segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Necessary Needs

There'no unlockable doors,                                           So find a key                       
There'no unwinnable wars,                                            Then fight, win or die
There'no unrightable wrongs,                                       At least those that depend only on you
There'no unsingable songs.

There'no umbeatable odds,                                           Until the end
There'no believable gods,                                              Only those which you believe
There'no unnameable names,                                       Everything is named.

There'no impossible dreams,                                        Just lei it be taken to where you want
There'no invisible seams,                                                Nor invisibility
Each night when the day is through,                           Not ask for much more than necessary,
I just want.

There'no uncriminal crimes,                                          Nor infractions without punishment
There'no unrhymabel rhymes,                                      They join in
There'no identical twins or forgivable sins,             Monozygotics sinners
There'no incurable ills,                                                    Or remedies that cure.

There'no unkillable thrills,                                                 Just feeling them
There're thing ones that I'd not know if it's true,      And is the great majority of them
There'no unachievable goals,                                       And games that can't be played                   There'no unsaveable souls,                                               Unless you compromise your own soul.

No legitimate kings or queens,                                        Not exist the most powerful
There'no indisputable truths,                                          If you're not adapt your stereotypes
Each night when the day is through,                             Not ask for much more than necessary.

Every dream dreamed and every day spent,            The necessary arrives,
Each day and each night,                                                   The necessary leaves.



Baseado na música: "I Just Want You", Ozzy Osbourne.

sábado, 24 de agosto de 2013

Liespotting - A Verdade da Mentira

Mark Twain uma vez disse que há 3 tipos de mentiras: a) mentiras; b) mentiras deslavadas; e c) estatísticas. 

Esse último tipo é o mais óbvio, já que a estatística procura prever probabilidades sem chance nenhuma de 100% de acerto (ou sucesso); e também reduzir ao máximo as margens de erro inevitáveis (ou fracassos). Esses erros inevitáveis com que parâmetros estatísticos trabalham podem ser associados a mentiras, de uma forma geral.

Em uma aula de Estatística Multivariada, lembro de ter ouvido o professor dar um exemplo, depois de eu (e acho que todo o resto da sala) não entender nada da explicação que ele tinha dado, de que esses erros inevitáveis em eventos estudados na estatística se assemelham a um julgamento em um tribunal, em que um réu acusado não precisa provar sua inocência, mas sim a Justiça deve provar sua culpa. Ou seja, todos são inocentes até que se prove o contrário. 

E funciona assim com as mentiras cotidianas, que também são inevitáveis, como na estatística. Todos mentem o tempo todo, até que se prove que estão dizendo a verdade. Mas essa prova da verdade nunca é totalmente confiável, pois as mentiras (margens de erro estatísticas) estão presentes em qualquer situação que se tente provar. 

O seriado americano "Lie To Me", já cancelado por motivos estratégicos da produtora, foi um sucesso de audiência, principalmente em sua 1ª temporada, e levou as pessoas, como eu, a se perguntarem como alguém pode ler nos outros pequenos detalhes que nos fazem pensar que o que estão dizendo não é verdade.

Twain também disse que: "A verdade é poderosa e prevalecerá. Não há nada de errado com isso, exceto que ela não é assim".

A autora Pamela Meyer, autora do best-seller "Liespotting", deve concordar com ele, assim como eu, após ler trechos e artigos desse livro dela.

A verdade não prevalece, pelo menos na maioria das vezes, mas as pessoas costumam ter um senso otimista e creem que podem confiar nas pessoas, ou seja, invertem as ideias do exemplo do julgamento em um tribunal. Procuram acreditar que o que ouvem é verdade, e muitas vezes só se deparam com a mentira e são enganadas muito depois de já confiarem nas pessoas, tendo acreditado nelas. Tentam provar que é mentira, em vez do contrário.

Alguns dados que o livro apresenta são muito interessantes para atestar o fato de que todos são mentirosos, mesmo que as pessoas ironicamente não confiem nesse fato. Ou preferem não confiar.

Em média, uma pessoa mente cerca de 200 vezes por dia. Você pode achar um absurdo esse número, e eu também achei exagerado, mas é porque a mentira engana primeiro quem a conta, e daí viria a ilusão automática de acreditar nessas mentiras antes de transmiti-las a outras pessoas. Amigos, namorados, cônjuges, inquilinos, colegas de trabalho, familiares e vendedores. Eles nos mentem o tempo todo, e nós também. 

Diariamente, de hora em hora, constantemente. E não apenas as mentiras faladas, mas também aquelas que são expressadas não-verbalmente (sobre isso, o livro "O Corpo Fala" é muito bom).

Quando se trata de ser enganado, ninguém recebe um passe livre, mas agora Pamela Meyer apresenta ferramentas de que precisamos para identificar, lidar e triunfar onde a mentira reside. Não importa o tamanho e o impacto da mentira, se é disfarçada ou não, ou se é baseada na própria estatística.

Trainspotting ensina técnicas de análise e interpretação práticas que comprovam a garantia da detecção de mentiras e todas as outras formas de engano verbal e não-verbal. Essas técnicas foram desenvolvidas pelo sistema nacional de espionagem americano, agências públicas de segurança e de aplicação da lei dos últimos 75 anos.

Muitas dessas técnicas altamente sofisticadas foram descobertas e aperfeiçoadas por renomados psicólogos e psicanalistas nas principais universidades de pesquisa americanas.

No próprio site do livro Liespotting há um exemplo. Considere o seguinte: Durante um dos estudos feitos (e que fazem parte do livro), se descobriu que, ao longo do período de 1 semana, as mentiras foram detectadas em 37% de todas as chamadas telefônicas verificadas, em 27% nos encontros face a face, 21% nos bate-papos (então se mente mais ao vivo do que pelo Facebook, por essa pesquisa); e em 14% dos e-mails.

Talvez, esse aparente surto de mentiras que ocorre mais em encontros pessoais (em que realmente se olha "olho no olho"), do que em redes sociais ou mensagens eletrônicas instantâneas, seja porque recebendo uma mensagem escrita você não analisa os traços típicos do corpo da pessoa, e sim apenas suas intenções, e dessas intenções, você interpreta o significado da mensagem que recebeu (mentirosa ou verdadeira, por exemplo); diferentemente de um encontro casual, em que o contato com a pessoa é direto, e você tem mais chances de perceber traços característicos de pessoas que demonstram que não estão dizendo a verdade em algumas situações.

Pamela Meyer também compartilha as mesmas técnicas de detecção de mentiras de Liespotting dentro do mundo dos negócios. Ela tem as usado para treinar executivos de alto escalão das empresas mais bem sucedidas dos Estados Unidos, e também para multinacionais de outros países. Ela explica aos profissionais dezenas de posturas, gestos, expressões faciais e corporais, tiques, manias e palavras que separam as frases verdadeiras das falsas e como detectar mentiras nas situações mais inesperadas. 

Como o filósofo francês Pascal escreveu: "Nós sabemos a verdade, não só pela razão, mas também pelo coração". Em Liespotting, Pamela Meyer mostra como realizar esse dom precioso de saber (ou acreditar?) na verdade, a cada dia de sua vida. Como alguém disse uma vez: "A verdade vos libertará". E ajudará a perceber melhor aquelas mentirinhas do dia a dia.

Então o livro garante 100% de sucesso em detectar todas as mentiras? É impossível atingir esse resultado. 

