sábado, 17 de agosto de 2013

[Conto] Refúgio da Noite - O Prisioneiro (Episódio II)

Dimitri foi o primeiro a sair do salão, depois de participar de uma reunião com todos os oficiais do exército do Velho Distrito. Era mais uma daquelas reuniões de fachada que aconteciam naquela fortaleza, de onde nunca saia nada de produtivo e as pessoas apenas criavam mais discórdia entre si. 

Ele deu um suspiro devido ao calor insuportável que fazia naquela estação do ano, onde o sol atingia as árvores mais negras e distantes no meio das montanhas e ninguém se dava conta da presença do vento. E ainda usava aquelas roupas que lhe queimavam por dentro.

O capitão limpou o suor da testa e do pescoço e caminhou por um grande corredor, virou à esquerda e seguiu direto para o centro da fortaleza. Um garoto veio correndo em sua direção.

- Capitão! O prisioneiro já está sendo punido na praça central. - avisou o menino enviado por alguém.
- Prisioneiro??
- Sim, já foi amarrado ao poste.

Dimitri não estava entendendo absolutamente nada. Não ficara sabendo de nenhum homem capturado e ainda mais que estava sendo castigado. Confuso, decidiu ir até a praça para presenciar por si mesmo.

Chegando lá, ele viu algumas pessoas que também caminhavam por ali e paravam, com as mãos na cintura, largando suas sacolas e mochilas no chão e levantando as cabeças para ver melhor a figura de um homem todo nu. O homem, que não devia passar dos 30, estava preso por várias voltas de corda a um poste de madeira com a espessura de um tronco grande de carvalho. O homem mantinha a cabeça abaixada.

Ao seu redor, um grupo de homens que Dimitri reconheceu como soldados da infantaria cercava o prisioneiro.

- E então! - disse um dos soldados. - Está pronto para pagar pelo que roubou?

O homem levantou a cabeça e olhou para o soldado.

- Posso trabalhar para compensar o que peguei. - respondeu o prisioneiro.
- Bom, bom. Força de trabalho. Precisamos mesmo de mais homens de serviço por aqui. - disse um soldado.
- Você pode servir pra alguma coisa mesmo, mais por enquanto se contente com o chicote. - disse outro soldado, retirando de uma mala preta a seu lado um chicote cinza com dois espigões espinhosos nas pontas.

O prisioneiro empalideceu na hora, quando viu o chicote. Já sentia na pele os rasgos das feridas. Começou a tremer. 

- Deixe-me ver....5 peças de carne...10 peças de queijo....8 pães, contando que deve ter comido uns 2 já....e quantas garrafas de vinho?? Deixa eu ver.... só 2 garrafas. - um soldado abria um saco branco e tirava as coisas de dentro.
- Quando você ia pagar por isso? - perguntou outro soldado, de longe.
- Quando minhas filhas e minha mulher parassem de reclamar de fome, todo dia, senhor. - disse o prisioneiro.
- E pegando essas coisas da nossa despensa você resolveria esse problema...entendi. Fácil, não? Mas você deve saber que sempre há um preço a se pagar pelas coisas. Acho que deve saber, né.
- Sim, senhor. Mas imaginei que não faria diferença para a fortaleza eu pegar eu pouco de alimento.....afinal, lá dentro tem mantimentos pra quase toda uma estação, eu diria. 
- Ah, mas você se esquece de uma coisa. Temos um exército que também reclama de fome, não apenas sua família. Precisamos comer, senão, como poderíamos agir em defesa de nosso distrito? Em defesa de nossos cidadãos? Em defesa de sua família?
- Eu nunca me senti protegido nas ruas por causa de você e do resto dos homens do exército, soldado. Nem eu nas ruas e nem minha família dentro de casa. Com os recursos que temos a nossa disposição, me impressiona o fato de todos os homens de família do distrito não precisarem assaltar a cozinha da fortaleza todos os dias. 

Dimitri entrou no pequeno cerco de soldados, e ficou de frente para o prisioneiro. 

A essa altura, já havia uma multidão aglomerada pela praça, todos curiosos e atentos.

- O que está acontecendo? Soldado? - quis saber Dimitri.
- Senhor. - se virou um dos soldados. - Este homem violou as leis de nosso distrito e cometeu um crime. 
- Qual é a acusação?
- Roubo. - respondeu o soldado, chutando a sacola branca para perto de Dimitri. - Tudo isso aí. Ele estava vestido como um de nossos cozinheiros e foi encontrado saindo da despensa com esse saco na mão. Uma moça, acho que da limpeza, o viu e nos avisou.

Dimitri olhou o interior do saco.

