segunda-feira, 29 de julho de 2013

Fraude Paranormal

"Existem dois tipos de pessoas lá fora com poderes "especiais". Os que realmente pensam ter algum tipo de poder, e os que pensam que conseguirão enganar as pessoas. Ambos estão errados."

O filme Poder Paranormal (2012), de Rodrigo Cortés, fala com muita propriedade sobre a ilusão da existência de eventos paranormais, mágicos ou psíquicos. 

Na trama, uma psicóloga e doutora chamada Margaret Matheson, especialista em eventos sobrenaturais, e seu assistente, o jovem físico Tom Buckley, estudam e analisam com atenção diversos fenômenos metafísicos com o objetivo de provar a origem fraudulenta desses eventos. Dessa forma, eles tentam desmascarar supostos psíquicos, médiuns e videntes que enganam as pessoas afirmando terem poderes divinos e salvadores, quando na verdade criam um espectro ilusório que oferece uma falsa esperança de "salvação" para seus cegos seguidores.

A atenção dos dois se volta para Simon Silver, um lendário vidente cego que se tornou famoso por curar os males das pessoas através do poder da palavra, que ele acreditava ter recebido por forças maiores. Silver reaparece nos palcos depois de 30 anos sumido dos holofotes, por conta da misteriosa morte na época de um repórter que o acusava de mentiroso. 

Esse vidente alegou para a psicóloga Margaret, há muito tempo atrás, que o filho dela estava doente, e ela não estava deixando ele ir embora desse mundo. Na época isso não era verdade, mas o filho de Margaret acabou entrando em coma, e por isso a psicóloga passa a vida tentando investigar fraudes paranormais, e principalmente desmascarando o vidente que a fez acreditar um dia que poderia perder seu filho, e de fato acabou por o perder.

Tom Buckley também começa a ficar intensamente obcecado por Silver, que decide retornar aos palcos e cujo poder de atração volta a crescer a cada manifestação de eventos paranormais sem explicação.

A seguir, algumas passagens do filme que resumem o argumento.

1 - Na Sala de Aula


A professora Margaret está dando uma aula e respondendo a dúvidas comuns entre seus alunos:

- A senhora já se deparou com algum caso que não pudesse ser explicado, como a existência de alguma habilidade anormal? - pergunta um aluno, chamado Ben.
- Uma habilidade anormal, como o quê? Como correr 100 metros em menos de 10 segundos? Como compor uma sinfonia sendo completamente surdo? Seu cérebro pode ser uma exceção, Ben, mas muitos cérebros realizam uma imensidão de processos mentais complexos a cada segundo, 100 bilhões de neurônios em comunicação sináptica constante, programados para gerar e regular nossas sensações e percepções, como reagimos, pensamos, nossas emoções de imagens mentais, atenção, aprendizado, memórias. Esses já não são méritos suficientes para o cérebro, sem precisar de outros poderes especiais?
- Está dizendo que a existência de qualquer outro tipo de poder paranormal é impossível? - pergunta uma aluna, chamada Owen.
- O que estou dizendo, Srta. Owen, é que depois de 30 anos investigando todo tipo de fenômeno, com os controles adequados aplicados, não testemunhei um único milagre.

2 - No Corredor da Universidade


Margaret Matheson discute com o Dr. Shackleton, cientista ortodoxo da Universidade:

- Eu estava assistindo sua aula... - cumprimenta ele.
- Dr. Shackleton.
- Inspirador, mas sabe, eu admiro seu ceticismo, Margaret. Mas não pode negar a realidade só por não poder explicá-la. 
- Não é totalmente verdade. Não sei porque o seu departamento recebe o dobro da nossa verba, mas não nego o que aconteceu...
- Então vamos conversar, unir forças. Estamos realizando grandes avanços nos centros de pesquisa. Uma visão esclarecida como a sua poderia ajudar muito.
- Eu não faço abracadabras, Dr. Shackleton, e sugiro a você que também não faça.