Mas usando essas técnicas de detecção com frequência, vão se criando padrões em que geralmente se percebe as mentiras mais facilmente em determinadas situações.

Com certeza, uma das tais 200 mentiras diárias que você mais conta, é quando te perguntam: "E aí tudo bom?", e você responde: "Tudo". E talvez quando perguntar: "E com você?", já receba outra mentira da pessoa, que te responde: "Também". 

Mas aí eu já estaria exagerando, pois é óbvio que nessa situação, na maioria das vezes está tudo bem mesmo, e você acredita que também esteja tudo bem com a pessoa, mesmo

Ou seria na minoria das vezes??


Nesse vídeo, Pamela Meyer apresenta seu livro e usa algumas técnicas para a plateia em uma palestra: http://dentados.pt/blog/liespotting

sábado, 17 de agosto de 2013

[Conto] Refúgio da Noite - O Prisioneiro (Episódio II)

Dimitri foi o primeiro a sair do salão, depois de participar de uma reunião com todos os oficiais do exército do Velho Distrito. Era mais uma daquelas reuniões de fachada que aconteciam naquela fortaleza, de onde nunca saia nada de produtivo e as pessoas apenas criavam mais discórdia entre si. 

Ele deu um suspiro devido ao calor insuportável que fazia naquela estação do ano, onde o sol atingia as árvores mais negras e distantes no meio das montanhas e ninguém se dava conta da presença do vento. E ainda usava aquelas roupas que lhe queimavam por dentro.

O capitão limpou o suor da testa e do pescoço e caminhou por um grande corredor, virou à esquerda e seguiu direto para o centro da fortaleza. Um garoto veio correndo em sua direção.

- Capitão! O prisioneiro já está sendo punido na praça central. - avisou o menino enviado por alguém.
- Prisioneiro??
- Sim, já foi amarrado ao poste.

Dimitri não estava entendendo absolutamente nada. Não ficara sabendo de nenhum homem capturado e ainda mais que estava sendo castigado. Confuso, decidiu ir até a praça para presenciar por si mesmo.

Chegando lá, ele viu algumas pessoas que também caminhavam por ali e paravam, com as mãos na cintura, largando suas sacolas e mochilas no chão e levantando as cabeças para ver melhor a figura de um homem todo nu. O homem, que não devia passar dos 30, estava preso por várias voltas de corda a um poste de madeira com a espessura de um tronco grande de carvalho. O homem mantinha a cabeça abaixada.

Ao seu redor, um grupo de homens que Dimitri reconheceu como soldados da infantaria cercava o prisioneiro.

- E então! - disse um dos soldados. - Está pronto para pagar pelo que roubou?

O homem levantou a cabeça e olhou para o soldado.

- Posso trabalhar para compensar o que peguei. - respondeu o prisioneiro.
- Bom, bom. Força de trabalho. Precisamos mesmo de mais homens de serviço por aqui. - disse um soldado.
- Você pode servir pra alguma coisa mesmo, mais por enquanto se contente com o chicote. - disse outro soldado, retirando de uma mala preta a seu lado um chicote cinza com dois espigões espinhosos nas pontas.

O prisioneiro empalideceu na hora, quando viu o chicote. Já sentia na pele os rasgos das feridas. Começou a tremer. 

- Deixe-me ver....5 peças de carne...10 peças de queijo....8 pães, contando que deve ter comido uns 2 já....e quantas garrafas de vinho?? Deixa eu ver.... só 2 garrafas. - um soldado abria um saco branco e tirava as coisas de dentro.
- Quando você ia pagar por isso? - perguntou outro soldado, de longe.
- Quando minhas filhas e minha mulher parassem de reclamar de fome, todo dia, senhor. - disse o prisioneiro.
- E pegando essas coisas da nossa despensa você resolveria esse problema...entendi. Fácil, não? Mas você deve saber que sempre há um preço a se pagar pelas coisas. Acho que deve saber, né.
- Sim, senhor. Mas imaginei que não faria diferença para a fortaleza eu pegar eu pouco de alimento.....afinal, lá dentro tem mantimentos pra quase toda uma estação, eu diria. 
- Ah, mas você se esquece de uma coisa. Temos um exército que também reclama de fome, não apenas sua família. Precisamos comer, senão, como poderíamos agir em defesa de nosso distrito? Em defesa de nossos cidadãos? Em defesa de sua família?
- Eu nunca me senti protegido nas ruas por causa de você e do resto dos homens do exército, soldado. Nem eu nas ruas e nem minha família dentro de casa. Com os recursos que temos a nossa disposição, me impressiona o fato de todos os homens de família do distrito não precisarem assaltar a cozinha da fortaleza todos os dias. 

Dimitri entrou no pequeno cerco de soldados, e ficou de frente para o prisioneiro. 

A essa altura, já havia uma multidão aglomerada pela praça, todos curiosos e atentos.

- O que está acontecendo? Soldado? - quis saber Dimitri.
- Senhor. - se virou um dos soldados. - Este homem violou as leis de nosso distrito e cometeu um crime. 
- Qual é a acusação?
- Roubo. - respondeu o soldado, chutando a sacola branca para perto de Dimitri. - Tudo isso aí. Ele estava vestido como um de nossos cozinheiros e foi encontrado saindo da despensa com esse saco na mão. Uma moça, acho que da limpeza, o viu e nos avisou.

Dimitri olhou o interior do saco.

- Minha família pode estar morrendo de fome nesse exato instante, meu senhor. - dizia o prisioneiro a Dimitri. - Não aguentava mais a angústia nos olhos de minhas filhas. Minha esposa não sai da cama. Se não fizesse alguma coisa, eu iria enlouquecer as vendo assim sofrendo tanto.
- Você trabalha? - perguntou Dimitri.
- Trabalhava, senhor. Fui vítima de um golpe de desertores enquanto participava de um jogo de azar estúpido em uma taverna a qual trabalhava nas madrugadas. Os homens botaram alguma coisa na minha bebida, eu não pensava mais por mim mesmo. Eles me fizeram levá-los até minha própria casa. Bateram na minha mulher. Levaram tudo que eu tenho. Me sobrou uma chaleira, algumas xícaras e pratos, meio saco de carvão. Minhas filhas estão dormindo comigo e minha mulher. E agora o dono da taverna também não me quer mais por lá.
- Não me importa se você foi idiota o suficiente a ponto de deixar uns homens te enganarem tão facilmente no mesmo local em que trabalha e ainda te roubarem assim. E até acho que você está mentindo!! - disse um dos soldados.
- Pode ir agora em minha casa e ver por si só, senhor. Se encontrar qualquer coisa a mais do que lhe falei, deixo que corte minha cabeça com um só golpe daquele machado. - falou o prisioneiro, apontando para um homem gigante encostado em uma parede, segurando um machado afiado, que daria para cortar toras com até 2 metros de diâmetro.
- A sua cabeça não sei se vale a punição. Na verdade meu julgamento já foi feito desde antes de você começar a falar. Por mim você receberá 100 chibatadas nas costas. Se quiser, ainda pode escolher outro lugar do corpo para dividir as feridas. Nas costas e talvez...no peito também, ou nas coxas, hahaha. E se me disser o que poderia fazer para provar qualquer merda que está dizendo, eu corto sua cabeça mesmo. Ou melhor, ele corta. - e o soldado apontou para o gigante que parecia estar entorpecido enquanto segurava o machado imenso.