- Minha família pode estar morrendo de fome nesse exato instante, meu senhor. - dizia o prisioneiro a Dimitri. - Não aguentava mais a angústia nos olhos de minhas filhas. Minha esposa não sai da cama. Se não fizesse alguma coisa, eu iria enlouquecer as vendo assim sofrendo tanto.
- Você trabalha? - perguntou Dimitri.
- Trabalhava, senhor. Fui vítima de um golpe de desertores enquanto participava de um jogo de azar estúpido em uma taverna a qual trabalhava nas madrugadas. Os homens botaram alguma coisa na minha bebida, eu não pensava mais por mim mesmo. Eles me fizeram levá-los até minha própria casa. Bateram na minha mulher. Levaram tudo que eu tenho. Me sobrou uma chaleira, algumas xícaras e pratos, meio saco de carvão. Minhas filhas estão dormindo comigo e minha mulher. E agora o dono da taverna também não me quer mais por lá.
- Não me importa se você foi idiota o suficiente a ponto de deixar uns homens te enganarem tão facilmente no mesmo local em que trabalha e ainda te roubarem assim. E até acho que você está mentindo!! - disse um dos soldados.
- Pode ir agora em minha casa e ver por si só, senhor. Se encontrar qualquer coisa a mais do que lhe falei, deixo que corte minha cabeça com um só golpe daquele machado. - falou o prisioneiro, apontando para um homem gigante encostado em uma parede, segurando um machado afiado, que daria para cortar toras com até 2 metros de diâmetro.
- A sua cabeça não sei se vale a punição. Na verdade meu julgamento já foi feito desde antes de você começar a falar. Por mim você receberá 100 chibatadas nas costas. Se quiser, ainda pode escolher outro lugar do corpo para dividir as feridas. Nas costas e talvez...no peito também, ou nas coxas, hahaha. E se me disser o que poderia fazer para provar qualquer merda que está dizendo, eu corto sua cabeça mesmo. Ou melhor, ele corta. - e o soldado apontou para o gigante que parecia estar entorpecido enquanto segurava o machado imenso.

Das centenas de pessoas aglomeradas na praça, ninguém havia dado nem uma só manifestação. Apenas alguns gritos aleatórios e choros de crianças mimadas. As pessoas permaneciam atentas ao prisioneiro e aos soldados ao redor e prestavam atenção constante ao que falavam. 

Rajadas de vento açoitavam os cabelos negros emporcalhados do prisioneiro.

- Acho que a situação está bem clara para mim. - começou a falar Dimitri para o soldado que alegara a punição. - Soldado Colt, este homem cometeu uma violação grave, de fato. Mas não podemos deixar de esquecer que ele, assim como praticamente todos os homens de família desse distrito, assumiriam o roubo como uma condição única de sobrevivência. 
- Está dizendo que todos os necessitados teriam direito a entrar em nossas cozinhas e levar o que bem entendessem? E que todos da fortaleza deviam baixar a cabeça e deixar que sua comida e bebida fossem levados por eles como uma forma de oferenda para a condição subjugada que vivem? Não somos responsáveis por todos os homens de família que não tem capacidade para sustentarem seus filhos e esposas, capitão!
- Você tem família, soldado Colt? - perguntou Dimitri.
- E o que minha família tem a ver com isso, capitão?
- Você tem uma família.
- Sim, tenho um casal e Belle, minha mulher.
- E onde eles estão agora?
- Devem estar em casa, a esta hora. 

E algumas pessoas olharam para o céu, que já havia escurecido. E era o que Dimitri queria, a vinda da noite.

- Você espera que elas estejam.
- Claro que espero. Onde mais elas estariam a uma hora dessas?
- A questão não é onde elas estão, mais se elas são. - e o soldado Colt franziu o cenho.
- Capitão, me desculpa, mas não estou entendendo merda nenhuma.

Dimitri olhou para seu relógio de cristal que usava apenas na parte do dia. Ele olhou para o céu e viu o negro. Então retirou o relógio, não antes de dar uma olhadela nele ao colocá-lo em um de seus bolsos da capa.

