terça-feira, 13 de agosto de 2013

A Janela de Overton

O administrador do site Café Brasil, Luciano Pires, fala sobre a Janela de Overton, termo criado em homenagem a Joseph Overton, vice-presidente do Mackinac Center de desenvolvimento de políticas públicas nos Estados Unidos. 

Nos anos 90, J. Overton criou um modelo que mostra como as opiniões públicas podem ser mudadas intencionalmente e de forma gradual por um grupo de pessoas quaisquer (os tais think tanks). Ou seja, ideias que antes pareciam impossíveis são "plantadas" na sociedade, e com o tempo, se transformam até mesmo no oposto do que eram antes.

Luciano fala que se imaginarmos qualquer assunto social/político (aborto, casamento gay, descriminalização de certas drogas, aquecimento global, armamento, etc), percebe-se que para cada um desses temas existe um espectro de ideias que variam entre as distintas opiniões de pessoas dentro de grupos sociais. Essas opiniões vão de um extremo ao outro (do pensamento mais radical ao mais liberal).

A janela de Overton é o leque de ideias "aceitáveis" dentro da sociedade, ou seja, a posição de certas pessoas (amostras da população geral), em relação a um determinado assunto presente no cotidiano dessas pessoas. Esses temas geralmente costumam ser bastante polêmicos e geram discussões infinitas, criam tabus e estereótipos e são assuntos debatidos em praticamente qualquer grupo social impactado por essas questões.

Se alinharmos as posições a respeito de quaisquer desses temas polêmicos, pode-se criar uma escala de pensamentos (do mais radical ao mais liberal); e se tem algo assim: proibido; proibido com ressalvas; neutro; permitido com ressalvas; permitido livremente.

Luciano explica melhor, e cita alguns exemplos. A questão do casamento gay, por exemplo. Para esse assunto, a janela de Overton esteve na área do "proibido" durante anos. A sociedade não podia aceitar de modo algum a ideia de um casamento gay. Com o passar dos anos, com a discussão do tema e as frequentes exposições de argumentos em favor dos gays na mídia, a janela de Overton foi se deslocando de "proibido" até "neutro", até chegar onde está hoje: "permitido com ressalvas". E em breve, provavelmente passará para "permitido livremente".

A questão das drogas também. O consumo de drogas tem a janela de Overton posicionada entre "proibido" e "proibido com ressalvas". A exposição do assunto, e a atividade dos militantes pró-descriminalização está deslocando a janela em direção a posição "neutro". Tendo a opinião pública uma maior tolerância com a ideia da descriminalização, mais facilmente ocorrerá uma flexibilização das leis, e a janela então se deslocaria mais facilmente para "permitido com ressalvas", e também possivelmente para "permitido livremente"(aqui no Brasil, pouquíssimo provável).

É no deslocamento da janela de Overton para posições que sejam do interesse de determinadas pessoas que está sendo aplicado um esforço profissional, e não apenas discussões inconsequentes. Esse esforço profissional é o que se convencionou chamar de engenharia social. Os engenheiros sociais (os tais think tanks), são pessoas comuns dentro da sociedade. 

Luciano afirma que a engenharia social é o ato de influenciar pessoas para que executem algo que não seja necessariamente de seu melhor interesse, conceito muito similar ao da persuasão. Segundo ele, houve no passado uma tendência de localizar a engenharia social na área de gerenciamento de informação, especialmente em ações relacionadas à internet, mas ela é mais abrangente do que isso. Envolve todos os segmentos da sociedade.

O interessante é que quaisquer pessoas podem atuar como engenheiros sociais em seus grupos de influência. Pode ser você, eu, seu chefe, namorada, qualquer um. Toda vez que você tenta fazer com que alguém faça alguma coisa que seja de seu interesse (que seja apenas você), está executando uma ação de engenharia social. Pires cita uma frase de Edward Bernays, nome importante na área de propaganda e relações públicas em seu livro "Propaganda"; que diz que "se entendermos os mecanismos e motivações da mente de grupo, é possível controlar e reger as massas de acordo com nossa vontade, sem seu conhecimento".

Bernays cunhou o termo "engenharia do consentimento" para descrever sua técnica de controle das massas: " A manipulação consciente e inteligente dos hábitos organizados e opiniões das massas é um elemento importante em uma sociedade democrática (...) Aqueles que manipulam esse mecanismo oculto da sociedade constituem um governo invisível que é o verdadeiro poder do nosso país (...). Em quase todo ato de nossa vida diária... nós somos dominados por um número relativamente pequeno de pessoas que compreendem os processo mentais e padrões sociais das massas. São eles que puxam os fios que controlam a mente do público".

É fato que quem controla a mídia, controla o poder. E como diz Luciano, é por isso que nosso "querido" governo nunca desistiu da ideia de controle total da imprensa, mas nisso tem enfrentado violenta oposição de emissoras de influência dominadora, como a Rede Globo.

De acordo com Pires, será preciso criar um apelo popular (algo dramático) para se criar, no calor desses eventos, uma censura que não pareça uma censura. Ou pelo menos seguir o caminho que já está se tomando, de ir aumentando o controle do Judiciário e ir estrangulando e eliminando o jornalismo inquisitivo, de denúncias.

Outro exemplo atual da janela de Overton, aplicado a ação de engenharia social citado por Luciano, é o seguinte: o ministro de Marketing João Santana achou que realizar a Copa do Mundo e as Olimpíadas em nosso país seria uma excelente jogada política. Imediatamente surgiu uma reação contrária a fazer os torneios aqui, daqueles que sabem que precisamos resolver problemas básicos de saúde, educação, infra-estrutura do que investir bilhões na construção de estádios.

Os engenheiros sociais observaram essa situação e resolveram, então, evitar qualquer menção ao deslocamento do dinheiro de uma área prioritária (recursos básicos do país) para outra não prioritária (realização dos torneios no país), e, usando a imprensa, desviaram a discussão na mídia para o orgulho do brasileiro (para a oportunidade de mostrar ao mundo como somos "bons", competentes; afinal, uma Copa do Mundo e uma Olimpíada demandam estrutura de qualidade para que os eventos possam ser realizados).

Como relata Pires, na mídia transformaram os "contra a Copa" em anti-brasileiros, pessimistas e mau-agourentos (por desprezarem a importância e a reputação agregadas de um país que sedia um torneio da maior magnitude do futebol, de um lado; mas também por considerarem que é mais importante a longo prazo para o país que se dedique plenamente os esforços para evolução de recursos básicos e de serviços, por outro lado).

Aconteceu então que anestesiaram grande parte da massa da população (até ficar claro que não haveria investimentos direcionados prioritariamente para recursos e serviços básicos, e sim para a construção de uma infraestrutura adequada para a realização da Copa e das Olimpíadas, inclusive com os orçamentos dos gastos excedendo o esperado e as contas explodindo). Então, a janela de Overton voltou para a posição de "proibido  com ressalvas", e os indignados foram as ruas....

Nesse caso da Copa e das Olimpíadas, na janela de Overton haveria um deslocamento do "proibido com ressalvas" (contra os eventos no país), para o "neutro" ou o "permitido com ressalvas". A janela poderia voltar para "proibido com ressalvas" novamente, como se viu que voltou, mas no atual contexto a janela fica na área entre "neutro" e "permitido com ressalvas", na minha opinião. 

E também pode-se dizer que para este caso a escala de "permitido livremente" ou "proibido" seria inviável, então o encobrimento da mídia (tratando os eventos como estratégia para apontar os holofotes para a reputação e o status brasileiros; e encobrindo os danos cada vez mais arruinados dos serviços públicos e recursos básicos para o brasileiro) aconteceria como sempre acontece.

Luciano lembra que funciona assim com todos os grandes temas polêmicos. 

A janela se desloca conforme a conveniência da mídia (pequeno grupo de pessoas), quando em manipular e controlar a mente das massas.   

O administrador do Café Brasil concluí que a "engenharia social não é de direita, de centro ou de esquerda. É de todos. Pisque e você será manipulado".


O link para acessar o site de Luciano, Café Brasil, e ver vários artigos e podcasts  com temas como esse é: http://www.portalcafebrasil.com.br/

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