3 - Na Lanchonete


A Srta. Owen, a aluna de Margaret, passa na sala de pesquisa dela para procurar pela professora, a fim de tirar alguma outra dúvida, mas só encontra Tom Buckley, o assistente dela. O físico acaba a chamando pra sair, e eles vão para uma lanchonete no centro da cidade: 

- Você trabalha a muito tempo para a Matheson? É um psicólogo também, ou um mágico? - Owen pergunta.
- Hahaha, não, eu não sou um mágico, longe disso. Na verdade, eu sou físico.
- E por quê faz isso?
- O quê?
- Investiga coisas paranormais falsas. Não acha isso meio estranho?
- Eu só tento ajudar a Margaret...
- Mas pra quê? Se alguém diz que tem poderes e na verdade não tem, quem liga? Quem se importa?
- Quem se importa?? Ok, vamos supor então. Se sua mãe fosse uma dessas pessoas, que procurasse um médium, porque está com uma dorzinha no estômago, e o médium dissesse que não era nada, só uma leve gastrite, mas, depois, você descobrisse que era um câncer no estômago, e que era tarde demais. Ainda diria: quem se importa?
- Isso...aconteceu com você?
- Não. Você só se importaria se acontecesse com você? Ou com alguém que você ama? Eu não.

A menina não respondeu a pergunta de Tom e decidiu mudar de assunto.

4 - No hospital


Margaret visita seu filho, David, na UTI de um hospital. Ele está em coma, respira por aparelhos e não dá nenhum sinal de lucidez há semanas. Tom a acompanha na visita.

- A razão para que acreditem em fantasmas, é a mesma razão para que acreditem em casas assombradas ou "túneis de luz", porque isso significaria que existe alguma coisa após a morte. Eu queria que existisse. - dizia Margaret, passando a mão no rosto de seu filho. - Mas não estou pronta para deixar minhas crenças serem determinadas pelos meus desejos ou necessidades. Se David acordasse e se olhasse no espelho, não reconheceria o homem que está olhando para ele, não saberia quem eu sou. Se eu pensasse só por um segundo, que existe mais alguma coisa além disso, desligaria essa droga toda de aparelhos e deixaria meu filho ir, livre de sofrimento.
- Margaret, ei.
- Em um caso que acompanhei, uma mulher alegou que foi visitada e estuprada diariamente por um extraterrestre. Selvagemente possuída, todas as noites. Então, ela foi a sessões de hipnose e as visitas do ET pararam, aí ela voltou ao consultório e perguntou: Dá pra fazer ele voltar uma vez por semana?
- Ela foi as sessões de hipnose querendo se livrar das visitas do extraterrestre, mas na verdade o que a fazia se sentir segura e controlada eram justamente essas visitas. - disse Tom, e a psicóloga confirmou com a cabeça.
- Tom. Existem dois tipos de pessoas por aí com "doenças especiais". As que acreditam que possuem de fato algum tipo de poder, e as que acham que nunca serão desmascaradas. Ambas estão erradas.

5 - No Programa de Debate


Durante um programa televisivo de debates, Margaret discute com mais dois profissionais da ciência, a agente de Simon Silver, Srta. Mansey, e o apresentador, todos eles duvidando e tentando contestar tudo o que a psicóloga afirma. Sempre na defensiva, ela tenta manter uma postura adequada e firme para organizar suas ideias e expressar argumentos para aquecer a discussão deles, sobre paranormalidades e especificamente sobre a volta do vidente Simon Silver após 30 anos oculto, e também sobre um estudo que a Universidade deseja fazer sobre a autenticidade dos "poderes" do vidente, estudo esse que foi rejeitado pelo próprio Simon Silver.

- Sim, Dra. Matheson, existem sensitivos que são impostores, mas assim como existem céticos. Você sabe, até cientistas erram todos os dias, mas a senhora cética profissional também parece ser boa em retórica. Então não morda meu dedo doutora, entenda meu ponto de vista. - falava um dos convidados, um cientista.
- Os erros dos cientistas são aleatórios, os dos pseudo-cientistas tem razões direcionadas.
- A Dra. Matheson se esquece que já batia nessa tecla há 30 anos. Muitos profissionais estão cientes dos perigos de fraude e montam seus experimentos com toda precaução. Nós acreditamos doutora, não somos crédulos. - dizia outro dos convidados, mais um cientista.
- Pessoas muito inteligentes são as mais crédulas, e atraídas por todo tipo de fenômeno. São vítimas fáceis de fraudes porque pensam logicamente, e os profissionais que alegam ter poderes paranormais contam com isso. A pergunta é: Por quê todo fenômeno parapsicológico desaparece cada vez que tem um cético qualificado na sala? - Matheson perguntou.
- Três em quatro americanos dizem já ter vivido uma experiência metafísica, e uma porcentagem ainda maior diz ter alguma causa nesses eventos. Essa é uma pergunta pra senhora: Não acha que tem muita coisa para ser explicada?
- Acredito que até meus colegas, psicólogos experimentais, também têm estatísticas que dão base para negar a existência dessas ocorrências que você diz serem paranormais.
- É só retórica, estou dizendo, é só retórica. Ela está falando por falar! Pra refutar a ideia de que todos os corvos são negros, basta existir um corvo branco.
- Eu nunca vi um corvo branco. Você já viu?
- Srta. Mansey, você como principal agente do vidente Simon Silver, sabe que ele irá se apresentar no auditório da cidade hoje à noite. A senhora acha que apresentar é a palavra certa pra descrever o que acontecerá nesse espetáculo? - muda de assunto o apresentador.
- Eu diria dividir. Simon nunca teve vergonha de dividir suas habilidades e.... - a Srta. Mansey é interrompida por Margaret.
- Acho que apresentar é exatamente a palavra certa. Porque permitir um estudo rigoroso sobre a veracidade dos poderes de Simon Silver quando um espetáculo para as massas está lá para servir como distração para os resultados desse estudo? Tirar vantagem das pessoas, é por isso que ele não quer fazer parte desse estudo.
- Você fica surpresa por Silver não desejar ser estudado? Como em uma gaiola de Faraday ou através de uma lavagem que pretendem fazer nele? Pra quê ele se submeteria a uma prova de que não precisa, e de que as pessoas também não precisam?
- Não, não fico nem um pouco surpresa por ele se recusar a seguir o único protocolo que eliminaria qualquer possibilidade de fraude.
- Isso tudo parece muito convincente, doutora, mais na verdade eu conversei com supostas vítimas dessas fraudes, cujos olhos você diz ter aberto, mas elas não tem coisas boas a falar sobre você.
- Dizer as pessoas que elas foram enganadas e tentar tirar essas ideias da cabeça delas é como tentar tirar o osso de um cachorro. O que estou dizendo é: me dê a prova de que um fóton de luz possa passar por um corpo humano e começarei a acreditar em invisibilidade, caso isso não aconteça, tudo que estão dizendo aí são simples crenças subjetivas.

Após dizer isso, a agente Mansey se desconcerta e diz algumas coisas ofensivas para a Dra. Matheson, que sai do programa de cabeça erguida ao perceber que o assunto havia virado pessoal em vez de técnico.


6 - No Camarim


Tom Buckley vai à procura de Simon Silver. Ele deseja ter uma conversa a sós com o homem que se diz vidente, e que iludiu a Dra. Matheson "prevendo" um acontecimento que acabou se tornando verdade, por coincidência (a condição inane de quase morte de David, o filho da psicóloga). Buckley se sente colérico por somente uma coisa em sua vida, desvendar e desmascarar aquele homem. E ele finalmente consegue ter seus primeiros momentos a sós com Silver. Esse homem misterioso que acredita ser um vidente começa a falar com Tom:

- Quanto a mim, eu vivo cada dia como se fosse o último. Estou começando a ficar cansado, muito cansado. Nem sempre cobro pelos meus serviços especiais, sabia disso? Pelo menos não em dinheiro, existem outras formas de ser pago. Mas você já sabe disso, não sabe? Ser ou parecer ser, essa é a questão, sempre é. Todos tentamos ser quem não somos.

Buckley se mantém em silêncio. Não sabe se sente ódio, desprezo, ou fascinação por aquele homem que passou a vida provando a si mesmo e aos outros que detém algum tipo de superioridade. Se não fosse pela convicção de Silver, com certeza Tom teria enlouquecido em sua jornada, juntamente com Margaret, para desmascarar aquele homem. Silver continua seu monólogo:

- Sonhamos cerca de 27 vezes por noite. Um mecanismo neurológico intrincado de proteção nos faz esquecer. O que protege você? Uma linha de sal? Dos tempos dos antigos gregos até os dias de hoje, filósofos e estudiosos afirmam que o homem é essencialmente racional, eu não concordo com isso. Se alguém observa e estuda uma pessoa, sem ter estudado outra antes, como sabemos que nossos instrumentos estão configurados adequadamente? Como sabemos se somos confiáveis? Não temos provas. Só há uma maneira de ter acesso a verdade, e é não esperar por nada. Se nossas intenções não são puras, podemos acabar criando monstros.

Silver pode estar certo, mas o que ele não sabia é que já havia se tornado uma espécie de monstro, ao se iludir achando que havia recebido um dom que poderia mudar a vida das pessoas. Mas vendo destruí-las cegamente, Tom e Margaret passam o filme tentando abrir os olhos de Silver, que não por ser ser cego, sempre esteve com os olhos fechados. 


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