Das centenas de pessoas aglomeradas na praça, ninguém havia dado nem uma só manifestação. Apenas alguns gritos aleatórios e choros de crianças mimadas. As pessoas permaneciam atentas ao prisioneiro e aos soldados ao redor e prestavam atenção constante ao que falavam. 

Rajadas de vento açoitavam os cabelos negros emporcalhados do prisioneiro.

- Acho que a situação está bem clara para mim. - começou a falar Dimitri para o soldado que alegara a punição. - Soldado Colt, este homem cometeu uma violação grave, de fato. Mas não podemos deixar de esquecer que ele, assim como praticamente todos os homens de família desse distrito, assumiriam o roubo como uma condição única de sobrevivência. 
- Está dizendo que todos os necessitados teriam direito a entrar em nossas cozinhas e levar o que bem entendessem? E que todos da fortaleza deviam baixar a cabeça e deixar que sua comida e bebida fossem levados por eles como uma forma de oferenda para a condição subjugada que vivem? Não somos responsáveis por todos os homens de família que não tem capacidade para sustentarem seus filhos e esposas, capitão!
- Você tem família, soldado Colt? - perguntou Dimitri.
- E o que minha família tem a ver com isso, capitão?
- Você tem uma família.
- Sim, tenho um casal e Belle, minha mulher.
- E onde eles estão agora?
- Devem estar em casa, a esta hora. 

E algumas pessoas olharam para o céu, que já havia escurecido. E era o que Dimitri queria, a vinda da noite.

- Você espera que elas estejam.
- Claro que espero. Onde mais elas estariam a uma hora dessas?
- A questão não é onde elas estão, mais se elas são. - e o soldado Colt franziu o cenho.
- Capitão, me desculpa, mas não estou entendendo merda nenhuma.

Dimitri olhou para seu relógio de cristal que usava apenas na parte do dia. Ele olhou para o céu e viu o negro. Então retirou o relógio, não antes de dar uma olhadela nele ao colocá-lo em um de seus bolsos da capa.

- Daqui uma hora você espera chegar em casa, ver seus filhos, ficar com eles e com Belle, é claro.
- Com certeza, capitão Olic. Acho que eu mereço isso após passar o dia inteiro trabalhando. Eu e todos que também batalham por suas famílias. Diferente dele, que acha que pode fazer isso às custas dos outros, e ainda deixa sua família morrendo desse jeito. - e Colt apontou para o homem preso.
- Está dizendo que eu não batalho por minha família, seu verme do caralho? - perguntou o prisioneiro, indignado.
- Do que me chamou, seu miserável? - e o soldado Colt tirou um porrete de seu cinto.
- Soldado Colt! - bradou Dimitri, e Colt parou na hora. - Estava terminando de falar com você. - alertou o capitão.
- Desculpe, capitão. - falou Colt, guardando o porrete e cuspindo no chão em frente ao prisioneiro.
- O que estou querendo dizer não é que o homem esteja certo, e pode ter certeza de que seu julgamento é válido. Mas terei que anular seu veredicto, Colt.
- Senhor! Irá deixar este homem roubar nossa comida e voltar para casa só porque usa a família para encobrir sua invalidez e vagabundagem?
- É fácil condenar um homem pelas suas ações, quando você detém o poder de uma pessoa da sua posição. Mas Colt, esse rapaz nunca ofereceu perigo a ninguém nesta praça, desde que eu o vi, pelo menos. E estou convicto de que seu julgamento foi feito de maneira prévia e errada. Você está tranquilo, porque quando sair daqui irá voltar para o aconchego de seu lar e de sua família, mas esse homem nem tem certeza se sairá daqui vivo. E ele não veio aqui buscando salvar sua própria vida. Veio por causa de sua mulher e suas filhas. Não acha que voltar para casa de mãos abanando e poder encontrar sua família semimorta de fome já não é um castigo desolador o bastante? Chibatar o corpo desse rapaz 100 vezes irá te deixar mais tranquilo quando for dar um beijo de boa noite na testa de suas filhas e de sua mulher hoje, antes de dormir??

O soldado Colt enrubesceu. Sentiu que todos os olhares da praça se voltavam para ele. Abria e fechava a boca, como um peixe sedento por água.

- Mas é claro que não ficaria mais tranquilo, capitão. Só estaria cumprindo o regulamento da fortaleza, como tenho certeza que o senhor conhece, até melhor do que eu.
- O regulamento são frases escritas em um papel. Apenas isso. De nada serve o regulamento fora dessa fortaleza. Você diz que eu conheço as regras e leis, e conheço sim, todas elas. Afinal, meu pai foi um dos legisladores que as desenvolveram. Mas eu conheço a vida fora desse lugar, nas ruas, muito mais do que você soldado, também pode ter certeza, conheço o suficiente para perceber o grau de miséria, caos e desolação que bate na cara das pessoas. E você não é uma delas.

Dimitri se virou para o prisioneiro.

- Você gostaria de voltar a trabalhar na antiga taverna? - perguntou Dimitri.
- Gostaria, senhor. Qualquer coisa que me dê condições de pôr algumas batatas e leite na mesa de minha casa, e poder pagar por algumas roupas e cobertores para manter-nos aquecidos. Gostaria de voltar, mas duvido que Howard me aceite de volta na taverna.
- Não vai ser necessário incomodar Howard e sua taverna. - disse Dimitri. - O que você sabe fazer, rapaz?
- Se me permite, senhor capitão. Meu nome é Sven. Poderia fazer qualquer coisa que me pedisse, capitão. Não há nada que eu não possa aprender, se isso significar uma vida mais digna.
- Desculpe, devia ter perguntado seu nome, Sven. Pois bem. Você trabalhará como ajudante de Colt.
- Mas...senhor...capitão. O soldado Colt queria me açoitar. Como ficarei tranquilo trabalhando para ele, quando poderia apanhar a todo instante?
- Eu me certificarei de que você será bem tratado. - e Dimitri olhou para Colt, antes de se voltar para o prisioneiro novamente. - Tirando isso, Sven, você irá respeitar todas as ordens de Colt, e participará de todas as fases de treinamento. Acatará todas as ordens que lhe forem dadas, pelo menos até eu nomeá-lo como um oficial registrado, caso se mostre competente para o cargo. - ditava Dimitri. - Soldado Sedge! Peço que desamarre o prisioneiro, por gentileza. - pediu Olic.

E Sedge obedeceu, liberando o rapaz das amarras.

