Billy.
- Eu acho que não. - rosnou o xerife. - Eu vi você e a grana.
- Aquilo não era a grana.
- Então o que era?
- Era isso. - diz Billy, estendendo a shotgun em suas mãos. - As ferramentas! As armas!

Nem o xerife nem Tes acreditaram.

- Por que Mel está fazendo isso? - perguntou Tes.
- Não sei porque você está tão confusa. Você conhece as regras. - diz o xerife para a loira.
- Que regras? - Tes entrou em dúvida.
- Mel não dá a mínima pra você. Ele não está do seu lado, como eu. Eu sempre estive do seu lado. Mas com o Mel, não tem chance. Se você falhar uma vez, já era. Não é verdade, Billy? - pergunta Ronny. - Ele sempre age assim. É paranoico. - retorna. - Lembra da garota que ele disse que tinha saído de férias? - perguntou. - Ela foi carbonizada por ele. - completou, apontando para Billy.

Tes concordou com a cabeça.

- Caso ainda não tenha entendido, é para isso que Billy está aqui. E foi assim que eu ferrei tudo. Eu não protegi você como nos outros trabalhos. Eu sempre estive ao seu lado, todas as vezes. - falava Ronny para Tes. - Mas, dessa última vez...se eu estivesse lá, não estaríamos aqui.
- Do que está falando?? - pergunta Tes.
- Você está fudido, Ronny. Seu plano está furado - diz Billy. - Essa piranha nem conhece você.
- Me conhece? - inicia o xerife, balbuciando. - O que você sabe sobre amor? - vociferou para Billy, e se virou para a loira. - Tes, eu sei que você sente. Eu vi dentro dos seus olhos, lá, naquele clube.
- O quê? O quê você viu nos meus olhos? - quis saber Tes, arregalando-os.
- Não pode me dizer que não existiu. Eu vi, estava lá. 
- Não existe nada, nada! - diz Billy.
- Você está me deixando puto, Billy!
- Acha que Mel vai tolerar isso? E acha, nos seus sonhos, que essa piranha ama você?
- Ei, trate-a com respeito. - ameaçava o xerife. - Se você a chamar de piranha mais uma vez, eu termino com você. Mel é o motivo de eu estar aqui. Ele está ficando desquitado, está ficando velho. Só come pecãs o dia inteiro. É por isso que vou me aposentar. Vim aqui pegar a minha pensão. E agora vou pegar a minha garota.
- Sua garota? - Tes estava incrédula. - Não sou sua garota. Não sou a droga da sua garota! Essa confusão é por sua causa. Não é por causa do Mel, ele não faria isso.
- Você entende mesmo do Mel. - iniciou Ronny, ou Elmore. - Quantas vezes falou com ele nos últimos 3 meses? Uma? Eu trabalho com ele todos os dias!! Eu conheço o Mel.
- Eu também. Eu também conheço o Mel. Isso tudo é só um teste.
- Acha que isso é um teste? Parece brincadeira? - perguntou Billy, olhando para todos os corpos putrefatos no chão. - Estamos fodidos, Ronny! Pode atirar nessa garota para darmos o fora daqui?
- Não vou pedir de novo pra você se acalmar!
- Foda-se, Ronny.
- Quer saber? - começa o xerife. - Já que está sendo uma garota tão corajosa, e o Billy parece uma vadiazinha chorona, eu faço um trato com você. - fala para a loira. - Você não precisa dizer se aceita ou não. Só tem que mostrar. Quero que você atire nele. Depois, nós saímos daqui juntos e desaparecemos.
- Não ouça o que ele diz. - pede Billy, esperando a sanidade de Tes.
- Mas... - voltou Ronny. - Se você não atirar, eu terei....terei que atirar nos dois.
- É mentira. Ele vai atirar em você se me matar. - disse Billy para a loira estarrecida. - Ele traiu o Mel e agora está nos traindo. 
- Não quer acabar como suas amigas, não é? -  o xerife pergunta.
- Estou dizendo, é um mentiroso. - Billy diz compenetradamente para a mulher. - Vai nos matar, e ficar com a grana. Vai foder conosco, e ficar com a grana.
- Quer calar essa boca, Billy? Deixa a garota pensar, caramba. Deixe ela se decidir.
- Como sei se está dizendo a verdade? - questiona Tes.
- Eu vim aqui por espontânea vontade, não foi? - fala Ronny.
- Mentiroso! - pragueja Billy.
- Eu...poderia ter acabado com vocês na hora. Como fiz com eles. - diz o xerife, indicando os corpos mortos pela sua pistola.
- Ele achou que ia nos matar, mas travou. Você travou, Ronny! - diz Billy.
- Tes... - o xerife retira um pequeno lírio branco do bolsinho da camisa, e o estende para Tes, que permanece estática. - Casa comigo? Eu amo você. - declara o xerife.
- Estou falando. Ele pirou de vez. - fala Billy.
- Você tem que atirar nele agora! - diz Ronny para a loira.
- Você é um psicopata.
- Decida-se. - Ronny pressiona a mulher.