- Daqui uma hora você espera chegar em casa, ver seus filhos, ficar com eles e com Belle, é claro.
- Com certeza, capitão Olic. Acho que eu mereço isso após passar o dia inteiro trabalhando. Eu e todos que também batalham por suas famílias. Diferente dele, que acha que pode fazer isso às custas dos outros, e ainda deixa sua família morrendo desse jeito. - e Colt apontou para o homem preso.
- Está dizendo que eu não batalho por minha família, seu verme do caralho? - perguntou o prisioneiro, indignado.
- Do que me chamou, seu miserável? - e o soldado Colt tirou um porrete de seu cinto.
- Soldado Colt! - bradou Dimitri, e Colt parou na hora. - Estava terminando de falar com você. - alertou o capitão.
- Desculpe, capitão. - falou Colt, guardando o porrete e cuspindo no chão em frente ao prisioneiro.
- O que estou querendo dizer não é que o homem esteja certo, e pode ter certeza de que seu julgamento é válido. Mas terei que anular seu veredicto, Colt.
- Senhor! Irá deixar este homem roubar nossa comida e voltar para casa só porque usa a família para encobrir sua invalidez e vagabundagem?
- É fácil condenar um homem pelas suas ações, quando você detém o poder de uma pessoa da sua posição. Mas Colt, esse rapaz nunca ofereceu perigo a ninguém nesta praça, desde que eu o vi, pelo menos. E estou convicto de que seu julgamento foi feito de maneira prévia e errada. Você está tranquilo, porque quando sair daqui irá voltar para o aconchego de seu lar e de sua família, mas esse homem nem tem certeza se sairá daqui vivo. E ele não veio aqui buscando salvar sua própria vida. Veio por causa de sua mulher e suas filhas. Não acha que voltar para casa de mãos abanando e poder encontrar sua família semimorta de fome já não é um castigo desolador o bastante? Chibatar o corpo desse rapaz 100 vezes irá te deixar mais tranquilo quando for dar um beijo de boa noite na testa de suas filhas e de sua mulher hoje, antes de dormir??

O soldado Colt enrubesceu. Sentiu que todos os olhares da praça se voltavam para ele. Abria e fechava a boca, como um peixe sedento por água.

- Mas é claro que não ficaria mais tranquilo, capitão. Só estaria cumprindo o regulamento da fortaleza, como tenho certeza que o senhor conhece, até melhor do que eu.
- O regulamento são frases escritas em um papel. Apenas isso. De nada serve o regulamento fora dessa fortaleza. Você diz que eu conheço as regras e leis, e conheço sim, todas elas. Afinal, meu pai foi um dos legisladores que as desenvolveram. Mas eu conheço a vida fora desse lugar, nas ruas, muito mais do que você soldado, também pode ter certeza, conheço o suficiente para perceber o grau de miséria, caos e desolação que bate na cara das pessoas. E você não é uma delas.

Dimitri se virou para o prisioneiro.

- Você gostaria de voltar a trabalhar na antiga taverna? - perguntou Dimitri.
- Gostaria, senhor. Qualquer coisa que me dê condições de pôr algumas batatas e leite na mesa de minha casa, e poder pagar por algumas roupas e cobertores para manter-nos aquecidos. Gostaria de voltar, mas duvido que Howard me aceite de volta na taverna.
- Não vai ser necessário incomodar Howard e sua taverna. - disse Dimitri. - O que você sabe fazer, rapaz?
- Se me permite, senhor capitão. Meu nome é Sven. Poderia fazer qualquer coisa que me pedisse, capitão. Não há nada que eu não possa aprender, se isso significar uma vida mais digna.
- Desculpe, devia ter perguntado seu nome, Sven. Pois bem. Você trabalhará como ajudante de Colt.
- Mas...senhor...capitão. O soldado Colt queria me açoitar. Como ficarei tranquilo trabalhando para ele, quando poderia apanhar a todo instante?
- Eu me certificarei de que você será bem tratado. - e Dimitri olhou para Colt, antes de se voltar para o prisioneiro novamente. - Tirando isso, Sven, você irá respeitar todas as ordens de Colt, e participará de todas as fases de treinamento. Acatará todas as ordens que lhe forem dadas, pelo menos até eu nomeá-lo como um oficial registrado, caso se mostre competente para o cargo. - ditava Dimitri. - Soldado Sedge! Peço que desamarre o prisioneiro, por gentileza. - pediu Olic.

E Sedge obedeceu, liberando o rapaz das amarras.

- Recruta Sven! Sua primeira tarefa eu mesmo vou lhe passar. Leve este saco para a cozinha e coloque na despensa todas as coisas que pegou, na ordem exata em que estavam. Depois, volte aqui, pois quero que me acompanhe até minha sala. - falou Dimitri.
- Sim, capitão. Deus te abençoe por possuir um coração tão nobre. Não poderia estar mais feliz.
- Deus não pôs alimento da boca de suas filhas e nem cobertores em cima de seus corpos enquanto tentavam dormir com a ventania gelada da madrugada batendo na cara ou quando queriam comer. Deus não veio até aqui tentar salvar a vida deles. Você que veio. Mas você pode pensar que Deus me enviou aqui e fez com que eu visse que você tem potencial e capacidade para ser alguém mais digno do que apenas um ladrão. Estou certo, Sven?
- Farei com que esteja, capitão.
- Colt, supervisione a volta de Sven e o acompanhe até minha sala. - disse Dimitri para o soldado, e se voltou para Sven. - E não pedirei isso por suspeitar de sua palavra, Sven, mas apenas por garantia de que não estou pondo em risco meu julgamento pessoal frente a todas essas pessoas. Me dê a chave de sua casa.
- A chave de minha casa? Mas....sim, claro capitão, pegue.
- Apenas por garantia, Sven. Amanhã lhe devolverei sua chave. 
- Estou saindo com um emprego nas costas, capitão. Não poderia ter desejado nada melhor que isso. Poderei dar uma condição mais digna para Belle e as crianças.
- Na verdade, o que você desejou agora a pouco parece ser inútil, não? Um saco com comida. Já parou pra pensar que uma hora a comida do saco iria acabar, e depois disso sua família voltaria a passar fome? E então você entraria num círculo vicioso de roubo, pois apenas essa alternativa lhe seria óbvia. Mas agora você tem bem mais que isso, tem a chance de levar vários sacos deste e comprar o que seu coração desejar com os esforços que fará pela fortaleza. Trabalhará por uma devida recompensa.

Após a decisão da contratação do prisioneiro, a maiorias das pessoas na praça começou a cochichar, para todo lado. Uns eram a contra a decisão, e não chegavam a se manifestar para Dimitri, como o capitão sabia que não o fariam; e outros, a maioria dos presentes, bradavam alto que nunca haviam visto um julgamento tão alternativo quanto este, em que a punição seria uma carreira de trabalho e a possibilidade concreta de um homem conquistar sua dignidade, em vez de ser castigado, como seria racional.

Dimitri não se lixava para o que as pessoas pudessem pensar sobre sua decisão. E ele não cogitou reconsiderá-la uma vez sequer. Viu o prisioneiro pegar a sacola branca com os alimentos e acompanhar duas mulheres que o guiariam em direção às cozinhas.

- Capitão. - chamou Colt.
- Colt.
- Você não tem medo do risco que esse homem poderia causar por aqui?
- Eu tenho mais medo do que vejo lá fora, Colt. Quando o rapaz contou sua situação, apenas memorizei o rosto de meu irmão. E sabe porque? Pois ele morreu de hipotermia, causada pelo frio e pela inanição.
- Capitão.... me desculpe.
- Tolice sua me pedir desculpas. Sabe porque estou lhe contando isso, soldado? Não é para que você me transmita solidariedade e nem apoio por eu não contar mais com meu irmão. Isso não me ajudaria em nada, pois eu o perdi, e por uma vez só, já é o suficiente para que seja relembrado. Estou lhe contando isso para que você se lembre quando abrir a porta de sua casa e ver sua família saudável e feliz, à sua espera. Quando você ver os sorrisos nos rostos deles. 
- É só o que o rapaz queria, também. Não é?
- Exatamente, Colt. Acho que não será preciso que eu lhe dê a ordem de acompanhar esse rapaz e ajudá-lo, para que ele possa evoluir aqui dentro e possa ver também o sorriso no rosto da família dele outra vez. Acho que todos merecemos isso nesse mundo. Principalmente aqui, nesse distrito esquecido.
- Sim, capitão Dimitri. Me responsabilizarei por ele.
- Ótimo. 
- Senhor, se me permite....uma pergunta.
- Sim.
- Daqui a pouco voltarei para casa, assim como todos aqui dentro, e poderei ficar um pouco com minha família...e como você bem disse...ver a alegria em seus rostos...isso é confortador.
- Sim.
- Você também verá sorrisos nos rostos de quem você ama quando sair daqui, não é?
- Infelizmente, não, Colt. Devo ver muitos rostos tristes e desesperançados por aí esta noite, como quase sempre vejo. Como vi no rosto desse rapaz, ao chegar na praça. Mas quando você os permite sorrir e ter esperança outra vez, quando você pode os permitir a isso, então.... a vontade de voltar para algum lugar me desaparece. - falou Dimitri, sorrindo.

E Colt deu um risinho também, mas apenas para acompanhar o capitão. 


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Este é o 2º capítulo da série Olic, criada por mim. 

O prelúdio e o 1º capítulo da série podem ser lidos também no Blog, pelos links a seguir:

Prelúdiohttp://frameinsights.blogspot.com.br/2013/07/refugio-da-noite-preludio.html  

1º Capítulohttp://frameinsights.blogspot.com.br/2013/08/refugio-da-noite-o-mendigo-e-mulher-cap.html

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