- Recruta Sven! Sua primeira tarefa eu mesmo vou lhe passar. Leve este saco para a cozinha e coloque na despensa todas as coisas que pegou, na ordem exata em que estavam. Depois, volte aqui, pois quero que me acompanhe até minha sala. - falou Dimitri.
- Sim, capitão. Deus te abençoe por possuir um coração tão nobre. Não poderia estar mais feliz.
- Deus não pôs alimento da boca de suas filhas e nem cobertores em cima de seus corpos enquanto tentavam dormir com a ventania gelada da madrugada batendo na cara ou quando queriam comer. Deus não veio até aqui tentar salvar a vida deles. Você que veio. Mas você pode pensar que Deus me enviou aqui e fez com que eu visse que você tem potencial e capacidade para ser alguém mais digno do que apenas um ladrão. Estou certo, Sven?
- Farei com que esteja, capitão.
- Colt, supervisione a volta de Sven e o acompanhe até minha sala. - disse Dimitri para o soldado, e se voltou para Sven. - E não pedirei isso por suspeitar de sua palavra, Sven, mas apenas por garantia de que não estou pondo em risco meu julgamento pessoal frente a todas essas pessoas. Me dê a chave de sua casa.
- A chave de minha casa? Mas....sim, claro capitão, pegue.
- Apenas por garantia, Sven. Amanhã lhe devolverei sua chave. 
- Estou saindo com um emprego nas costas, capitão. Não poderia ter desejado nada melhor que isso. Poderei dar uma condição mais digna para Belle e as crianças.
- Na verdade, o que você desejou agora a pouco parece ser inútil, não? Um saco com comida. Já parou pra pensar que uma hora a comida do saco iria acabar, e depois disso sua família voltaria a passar fome? E então você entraria num círculo vicioso de roubo, pois apenas essa alternativa lhe seria óbvia. Mas agora você tem bem mais que isso, tem a chance de levar vários sacos deste e comprar o que seu coração desejar com os esforços que fará pela fortaleza. Trabalhará por uma devida recompensa.

Após a decisão da contratação do prisioneiro, a maiorias das pessoas na praça começou a cochichar, para todo lado. Uns eram a contra a decisão, e não chegavam a se manifestar para Dimitri, como o capitão sabia que não o fariam; e outros, a maioria dos presentes, bradavam alto que nunca haviam visto um julgamento tão alternativo quanto este, em que a punição seria uma carreira de trabalho e a possibilidade concreta de um homem conquistar sua dignidade, em vez de ser castigado, como seria racional.

Dimitri não se lixava para o que as pessoas pudessem pensar sobre sua decisão. E ele não cogitou reconsiderá-la uma vez sequer. Viu o prisioneiro pegar a sacola branca com os alimentos e acompanhar duas mulheres que o guiariam em direção às cozinhas.

- Capitão. - chamou Colt.
- Colt.
- Você não tem medo do risco que esse homem poderia causar por aqui?
- Eu tenho mais medo do que vejo lá fora, Colt. Quando o rapaz contou sua situação, apenas memorizei o rosto de meu irmão. E sabe porque? Pois ele morreu de hipotermia, causada pelo frio e pela inanição.
- Capitão.... me desculpe.
- Tolice sua me pedir desculpas. Sabe porque estou lhe contando isso, soldado? Não é para que você me transmita solidariedade e nem apoio por eu não contar mais com meu irmão. Isso não me ajudaria em nada, pois eu o perdi, e por uma vez só, já é o suficiente para que seja relembrado. Estou lhe contando isso para que você se lembre quando abrir a porta de sua casa e ver sua família saudável e feliz, à sua espera. Quando você ver os sorrisos nos rostos deles. 
- É só o que o rapaz queria, também. Não é?
- Exatamente, Colt. Acho que não será preciso que eu lhe dê a ordem de acompanhar esse rapaz e ajudá-lo, para que ele possa evoluir aqui dentro e possa ver também o sorriso no rosto da família dele outra vez. Acho que todos merecemos isso nesse mundo. Principalmente aqui, nesse distrito esquecido.
- Sim, capitão Dimitri. Me responsabilizarei por ele.
- Ótimo. 
- Senhor, se me permite....uma pergunta.
- Sim.
- Daqui a pouco voltarei para casa, assim como todos aqui dentro, e poderei ficar um pouco com minha família...e como você bem disse...ver a alegria em seus rostos...isso é confortador.
- Sim.
- Você também verá sorrisos nos rostos de quem você ama quando sair daqui, não é?
- Infelizmente, não, Colt. Devo ver muitos rostos tristes e desesperançados por aí esta noite, como quase sempre vejo. Como vi no rosto desse rapaz, ao chegar na praça. Mas quando você os permite sorrir e ter esperança outra vez, quando você pode os permitir a isso, então.... a vontade de voltar para algum lugar me desaparece. - falou Dimitri, sorrindo.

E Colt deu um risinho também, mas apenas para acompanhar o capitão. 


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Este é o 2º capítulo da série Olic, criada por mim. 

O prelúdio e o 1º capítulo da série podem ser lidos também no Blog, pelos links a seguir:

Prelúdiohttp://frameinsights.blogspot.com.br/2013/07/refugio-da-noite-preludio.html  

1º Capítulohttp://frameinsights.blogspot.com.br/2013/08/refugio-da-noite-o-mendigo-e-mulher-cap.html

terça-feira, 13 de agosto de 2013

A Janela de Overton

O administrador do site Café Brasil, Luciano Pires, fala sobre a Janela de Overton, termo criado em homenagem a Joseph Overton, vice-presidente do Mackinac Center de desenvolvimento de políticas públicas nos Estados Unidos. 

Nos anos 90, J. Overton criou um modelo que mostra como as opiniões públicas podem ser mudadas intencionalmente e de forma gradual por um grupo de pessoas quaisquer (os tais think tanks). Ou seja, ideias que antes pareciam impossíveis são "plantadas" na sociedade, e com o tempo, se transformam até mesmo no oposto do que eram antes.

Luciano fala que se imaginarmos qualquer assunto social/político (aborto, casamento gay, descriminalização de certas drogas, aquecimento global, armamento, etc), percebe-se que para cada um desses temas existe um espectro de ideias que variam entre as distintas opiniões de pessoas dentro de grupos sociais. Essas opiniões vão de um extremo ao outro (do pensamento mais radical ao mais liberal).

A janela de Overton é o leque de ideias "aceitáveis" dentro da sociedade, ou seja, a posição de certas pessoas (amostras da população geral), em relação a um determinado assunto presente no cotidiano dessas pessoas. Esses temas geralmente costumam ser bastante polêmicos e geram discussões infinitas, criam tabus e estereótipos e são assuntos debatidos em praticamente qualquer grupo social impactado por essas questões.

Se alinharmos as posições a respeito de quaisquer desses temas polêmicos, pode-se criar uma escala de pensamentos (do mais radical ao mais liberal); e se tem algo assim: proibido; proibido com ressalvas; neutro; permitido com ressalvas; permitido livremente.

Luciano explica melhor, e cita alguns exemplos. A questão do casamento gay, por exemplo. Para esse assunto, a janela de Overton esteve na área do "proibido" durante anos. A sociedade não podia aceitar de modo algum a ideia de um casamento gay. Com o passar dos anos, com a discussão do tema e as frequentes exposições de argumentos em favor dos gays na mídia, a janela de Overton foi se deslocando de "proibido" até "neutro", até chegar onde está hoje: "permitido com ressalvas". E em breve, provavelmente passará para "permitido livremente".

A questão das drogas também. O consumo de drogas tem a janela de Overton posicionada entre "proibido" e "proibido com ressalvas". A exposição do assunto, e a atividade dos militantes pró-descriminalização está deslocando a janela em direção a posição "neutro". Tendo a opinião pública uma maior tolerância com a ideia da descriminalização, mais facilmente ocorrerá uma flexibilização das leis, e a janela então se deslocaria mais facilmente para "permitido com ressalvas", e também possivelmente para "permitido livremente"(aqui no Brasil, pouquíssimo provável).

É no deslocamento da janela de Overton para posições que sejam do interesse de determinadas pessoas que está sendo aplicado um esforço profissional, e não apenas discussões inconsequentes. Esse esforço profissional é o que se convencionou chamar de engenharia social. Os engenheiros sociais (os tais think tanks), são pessoas comuns dentro da sociedade. 

Luciano afirma que a engenharia social é o ato de influenciar pessoas para que executem algo que não seja necessariamente de seu melhor interesse, conceito muito similar ao da persuasão. Segundo ele, houve no passado uma tendência de localizar a engenharia social na área de gerenciamento de informação, especialmente em ações relacionadas à internet, mas ela é mais abrangente do que isso. Envolve todos os segmentos da sociedade.

O interessante é que quaisquer pessoas podem atuar como engenheiros sociais em seus grupos de influência. Pode ser você, eu, seu chefe, namorada, qualquer um. Toda vez que você tenta fazer com que alguém faça alguma coisa que seja de seu interesse (que seja apenas você), está executando uma ação de engenharia social. Pires cita uma frase de Edward Bernays, nome importante na área de propaganda e relações públicas em seu livro "Propaganda"; que diz que "se entendermos os mecanismos e motivações da mente de grupo, é possível controlar e reger as massas de acordo com nossa vontade, sem seu conhecimento".

Bernays cunhou o termo "engenharia do consentimento" para descrever sua técnica de controle das massas: " A manipulação consciente e inteligente dos hábitos organizados e opiniões das massas é um elemento importante em uma sociedade democrática (...) Aqueles que manipulam esse mecanismo oculto da sociedade constituem um governo invisível que é o verdadeiro poder do nosso país (...). Em quase todo ato de nossa vida diária... nós somos dominados por um número relativamente pequeno de pessoas que compreendem os processo mentais e padrões sociais das massas. São eles que puxam os fios que controlam a mente do público".

É fato que quem controla a mídia, controla o poder. E como diz Luciano, é por isso que nosso "querido" governo nunca desistiu da ideia de controle total da imprensa, mas nisso tem enfrentado violenta oposição de emissoras de influência dominadora, como a Rede Globo.

De acordo com Pires, será preciso criar um apelo popular (algo dramático) para se criar, no calor desses eventos, uma censura que não pareça uma censura. Ou pelo menos seguir o caminho que já está se tomando, de ir aumentando o controle do Judiciário e ir estrangulando e eliminando o jornalismo inquisitivo, de denúncias.

Outro exemplo atual da janela de Overton, aplicado a ação de engenharia social citado por Luciano, é o seguinte: o ministro de Marketing João Santana achou que realizar a Copa do Mundo e as Olimpíadas em nosso país seria uma excelente jogada política. Imediatamente surgiu uma reação contrária a fazer os torneios aqui, daqueles que sabem que precisamos resolver problemas básicos de saúde, educação, infra-estrutura do que investir bilhões na construção de estádios.

Os engenheiros sociais observaram essa situação e resolveram, então, evitar qualquer menção ao deslocamento do dinheiro de uma área prioritária (recursos básicos do país) para outra não prioritária (realização dos torneios no país), e, usando a imprensa, desviaram a discussão na mídia para o orgulho do brasileiro (para a oportunidade de mostrar ao mundo como somos "bons", competentes; afinal, uma Copa do Mundo e uma Olimpíada demandam estrutura de qualidade para que os eventos possam ser realizados).

Como relata Pires, na mídia transformaram os "contra a Copa" em anti-brasileiros, pessimistas e mau-agourentos (por desprezarem a importância e a reputação agregadas de um país que sedia um torneio da maior magnitude do futebol, de um lado; mas também por considerarem que é mais importante a longo prazo para o país que se dedique plenamente os esforços para evolução de recursos básicos e de serviços, por outro lado).

Aconteceu então que anestesiaram grande parte da massa da população (até ficar claro que não haveria investimentos direcionados prioritariamente para recursos e serviços básicos, e sim para a construção de uma infraestrutura adequada para a realização da Copa e das Olimpíadas, inclusive com os orçamentos dos gastos excedendo o esperado e as contas explodindo). Então, a janela de Overton voltou para a posição de "proibido  com ressalvas", e os indignados foram as ruas....

Nesse caso da Copa e das Olimpíadas, na janela de Overton haveria um deslocamento do "proibido com ressalvas" (contra os eventos no país), para o "neutro" ou o "permitido com ressalvas". A janela poderia voltar para "proibido com ressalvas" novamente, como se viu que voltou, mas no atual contexto a janela fica na área entre "neutro" e "permitido com ressalvas", na minha opinião. 

E também pode-se dizer que para este caso a escala de "permitido livremente" ou "proibido" seria inviável, então o encobrimento da mídia (tratando os eventos como estratégia para apontar os holofotes para a reputação e o status brasileiros; e encobrindo os danos cada vez mais arruinados dos serviços públicos e recursos básicos para o brasileiro) aconteceria como sempre acontece.

Luciano lembra que funciona assim com todos os grandes temas polêmicos. 

A janela se desloca conforme a conveniência da mídia (pequeno grupo de pessoas), quando em manipular e controlar a mente das massas.   

O administrador do Café Brasil concluí que a "engenharia social não é de direita, de centro ou de esquerda. É de todos. Pisque e você será manipulado".


O link para acessar o site de Luciano, Café Brasil, e ver vários artigos e podcasts  com temas como esse é: http://www.portalcafebrasil.com.br/

domingo, 4 de agosto de 2013

[Conto] Refúgio da Noite - O Mendigo e a Mulher (Episódio I)

Dimitri andou pelo velho distrito sem ser notado. Ou pelo menos ele não esperava ser notado. Era difícil esconder sua identidade. Era reconhecido por qualquer um que o visse durante o dia, dentro da fortaleza. E assim seria de noite também, se ele não se lembrasse de que não era o mesmo homem nessa parte do dia.

Ele respirou o ar que entrou direto em sua cara quando abriu as janelas de seu grande quarto, dentro da cidadela na fortaleza de Mahri.

As roupas caras e elegantes que ele era obrigado a usar por etiqueta podiam, e foram trocadas pela túnica rústica cinza, de hábito, que o envolvia em seu manto secreto todas as noites.

Ainda em seus aposentos dentro da fortaleza, Dimitri lavou bem o cheiro dos perfumes que usou durante o dia para oferecer boa impressão. Acendeu a lareira e esperou começar a cheirar a fuligem e cinzas. Despenteou o cabelo e se certificou de que a barba estava por fazer a dias o suficiente para cobrir seus traços faciais.

Saia às ruas naquele dia, finalmente. Não havia como esconder aquele queixo quadrado e retorcido, e ele não ligava para esse detalhe. Podia andar de cabeça baixa e curvado, para tentar disfarçar o fato de que era mais alto que a maioria das pessoas ou esconder seu corpo musculoso. Mantinha o capuz puxado sobre a cabeça, apoiava-se em uma bengala curta e falava o mínimo possível.

Ele amava noites como essa. Gostava e vivia no anonimato; de escapar das restrições e obrigações da corte; gostava de ser simplesmente Dimitri. E não Olic, como o chamavam.

O velho distrito que percorria não era, apesar do nome, a parte mais antiga daquela cidade russa. Era banhado por vielas e ruas escuras, formando um labirinto de casas, fábricas abandonadas, prédios arruinados, estabelecimentos comerciais com as grades altas, becos sem saída. Aquelas ruas tortuosas mudaram pouco conforme o tempo. Continuavam sem iluminação, cheio de fissuras e buracos. O velho distrito abraçava com firmeza seu passado sombrio e recusava-se a largá-lo.

Esse labirinto urbano e velho fazia parte de uma região que ainda possuía lugares mais bonitos, apresentáveis. Ficava no meio de dois grandes parques públicos, um circo arruinado pelo fogo que já dormia, teatros (a maioria deles inativo), e outros locais. 

Mistérios espreitavam nos becos claustrofóbicos, havia assassinato e intrigas nas sombras. As lojas continham qualquer coisa que o coração do homem pudesse desejar, se soubesse onde procurar e pudesse pagar; as tavernas eram ruidosas e agitadas pela alegria movida à álcool do povo comum; as ruas eram cheias de vida em toda sua mistura de glória e repulsa.

Se você não consegue achar o que deseja no velho distrito, então tal coisa não existe. Era uma velha máxima naquela cidade russa.

Aquela parte da Rússia era lembrada pela desigualdade social, pela pobreza, pelas condições escassas de vida, por moradores que acordavam nas manhãs e guerreavam por uma vida mais digna do que haviam suportado no dia anterior. Era lembrada pelo antagonismo que representava em relação a parte rica e luxuosa da cidade, onde a fortaleza servia como ponto de referência. Onde Dimitri passava seus dias aprisionado pela luz do sol, que ao se esvair o liberava de seu torpor mental. 

Mas era mais lembrada pelo talento e pela criatividade.

Diziam que das ruas daquele distrito velho surgiam quase todos os artistas da Rússia. Mesmo para um observador descuidado ou para um cético das artes, era impossível não notar a quantidade de pessoas que possuíam alguma forma invejável de expressão artística. Cantores, menestréis, bardos, pintores, escultores, poetas, dançarinos, malabaristas, atores, e qualquer tipo de maestria produzida pelo homem existia por ali, e quase todos esses artistas eram meio que desvalorizados pela sociedade. 

Essa era uma razão, das maiores, pela qual Dimitri Olic perscrutava os ambientes onde sabia que haviam esses talentos ocultos. Era um amante da arte e de seus praticantes, e por isso captava facilmente indivíduos privilegiados por essa virtude. 

O amor também era uma arte que Dimitri captava. Havia encontrado seu amor no velho distrito, claro. Safina. Era para o amor que ele corria quase todas as noites.

- Perdão, meu senhor. Você teria uma moedinha para alguém comprar um pão? - a voz surgiu da boca escura de um beco, acompanhada pelo cheiro de dentes podres.

Aqui, nas entranhas da cidade bem perto do centro do velho distrito, bem distante das luzes mágicas que vinham da fortaleza, a pouca iluminação presente vinha em grande parte das janelas abertas de tavernas e bordéis, a claridade era fraca e intermitente. As sombras mudaram de lugar, e Dimitri viu o homem ali. Ele também o conhecia, apesar do mendigo não fazer ideia de sua existência, como todos por ali. O mendigo era conhecido como "Anzor maluco". O mendigo não sabia se Anzor era realmente o nome que sua mãe não conhecida havia lhe dado, mas ele achava que devia ser, pelo fato de todos o chamarem assim. 

Dimitri Olic vasculhou seus bolsos em busca de dinheiro, e seus dedos puxaram uma moeda dentre as outras ali dentro. Ele estendeu a mão.

- Aqui. - falou para o mendigo. Dimitri manteve a voz baixa de propósito, grunhia as palavras para esconder o tom grave natural. - Compre pão ou bebida, não me importo com qual dos dois.

Uma mão ligeira surgiu e pegou a moeda assim que lhe foi posta no raio de visão, e Dimitri a jogou na direção do homem.

- Obrigado, senhor. - disse Anzor. - E, em troca, deixe-me lhe dar uma coisa.
- O que você teria de valioso para me oferecer? -  e Anzor pareceu rir.
- Tudo o que você quiser saber. 
- Hmm, informações. Tenho certeza que você sabe muitas coisas. Será que estou interessado em alguma delas? - indagou Dimitri.
- Pode confiar em mim. Anzor não é uma ameaça para você.
- Não disse que era. E se fosse, eu acho que não teria lhe dado uma moeda, teria? - o mendigo deu um risinho e dois passos a frente.
- Eh, acho que não. Mas porquê ainda não foi embora? A maioria das pessoas acha que sou maluco. - estranhou o mendigo.
- Elas devem achar. Mas você se enxerga como louco?
- Eu não me enxergo a meses, senhor. Não sei que homem você está vendo agora. Pareço muito mal?
- Você não deve confundir imagem e caráter, Anzor. Você sabe quem é. Sabe o que faz parte de você, mesmo não podendo se enxergar. E veja, eu estou te vendo agora, e não te conheço. E você pode me ver, é o que importa.
- Na noite de hoje, sim. Pode ser que isso basta, amigo. Estou te vendo, conversando com você. E acho que devo gostar disso. Estou gostando.
- Que bom.
- Mas eu vejo as pessoas que passam por aqui toda madrugada, e não consigo enxergar o que elas são, o que elas gostam. Com você é diferente. - afirmou o mendigo.
- Você não as vê porque elas se sentem acuadas. E você também. Elas fogem de você como você se esconde delas. Como saber o que se passa na cabeça delas? E essas pessoas também se perguntam o que se passa na sua cabeça.
- O que eu me pergunto é: porquê ainda está na minha frente? Está querendo zombar de mim ou me prender?
- Eu estou rindo ou estou vestido como policial? - perguntou Dimitri, sério, abrindo as mãos e mostrando seu manto cinza rasgado.
- Você quer realmente algo de mim. Senão não estaria aqui. Estaria com sua esposa, seus filhos. - disse Anzor.
- Não tenho família. Eu já tive. 

E Anzor assumiu uma expressão curiosa. Olhou de cima a baixo para Dimitri.

- Você também mora na rua? - se interessou o mendigo.
- Acha isso por causa das minhas roupas?
- Sim.
- Não, não moro nas ruas. Mas eu fico acordado perambulando por elas, enquanto todos que podem estão dormindo. Não sinto falta de sono. Prefiro ter o privilégio de conhecer pessoas interessantes, como você, em vez de desperdiçar meu tempo em um repouso que não trará nada mais além de descanso. - o mendigo ficou assustado.  
- Acho que entendo.
- E você não queria só uma moedinha. Senão também não estaria aqui. - disse Dimitri, sorrindo. - Só não se deu conta disso ainda. 
- Na verdade, não sei mais o que quero.
- Não é assim que as coisas geralmente acontecem? Nós não sabemos o que precisamos até que alguém tire de nós ou até recebermos. Mas você pode tentar parar de procurar pelas coisas, Anzor. Quem espera muito quase sempre consegue pouco. Mas veja, não esperar por nada não quer dizer não sonhar ou não desejar. O que você desejaria agora? 

E o mendigo Anzor pensou um minuto em tudo o que desejava. Pensou mais um minuto.

