quarta-feira, 24 de julho de 2013

Silence of Stone Cold

Deitado de bruços na rua, para não atrapalhar as pessoas que passam pela calçada, com suas capas de roupa aconchegantes, com suas camas e cobertores quentes a aguardar um sono que lhes será acalentador, o homem tenta dormir, e não consegue.

As pessoas olham para a rua, "mas ninguém se importa", seus peitos estão aquecidos e não compartilham daquele frio do asfalto de quem o sente.

O desconforto muscular, ou a ausência de resposta dos músculos forçam o homem deitado a se levantar. A dor o motiva. Mas seu espírito ainda permanece oculto àqueles que têm para onde voltar. Voltar não só para a cama e o calor das cobertas, mas para algum outro lugar.

O homem está de luto, decorando orações vazias que só causam dor em sua garganta. Está frio. Nunca achou que fosse pagar o preço, e agora deve pagá-lo duas vezes. Todas as mentiras que lhe contaram, e ele acreditou. Pensou que mentir fosse adequado, então ele mentiu, e foi enganado.

Perdeu tantos amigos, nesse caminho sem volta, e o machuca saber que está morto para eles, como uma pedra fria. Mas essa dor, da solidão que o fizeram e de como ele próprio a sente, é o que o mantém vivo. A dor, mesmo que possa ser gelada, é só um sentimento, uma força, uma energia, negativa, mas mesmo dessa energia se tira calor, e o homem movimentou seus músculos e se levantou.

O conforto de um lar, ilusão da realidade, que têm frio, sede, têm muita fome e só sono.

Para os que passam na calçada, o homem é frágil. Não há nenhum respeito. Os transeuntes vestidos só vêem um homem que parece ter agulhas enferrujadas em seu corpo, com dois tipos de veneno. O orgulho e o medo. Mas foi realmente o homem quem se aplicou essas agulhas? Ou lhe foi aplicado? O homem não sabe, não enxerga as agulhas, ele está cego. E só sente orgulho porque sabe lidar com a dor e o medo.

Apenas o homem se dá mérito. Um selvagem furioso das ruas, como é visto. Uma selvageria que vêm da ausência de lágrimas, já todas desperdiçadas, em vão. Ele é visto como uma pedra fria e morta.

Mas o orgulho e o medo bebem da mesma fonte, e o homem então pode saciá-los juntos. O medo o faz se sentir vivo, ainda, e ele se sente orgulhoso. O orgulho lhe faz crer que ele pode se levantar, e por que não, tentar andar? Mas é perigoso andar nas ruas, ele sabe, já foi ferido antes, e prefere esperar a calçada ficar vazia, para caminhar por lá. 

Segurança e esperança ele busca, na calçada, mas das duas ele não encontra nenhuma, pois ao entrar na calçada, ele não se sente parte dela. Porque ele é frágil, sujo, incômodo ás pessoas aquecidas e felizes que nela andam, mas que, em sua aparente felicidade e acalento, transmitem apenas ódio e pena. Não desgosto, não ódio e pena pelo homem, mas por si mesmas.

É o desgosto de pessoas que percebem esperança, vontade, e orgulho em seres que para eles são perdidos e inferiores, como julgam ser aquele homem. Percebem que o homem definha, ou parece definhar em seu orgulho, para eles irracional. Ao perceber a força e a garra daquele homem, o odeiam, não por sua fragilidade, mas por notar a própria inanidade. Inanidade que não vêem em si mesmos, então o projetam naquele homem.

"Para a perfeição mais errada, orgulho e medo bebem ao lado, frágil as vezes pra quem foge e volta, pra quem deseja serve o ato". Ódio e pena as pessoas desejam sentir, dessa forma se sentem mais poderosas. Mas das pessoas que agem e pensam igual, elas se escondem. Por seu desígnio, por seu egoísmo e por sua ilusão de maioridade. São ridículas aos olhos daquele homem, que nem sabe o que idealiza. 

O homem não sabe que é mais valoroso sentir o frio corroendo seus ossos e espinhas, do que sentir um calor que ofusca as pessoas em egoísmo e indiferença.

Começa a chover, a garoar baixinho. O homem se alimenta de seu silêncio, cria dele seu calor próprio. E ele pode dar de beber a seu orgulho e a seu medo. Pode criá-los. Ele está vivo, sente a água tocando sua pele, sente seu orgulho por não precisar de roupas, de camas, de cobertores, como aquelas pessoas quentes e tão vazias. Mas disso ele precisa, do calor, pois seus sentimentos estão feridos e há razões para isso. 

Tendo como referência de calor as pessoas aquecidas, andando na calçada , ele acha que o caminho quente é por ali.

Mas do vácuo que sente ao pisar na calçada, do vazio que nota nas pessoas ocas, ele não sente falta, não sente calor. Ele sente frio. E por isso volta, e permanece na rua, no silêncio da pedra fria.
 
Baseado nas músicas:

- "Stone Cold Dead" - Dr. Sin;
- "Silence" - Michael Kiske;
"Duo" - Madame Saatan. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário