segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Hole in The Wall

No extremo sul de Nova Delhi, na Índia, em 1999, Sugata Mitra e sua equipe de pesquisadores esculpiram um grande buraco na parede de uma favela em uma região subdesenvolvida. No lugar do buraco aberto, eles colocaram um computador Pentium de alta potência e com alta velocidade de conexão de dados e banda larga, e câmeras de vídeo escondidas foram instaladas para gravar o ambiente.

Eles estavam realizando o experimento chamado de "Hole In The Wall" (ou buraco na parede).

Veja que, ao lado daquele buraco feito na parede onde foi instalado o tal PC, havia uma fronteira entre a favela e um terreno baldio cheio de lixo e barro, que era usada pelos pobres e mendigos como depósito e banheiro público. As condições do local, então, eram bastante degradantes e escassas. 

Mitra e seus pesquisadores simplesmente resolveram deixar o PC ligado ali naquele local que antes fora uma parede, no meio da favela. Deixaram o PC ligado e conectado à internet, e permitiram que qualquer morador da comunidade o usasse. 

O indiano e sua equipe deixaram o local, e depois analisaram as imagens gravadas.

Eles descobriram que os usuários mais ávidos da máquina eram crianças do gueto, de 6 a 12 anos, e principalmente garotos. Com algumas horas de uso do PC, as crianças aprenderam a mover o mouse e digitar, e, depois de apenas algumas semanas, elas tinham aprendido a usar o computador e grande parte das ferramentas, usar a internet e inclusive feito vários processos on-line. Não demorou também para que as crianças começassem a transmitir seus conhecimentos entre elas, ajudando umas às outras. Ou seja, as crianças aprenderam por elas mesmas.

E fizeram isso sem qualquer contato com professores ou outros adultos.

Os resultados surpreenderam Mitra, que então reconheceu um insight para a área da Educação. Ele resolveu utilizar seu experimento Hole In The Wall como aplicação de um método de aprendizagem revolucionário e extremamente inovador, que conceituou de "educação minimamente invasiva".

Mitra estava convencido de que crianças, sejam elas de qualquer estrato social ou econômico; e sob condições impróprias, pudiam aprender a jogar, desenhar, escrever, aplicar técnicas, fazer processos, usar conceitos, resolver problemas, e o melhor, fazer isso individualmente e também trabalhando em equipe. 

As crianças aprenderam por elas mesmas, através da própria experiência; propagavam uns aos outros o que haviam aprendido, e desenvolviam novas ideias baseadas nesse processo, sem estarem presas à salas de aula ou a receberem instruções de professores e orientadores. Elas aprendiam apenas mexendo em máquinas (algumas crianças pensaram que o PC inicialmente era um monstro) que muitas delas nunca tinha visto antes.

O indiano chegou a conclusão de que o ambiente nas salas de aula podia ser melhorado ao deixar as crianças em condições de livre-arbítrio em que possam treinar a autonomia de pensamento, e as estimularem a aprenderem de uma forma pessoal, livre e interativa. 

Professores e adultos deveriam deixá-las então em rédea curta, nunca presas a um local que impeça seu desenvolvimento, o que se sabe que pouco acontece nas formas de ensino e aprendizado mais tradicionais.

Mas Mitra lembra que nem todos os conhecimentos são possíveis de serem assimilados por conta própria, apenas através de computadores ou outros recursos tecnológicos, e nesse caso outras formas de aprendizado (mesmo entre as mais convencionais) devem ser implementadas.

Porém, inúmeros conhecimentos, como os que foram percebidos pelas crianças durante os eventos do experimento, não deveriam ser transmitidos para os alunos e crianças em geral através de literatura informática, como se vê na maioria das instituições de ensino. Mitra afirma que qualquer instrução formal para esse tipo de conhecimento é puro desperdício de tempo e dinheiro, e que se poderia usar esse tempo e dinheiro para ter professores que ensinassem algo que não pode se aprender por conta própria.

Sugata Mitra atua em uma empresa de softwares e educação chamada NIIT, com sede na mesma cidade em que o experimento original do Hole In The Wall foi realizado, Nova Delhi, Índia. O professor ampliou seu projeto de aprendizado para vários outros pontos do país e de fora da Índia, onde a ideia da educação minimamente invasiva já foi implantada, gerando resultados extremamente satisfatórios no sistema de aprendizado de colégios e outras instituições de ensino.

Essa nova técnica de educação minimamente invasiva de Mitra pode ser chamada também de alfabetização funcional. A técnica permitiria o corte de vários gastos com professores, literatura e sistemas caríssimos que servem como subsídios para o aprendizado de certos assuntos, ideias, aplicações e conceitos que podem muito bem ser assimilados por conta própria, em vez de serem estudados por esses meios de instrução formal.

A ideia do indiano foi considerada tão inovadora que ele acabou vencendo o TED 2013. (TED é uma fundação americana sem fins lucrativos, em que são realizadas famosas palestras que estimulam insights e disseminação de ideias, no mundo todo).

Ele apresentou duas palestras na conferência, que podem ser assistidas por esses links:  

http://www.ted.com/talks/sugata_mitra_the_child_driven_education.html
http://www.ted.com/talks/sugata_mitra_shows_how_kids_teach_themselves.html


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