- Desejaria ser tratado por todos da forma como você me trata, senhor. Nunca vi ninguém como você por aqui. Se me permitisse, poderia saber seu nome?
- E o que iria mudar? Não se contenta com apenas minha imagem?
- Mas você sabe meu nome. Sabe quem eu sou. Eu não sei quem você é. - falou Anzor.
- Você não sabe meu nome e não sabe quem eu sou, não me conhece. Eu sei como te chamam mas também não te conheço. E estou me contentando com isso, Anzor. - falou Dimitri, se aproximando do mendigo e ficando a um metro dele.
- Acho que entendo. - disse o mendigo, passando os dedos pela moeda de prata que havia recebido. - Agradeço do fundo do meu coração por essa moeda, e mais ainda por tê-lo conhecido.
- E eu ficarei mais grato ainda se você garantir que não será a última vez que o vejo. - Dimitri falou. - Você sabia que, para os gregos, Anzor significa liberdade? - o homem estranhou.
- Liberdade? Não pode ser.
- Não se estranhe se você se sentir preso. Procure pelo que não sabe, converse com quem tem vontade, lute por suas convicções e aja conforme seus sentimentos, pois você é livre para pensar. Quer maior liberdade que essa? - e Dimitri sorriu mais uma vez. - Nunca pensou por esse lado?

Sorriu e percebeu que de um dos olhos enegrecidos e encovados do mendigo surgiu uma lágrima. Dimitri não desejava vê-la ali, mas sabia que não poderia tirar o homem de seu momento de fragilidade e introspecção. 

Notou que passara da sua hora de comparecer a seu compromisso. 

- Algum problema aí? - perguntou outra voz desconhecida das sombras.

Anzor piscou para Dimitri com o olho que não lacrimejou. E antes do herdeiro de Mahri perceber, o mendigo havia ido embora.

Onde a rua cruzava com outra, um homem uniformizado como os policiais da cidade estava segurando uma lanterna acesa com o refletor virado para Dimitri, que protegeu o rosto do brilho.

O uniforme era verde musgo, estilo militar. Dimitri sabia quem eram aqueles policiais. Eram colocados a serviço da grande sociedade, ou pelo menos era o que a inscrição nas roupas fardadas diziam; seu trabalho era patrulhar as ruas e acabar com qualquer confusão que encontrassem, ou ajudar qualquer cidadão que precisasse de ajuda. O cassetete do policial ainda estava preso ao cinto, mas o homem pousou a lanterna nos paralelepípedos e segurou o apito de cobre perto dos lábios.

- Não. - respondia Dimitri, alterando o tom da voz. - Só deixei cair algo no caminho, e o homem que estava aqui só estava me ajudando a pegar.

O policial acenou com a cabeça. Deixou o apito pender pela corrente sobre o peito e pegou a lanterna novamente.

- Muito bem. - o refletor fez um clique e a luz focada em Dimitri ficou suave e difusa, mas o policial parou ali, ainda observando.

Dimitri perguntou-se se foi reconhecido pelo policial. Ele sempre se perguntava. Ajeitou o manto sobre os ombros e puxou o capuz para que o policial visse o seu rosto encoberto pelas sombras. Aproveitando-se da visão limitada do policial no escuro, Dimitri saltou para uma viela perpendicular, e saiu correndo velozmente por ela toda. Virou à esquerda, depois à direita, passou por aglomerações de pessoas fora da porta de tavernas ou que andavam pela rua. 

Ele manteve o capuz próximo ao rosto ao passar por uma lanterna reluzente de outro policial em patrulha, depois seguiu rapidamente por uma rua deserta onde as casas pareciam se inclinar na direção uma das outras, como se estivessem cansadas. Dimitri sabia onde queria ir. Ele sabia onde ia querer passar a noite de hoje. 

Ele foi até uma porta pintada de azul-claro, que parecia cinza-claro à noite, e empurrou para abri-la. Lá dentro, em um aposento decadente, porém limpo, uma jovem que atiçava uma lareira virou-se.

- Ah, Dimi. - falou a mulher. - Não imaginamos, ah.... não sabíamos que vinha hoje. Ela está lá em cima.

Ele subiu as escadas em silêncio, parou no patamar e bateu na porta antes de abri-la. Velas espalhadas por todo o quarto davam um tom dourado aos móveis do quarto e às tapeçarias nas paredes brancas. Em cima de uma mesa de mogno, um tocador de discos reproduzia uma melodia calma, relaxante. No canto do quarto, havia uma cama de dossel imensa e duas mesinhas de cabeceira ao lado.

Dimitri conhecia aquele quarto, e melhor ainda a mulher que estava nele. O quarto era ostensivamente sexual, ostensivamente convidativo. Ele achou graça do modo como a mulher estava estirada na cama, toda desengonçada, o comprido cabelo loiro solto e jogado sobre o travesseiro.

- Estava quase dormindo. Quase. Achei que não vinha. - disse ela, fazendo um biquinho.
- Desculpe pelo atraso, Safina. Eu conheci uma pessoa e depois....me distraí com uma banda que estava tocando música ali no parque. - mentiu Dimitri, protegendo sua reputação.
- Relaxa, Olic. - falou ela, sorrindo. - Parece que a música te deixou tenso. - disse ela.

Os olhos de Safina eram grandes, da cor de mel. Dimitri forçou um riso de leve.

- Lá no parque, a última música que ouvi falava sobre amor e liberdade. Vim pra cá antes de terminar de ouvi-la. - falou ele, agora sorrindo de verdade.

Dimitri fechou a porta e não se incomodou em trancá-la. Ele abraçou Safina, puxou a cabeça dela para a sua e a beijou. A garota subiu em cima dele, e Dimitri esqueceria de tudo por algumas horas......

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Razões Religiosas

É estimado que cerca de 90% das pessoas em todo o mundo pertençam a alguma religião (contando as crianças que seriam mais facilmente influenciadas pelas crenças dos pais), ficando claro que a grande parte da população global possui algum tipo de fé, ou algo em que acreditar, além da existência de si mesmo e dos outros no mundo que vivem. A questão é: porquê as pessoas costumam acreditar fervorosamente no improvável ou no desconhecido?

Uma resposta rápida ninguém sabe com certeza, mas existem alguns aspectos em nosso comportamento que nos fornecem algumas dicas. O site Listverse, como habitual, criou uma lista com 8 razões que foram dadas para as pessoas assumirem um comportamento religioso:


8. Superstição


As pessoas costumam ser supersticiosas, senão, possuem algum tipo de superstição para todo tipo de situações. 

Fãs de futebol, por exemplo, relatam que se estão assistindo a um jogo, e por algum motivo acabam se distraindo, e durante esse tempo perdem um gol ou um lance decisivo, eles sentem que devem parar de assistir ao jogo novamente, mas de forma proposital, para ver se realmente acontece outro lance importante enquanto estão distraídos, como se as jogadas decisivas só ocorressem durante o tempo em que não estão prestando atenção ao jogo. 

Embora qualquer um saiba que uma pausa para ir ao banheiro durante o jogo não pode realmente afetar uma partida sendo jogada a centenas ou milhares de quilômetros de distância, o sentimento de "perda de um lance decisivo" nesses momentos distraídos é generalizado e permanece lá, na cabeça da pessoa como uma superstição.

O que é interessante é que a superstição não se limita às pessoas. O psicólogo B. F. Skinner mostrou que pombos também podem ser supersticiosos; ele colocou pombos famintos em uma caixa, e entregava alimento a eles aleatoriamente, e com o tempo, os pombos aprenderam a identificar seus comportamentos que faziam com que Skinner lhes desse comida, e dessa forma, as pombas repetiam esses comportamentos sempre que desejavam alimento. 