Tes já não conseguia processar nada do que os dois falavam.

Não faça isso. Ele é louco. - Billy recomenda.
- Dois, um...
- Não.
- Atire.

Tes tremia da cebeça aos pés.

- Não faça isso. - pedia Billy.
- Atire! Vai, você consegue. Atire! - reforçava o xerife.
- Não!!

Passaram-se 10 segundos, mais 10 e mais 10, até que se completasse 1 minuto inteiro de silêncio e estabilidade. Nenhuma ação foi tomada.

- Estou tão triste que essa tenha sido sua decisão...nós podíamos ter dado certo. Eu sinto muito Tes. - diz Ronny, ou Elmore, e aponta a arma para a cabeça dela.
- Não! - ela rebate. - Eu atiro! Eu atiro, eu o mato. Vou atirar nele.
- Hahaha. Que bom, eu sabia que você....
- Não! - suplicava Billy.
- ... tomaria a decisão certa.
- Não atire. Não atire. - pedia Billy, com seus olhos perscrutando os de Tes. - Não tem dinheiro nenhum. Ronny, não tem dinheiro nenhum. Tes, não atire em mim! - ele dizia para os dois, desordenadamente.
- Terei que contar até três de novo? - excitava o xerife.
- Não lhe dê ouvidos. 
- Três...
- Não atire em mim!!
- Dois...
- Me escute!!!
- Um.

Das ruas, se ouviu 8 tiros sucessivos, e se viu 8 lampejos espectrais, que iluminaram aquele restaurante-de-estrada-estilo-lanchonete, no meio da madrugada.


- Interlúdio

Um carro de luxo maravilhoso, preto, invade a área de estacionamento daquele restaurante-lanchonete. Do carro, saem duas botas brancas de couro polido, mais acima, um terno azulado impecavelmente limpo, guardando uma camisa abotoada até a lapela, e mais acima o rosto compenetrado e vulgar de Mel.

Ele sai do carro, e olha para o restaurante com um quê de esperança. Ele se aproxima da entrada, e sua expressão se enaltece, passando a demonstrar insegurança e curiosidade.

Abre a porta, e vai entrando, sorrateiro, como um moleque de rua, espreitando estabelecimentos em busca de recursos de sobrevivência. Ele estira a cabeça para dentro, se depara com uma série de mesas que recebem luzes de abajures amarelados horríveis, e contempla uma figura sentada, negra, com uma mão ensanguentada e a outra, boa, recebendo um cigarro entre os dedos. A figura usava uma camisa bege, no peito aquela estrela-insígnia de autoridade. O xerife Ronny, ou Elmore, que seja, havia acabado de acender seu cigarro.

Mel entra, e começa a vasculhar o local todo com seus olhos, feito um sonar marítimo que vasculha a região em busca de sinais. Seus olhos dançavam, e ele visualizou Tes morta no chão, deitada de lado com um filete de sangue ridículo de pequeno no cantinho de sua boca enegrecida. Viu o caminhoneiro da cidade de Kentucky, sentado na cadeira da mesinha lateral com a cabeça repousando ao lado de uma prato que recebeu fritura, seu boné laranja contrastava bem com o vermelho vivo de seu sangue esporrado na parede.

- Eu devia saber. - sibilou Mel.

Andando mais 3 metros, ele percebeu que o xerife também havia esquentado uma chaleira de café, ou era o que parecia, que preencheu uma xícara já vazia. Ronny tragou seu cigarro. Sua mão ensanguentada mantinha-se pressionando o lado esquerdo de seu pescoço. 

Mel se sentou na mesa, o fazendo companhia.

- Café? - ofereceu Mel, pegando a chaleira e entornando a bebida na xícara antes vazia. - Café faz bem. Nos sentimos melhor.

O xerife levantou a mão boa como que recusando. Pelo jeito não fora Ronny, ou Elmore, quem preparara o café. Tinham a seu dispor uma chaleira de café moderna que abrigava a bebida fúnebre. Quem fez aquele café estava morto, bem falecido. 

