sexta-feira, 5 de julho de 2013

Desespero

"O Desespero Humano", publicado por Soren Kierkegaard, um dinamarquês, em 1849, oferece a ideia de "ser quem realmente somos", uma autoanálise, como uma ferramenta para entender o problema do "desespero", que ele considerava derivar não da depressão, mas da alienação do "eu".

Kierkegaard dividiu diversos graus de desespero. O mais baixo, e mais frequente, é resultado da ignorância, do não-saber: a pessoa têm uma ideia equivocada sobre o que seu "eu" significa e não tem a menor consciência da existência de seu "eu" potencial. Essa ignorância é quase uma benção e tão inconsequente que Kierkegaard não estava certo se deveria ser classificada como desespero.

O verdadeiro desespero ocorre, dizia ele, quando se têm mais consciência de si; os graus mais profundos de desespero derivam de uma aguda consciência do "eu" aliada a uma profunda aversão por esse "eu". 

Quando algo dá errado, por exemplo quando uma pessoa fracassa numa prova de Doutorado, ele aparentemente se desespera porque perdeu algo. Mas numa análise mais atenta, torna-se óbvio que o homem não está desesperado por causa do fato (fracassar na prova), mas por causa de si mesmo. O "eu" que não conseguiu alcançar seu objetivo torna-se intolerável. A pessoa desejava tornar-se um "eu" diferente (um Doutor), mas agora está preso a um "eu" fracassado em desespero.

Kierkegaard tomou como exemplo um homem que queria se tornar Imperador e demonstrou que, por ironia, mesmo que ele conseguisse alcançar seu objetivo, teria na verdade abandonado o seu antigo "eu". Tanto em seu desejo quanto em sua conquista, ele queria "se livrar" de si mesmo. Essa negação do "eu" é dolorosa, é avassalador o desespero de um homem que quer se afastar de si, que, segundo ele, "não possui a si mesmo, que não é ele mesmo".

Mas o dinamarquês propunha uma solução. Concluiu que um homem poderia sentir paz e harmonia interna se tivesse coragem de ser seu verdadeiro "eu", em vez de querer ser outro. Querer ser quem se é realmente é na verdade o oposto de desespero. Ele acreditava que o desespero desaparece quando paramos de negar quem realmente somos e passamos a aceitar nossa verdadeira natureza.


Da sessão "Ser quem realmente somos", pág. 26; O Livro da Psicologia", Ed. Globo.

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