Mas como já foi notado, é difícil distinguir entre comportamento supersticioso (seu time fazer um gol sempre enquanto você não está prestando atenção ao jogo); e comportamento religioso (rezar para que seu time faça um gol e ganhe a partida), por exemplo.


7. Interação com "Não Humanos"


Enquanto está digitando ao computador, você interage com certas pessoas, não fisicamente, mas acaba tendo o PC como intermediário necessário para tornar possível a realização dessa interação, como uma conversa, uma transação de negócios ou o envio de um e-mail. Muitas vezes nos pegamos falando (ou gritando) com computadores, carros, chaves de fenda, enfim, coisas materiais que sabemos que não irão nos responder quando estamos frustrados por alguma falha ou problema nessas ferramentas. Seu computador não se tornará menos lento se você esmurrar as teclas ou socar a tela, e nem seu carro ressuscitará se uma pane no motor te deixar isolado na estrada e você começar a chutar a lataria do carro.

Há evidências de que esse comportamento é útil, por exemplo, se você está procurando por algo que perdeu, e em seguida, diz o nome do item em voz alta, fazendo com que seja mais fácil se recordar da localização de tal item.

Se pressionadas, as pessoas dirão obviamente que seus carros, computadores e chaves de fenda não podem realmente os ouvi-los (mesmo gritando), mas as pessoas não conseguem parar de fazer isso.


6. Necessidade de um Propósito


Parece que temos uma capacidade natural para enxergar finalidades para as coisas, como por exemplo, os coelhos podem ter muitas finalidades, eles comem grama, fazem buracos, são usados em shows de mágica, fazem mais coelhos (obviamente), se alimentam de raposas e assim por diante.

Parece que á natural sentir que tudo deve ter um propósito, mas para que servem seres aparentemente inúteis como vespas, por exemplo? As pessoas dirão que é apenas um animal insignificante, sem nenhum propósito, eles apenas "são".

A tendência de dizer que tudo tem um propósito leva a perguntas como: qual a finalidade da vida, da morte, do bem e do mal? Muitos filósofos argumentam que estas não são questões sensíveis, em parte por que são baseadas em pressupostos de que essas coisas "deveriam" ter um propósito. Se você insiste que as coisas tem que ter um propósito, e não enxerga qualquer propósito ou finalidade racional e lógica para tais coisas, então explicações sobrenaturais e sem sentido acabam servindo para que esse propósito seja explicado.


5. Crença na Justiça


As pessoas têm uma crença inata na justiça, principalmente quando se é mais jovem e inexperiente e se ouve muito a frase: "bem, a vida não é justa" de seus pais ou quem quer que seja. Embora a resposta-padrão seja de que a vida não é nem um pouco justa, o sentimento de que a vida deve ser justa está profundamente enraizada, assim como as superstições.

O professor Marc Beloff acredita que um senso de moral é construído no cérebro de todos os mamíferos, mas as pessoas simplesmente odeiam injustiça ou ilegalidade impunes (e estes são fatores preponderantes em diversas religiões com hábitos punitivos). 

É bastante desagradável pensar que as maiores "chamas" da religião provenham da esperança de que as pessoas "más" sejam realmente punidas, se fazendo justiça. Mas se sabe que não é bem assim. Longe disso.


4. Esperança de Vida Após a Morte


Quando alguém morre e as fases de luto são vividas, a pessoa se sente totalmente injustiçada pelo fato de que uma vida pela qual se importa foi tirada do seu alcance. Parece tão errado, tão injusto, tão impensável que justo alguém que amamos e nos importamos está perdido ou morto.

Quem não gostaria que fosse verdade que veríamos essa pessoa novamente, em algum outro lugar? 

Tal como acontece com muitas dessas questões, a nossa mente lógica pode pensar que devemos simplesmente viver nossa vida, e que estar consciente dela é o suficiente. Mas sabemos que isso não é verdade, pois não vivemos isolados e nos importamos com outras vidas tanto como a nossa. Mas nossa mente lógica não é a única coisa que move nossas crenças, e tendemos a supor que encontraríamos o ente querido que perdemos em um mundo distinto ao qual não conhecemos.


3. Adoração a um Líder ou "Seguidor"

Qualquer grupo de gorilas machos possui um líder dominante entre eles, sem exceção. Tal gorila defende o grupo de ameaças, se candidata a uma fêmea potencial antes do restante do grupo, costuma ser o mais forte e geralmente é o mais respeitado por sua autoridade natural proveniente de características que o tornam peculiar, seguido, e admirado.

Os seres humanos não vivem assim, como se sabe, pois costumam viver em grupos relativamente grandes, particularmente maiores em comparação com gorilas e outros primatas, e nós não temos, pelo menos que se saiba, um homem de poder extremo e onipotente atuando no papel de um líder, mas existe uma teoria evolutiva que diz que todos nós, por motivos puramente biológicos e adaptativos, sentimos falta da presença de um líder legítimo.

Há um monte de comportamentos religiosos que são idênticos à condutas de submissão a um macho dominante (olhos baixos, há calma e respeito em sua presença). A diferença é que nosso "macho dominante" não existe de fato.


2. Experiências Espirituais e Psicodélicas


Povos indígenas na América do Sul tomam o Ayahuasca há muito tempo, desde a descrição da erva por missionários europeus no século XVI.

O Ayahuasca é aparentemente fácil de preparar, supondo que você tenha acesso a uma floresta tropical, ferva um pouco de água e aqueça as específicas folhas esmagadas para consumo. É difícil de surtir o efeito em sua potência máxima, mas usuários descrevem esses efeitos como responsáveis por grandes mudanças de vida, experiências espirituais e psicodélicas sob a influência das substâncias químicas presentes nas plantas, responsáveis pelos efeitos transcedentais.

Os seres humanos não mais estranham drogas psicodélicas; há evidências de cogumelos que ofereciam experiências mágicas datadas de tempos pré-históricos, e acredita-se que as religiões primitivas eram uma tentativa, das mais válidas, de explicar as experiências psicodélicas de certas drogas.


1. Proteção


Embora seja difícil saber ao certo de que maneira o comportamento religioso se desenvolve, há geralmente uma das duas razões pelas quais ele sobrevive, ou o comportamento fornece um benefício ou é um efeito colateral de algo que proporciona um benefício.

Á primeira vista, religião é um fenômeno evolutivo, ao passo que sacrifícios humanos e guerras religiosas, por exemplo, são fenômenos históricos, e por consequência também evolutivos, então, como poderia uma simples crença religiosa sobreviver ao intenso processo evolutivo?

Uma teoria, bem longe de ser factual, aponta que uma crença religiosa aproxima e une as pessoas, permite que vivam juntas, em comunidade, sem matar umas às outras.

É bastante provável que os primeiros seres humanos viviam em grupos relativamente pequenos, mas começaram a habitar grupos maiores com a invenção da agricultura, o que os forçou a viver juntos, em comunidade.

Para configurar uma mudança de um grupo pequeno para comunidades maiores, uma crença religiosa poderia muito bem ser o motivo de tais entrelaçamentos entre indivíduos, formando grupos com valores e crenças comuns. Um ponto interessante dessa teoria de aceitação comum é que não importa o que as crenças religiosas são e o que possam significar, mas é importante que todos da comunidade acreditem na mesma coisa.

Isso pode explicar algumas das crenças bizarras nas religiões.