- Não estou. - começou Ronny. - Eu estou...não estou. Eu estou....eu nem sei mais quem sou. Quem sou?
- Vou contar uma historinha, Ronny. Uma parábola. Sabe o que é uma parábola? Como na Bíblia?
- Sei.
- Há muito tempo, caubóis e índios se envolveram numa grande luta. Índios americanos. Foi uma grande luta. Flechas, tiros, sabe como é. - começou a contar o magnata. - Um dos caubóis...vamos chamá-lo de Bucky. Bucky foi capturado por um índio, mas não por um índio qualquer, um grande índio conhecido mundialmente. O chefe Urso Corredor. Bucky achou que estava ferrado, achou que o matariam. Mas, em vez de matá-lo, Urso Corredor o levou para a tribo. E Bucky esqueceu tudo sobre ser caubói. Esqueceu todos os jeitos de caubói. O velho Bucky não ligava para mais nada. - contava, sob a fumacinha calorosa do café ainda ativo contrastando com a do cigarro. - Como você pode imaginar, eles dois ficaram bem próximos, muito próximos. Urso Corredor fez dele um mentor. Bucky então levantava muita grana. Muita grana. E sabe o que aconteceu depois?

O xerife descansou a cabeça no encosto, ouvindo atentamente.

- Ele cometeu um erro. Começou a ficar impaciente. Queria mais. Ele começou a esquecer tudo que Urso fez pra ele. Bucky olhava para Urso e pensava: "Esse índio bebe muita água ardente, fuma muito cachimbo. Posso ser melhor que ele". Ele mandou tudo á merda. E começou a foder o Urso Corredor. - Ronny abaixava a cabeça e olhava meio envergonhado para Mel. - Ele o fodeu. E não no estilo "O Segredo de Brokeback Mountain". Está me acompanhando, Ronny? No momento em que começou a foder o Urso, ele perdeu uma coisa. Sabe o que é essa coisa?

Olharam-se. Mel sorriu. O xerife fechou a cara.

- Perdeu o respeito por ele. O respeito. Isso, ele perdeu o respeito. - falou o xerife.
- E nesse momento, ele perdeu tudo. Ele perdeu tudo que era mais importante pra ele. Em troca de quê, Ronny? Para ter um pouco mais de peles?
- Tudo que eu precisava, era ter algo meu, Mel. Algo que me fizesse saber quem eu era.
- Eu trabalhei com você por 7 anos. Sete anos. Sempre gostei de você. Sempre cuidei de você. Mas nunca confiei em você.

Ronny tentava ainda fumar seu cigarro, agora quase um toco. O magnata envelhecido pelo tempo continuou:

- Confiança não existe no nosso mundo, não é? Não existe, Ronny. Eu sei que você me roubou. Era um presente de despedida? Tudo isso? - e ele indicou todos os corpos ali jazendo. - Urso Corredor teve coração, veja...um dia. - iniciou o xerife sua versão ideal da parábola. - Ele tinha piedade. Entendia de piedade. Ele podia libertar o caubói no deserto, completamente só.
- Mas como ele faria isso? Libertar o caubói.  - falava Mel, e deu uma risadinha sem graça. - Bem, acho que isso não vai acontecer. Se ele soltar o caubói, sabe que o caubói voltará pra foder com ele de novo.
- O que vamos fazer agora, Mel?
- Você sabe o que fazemos.  
- Talvez eu tenha fodido tudo. Talvez eu tenha errado tudo. Talvez eu estivesse desesperado, querendo algo pra sentir, qualquer coisa....mas eu não volto para onde eu estava. Não volto a ser quem eu era.
- Não faria isso com você, Ronny. Não mandaria você de volta, e sabe porquê? Porque Urso Corredor tem respeito.
- Nunca houve dinheiro, não é?
- Não pra você, caubói.
- Porque não me conta outra história? Eu gostei dessa história do caubói. Só que dessa vez, você poderia deixar o caubói e a vaqueira.....fugirem juntos ao pôr-do-sol? Algo....algo bom. Com um final feliz.
- Não tenho mais histórias. Sinto muito caubói, foi bom conhecer você. - disse Mel, preludiando o destino de Ronny.

Ele lentamente sacou uma pistola branca com um silenciador acoplado. Apontou também lentamente a arma para o olho direito do xerife. Este olhou para a arma, e depois para o milionário, que disparou. A bala arrombou a face direita de Ronny, seu olho direito quicou na parede do outro lado do restaurante-lanchonete e explodiu. O abajur acima dos dois se tornou bicolor. Ronny foi forçado a descansar novamente a cabeça no encosto da mesa. Dessa vez, seu descanso perduraria, e talvez preenchesse o vazio que buscava preencher.



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Caubói perdeu o respeito. Índio o perdoou. O enviou para o deserto. O caubói não estava satisfeito, queria mais, e perdeu o respeito, mais uma vez. 

E o índio lhe deu o poder que queria. 

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