sábado, 14 de setembro de 2013

[Conto] Refúgio da Noite - Aniversário (Episódio III)

A fortaleza de Mahri brilhava conforme a luz do sol pintava suas torres e paredes de pedra com uma cor viva e quente. As pessoas se mostravam atarefadas e distraídas ao redor de toda a grande propriedade e se limitavam a resolver suas responsabilidades. Era sempre dessa forma por ali.

Dimitri seguia o ritmo de trabalho. No momento, ajudava uma senhora a prender a corda que fixava o balde para pegar água de um dos grandes poços aquíferos dali. Ele recolheu o balde e o entregou à senhora, que lhe agradeceu por duas vezes antes de se retirar para a continuação da lavagem das várias pilhas de roupas imundas do pessoal.

Todas as pessoas eram instruídas a se comportarem como uma comunidade defensiva dentro de Mahri. Fazia parte do treinamento que cada um que morava na fortaleza recebia, um treinamento que não era novo. Essa tática vinha se mostrando eficaz a mais de 70 anos, quando o avô de Dimitri, na época, era o comandante do exército da fortaleza e implantou o sistema que viria a proteger o Velho Distrito até hoje.

Dimitri pouco se vangloriava da estratégia cautelosa que seu avô havia criado para a defesa e manutenção da fortaleza. Achava que o feito de seu avô era inteligente, sim, e funcionava, sem dúvida. 

Mas aquele velho sábio que fora seu avô se esquecera que o Velho Distrito mantinha dentro de si um sistema complexo.  A fortaleza de Mahri controlava esse sistema, servia como ponto de referência, marco da cidade, local que vinha na mente de todos quando o Velho Distrito era mencionado. 

Só que aquele sábio inteligente e perspicaz que fora seu avô se esquecera do que mais importava, que era criar soluções e tais "estratégias de segurança e desenvolvimento" para as pessoas de fora da região da fortaleza, nos subúrbios do distrito. Nas ruas.

Só que os habitantes daquela fortaleza pouco ou nada sabiam que fora daquela floresta empedrada, lá nas ruas, existiam as maiores manifestações de talento, arte e criatividade daquele distrito velho. Lá fora, onde o povo se fechava em reclusão e permanecia escondida nos cantos escuros. E era irônico pensar que pessoas tão desmotivadas dentro de Mahri se punham a mostra mais do que brilhantes seres humanos que se metiam nos cantos escuros das vielas, em isolamento. 

Esses moradores das ruas, ou "de fora da fortaleza", se escondiam de suas próprias vidas, que tinham potencial de serem fascinantes e ricas, mais valorosas do que aqueles seres julgavam valer a pena lutar para viver. 

Os moradores daquelas ruas evitavam o contato humano, e daí perdiam a oportunidade de expressarem cada um os seus ofícios de criatividade. Inúmeros músicos, dançarinos, desenhistas, pintores, atores, poetas, e a maioria deles não pudera expressar sua arte. Esses artistas obsoletos e levianos pareciam manifestar-se para si mesmos em vez de para os outros, se mantinham afastados do resto das pessoas, em vez de extravasar seus espíritos para que outras pessoas pudessem aproveitar de suas obras. E todas as pessoas que viviam naquele condensado de ruas, sem exceção, tinham medo de morrer a qualquer instante deviso aos perigos e às condições de vida.

Tirando a fortaleza de Mahri, o resto do Velho Distrito arrefecia e se desintegrava na mesma velocidade com que a fortaleza ostentava essa segurança e poder monopolizados. As ruas eram um mar de lixo, não havia profissionais responsáveis pela ordem e pela limpeza, a não ser os guardas que sempre incomodavam Dimitri durante suas excursões noturnas pelo distrito. E algumas pessoas que tentavam se mostrar educadas ao recolher sacos e papéis jogados ao vento.

Enfim, todos voltavam suas atenções para a glória das pessoas que habitavam a fortaleza e se esqueciam completamente, grande parte delas, do resto dos indivíduos daquele pico da Rússia que permaneciam vivendo nas ruas com a desproporcionalidade de condições. Plebeus e mendigos. Naquela civilização também haviam paradoxos sociais.

Dimitri vivia e viveria sua vida para as pessoas de fora da fortaleza. Para aqueles que ficavam do lado pobre do paradoxo. Cansado da mentira, da falsidade, da luxúria, da ambição, do egoísmo e do ar de superioridade que as pessoas da fortaleza demonstravam, ele se perguntava até quando teria que suportar o cargo de maior poder e responsabilidade de Mahri. Capitão. Dimitri possuía atitudes e era visto como um líder nato, pelo fato de suceder a posição de capitão por três gerações genealógicas e também por sua própria sensatez e imponência em serviço.

Ele não negava que com o poder e a influência que tinha poderia mover aquele distrito com a palma de sua mão. E ele o fazia, não naquele território estabelecido da fortaleza de Mahri, o fazia lá nas ruas, nos becos claustrofóbicos, dentro de grutas de pedra, embaixo de avenidas falhas por umidade e destrato, nos parques sem verde e pelas calçadas tortuosas afim. O fazia do seu jeito.

O capitão subiu as escadas intermináveis de uma das torres de Mahri, até chegar no penúltimo andar, onde ficava seus aposentos e o de sua irmãzinha, Anna. Dimitri deu quatro leves toques em uma porta verde musgo, e depois a empurrou lentamente. Ele a viu sentada ao lado da mesinha de cabeceira da cama.

A única fonte de luz que envolvia aquele quarto vinha de uma luminária que propagava uma luz amarelada, meio diferente, como se fosse a aura de um espírito ou um fantasma. Dava ao aposento um aspecto decadente e lúgubre, mas ao mesmo tempo acalentador e confortável.

A menina sentada ao lado da cabeceira levantou seu rosto, que antes se voltava para uma maquete na qual mexia, e olhou para seu irmão. Parecia surpresa.

- Dimi. - estranhou ela.
- Você estava ocupada? Que maquete é essa? - perguntou Dimitri a sua irmã, apontando para o projeto no chão.
- Achei na sala do Sr. Gorov. - respondeu ela, se referindo ao sub-comandante de Mahri, subordinado de Dimitri.
- E o que estava fazendo na casa dele?
- Eu conheci uma menina nos estábulos hoje, e ela me chamou pra ir na casa dela, pra ajudá-la a escolher um vestido lá que queria usar na festa do fim de semana. - disse ela, e Dimitri se mostrou convencido.
- Entendi. Amanhã vamos lá e quero que devolva essa maquete ao Sr. Gorov, Anna. É assunto de urgência e preciso que ele analise essa maquete pra mim. 
- Ok.

O capitão de Mahri olhou em volta pelo quarto. Anna se levantou, tocou a jaqueta negra de seu irmão e o abraçou carinhosamente. Logo depois, a menina se sentou em uma cadeirinha em frente a um grande espelho, iluminado internamente com lanterninhas brancas. A menina pegou um pente e começou a alisar seu longo cabelo escuro.

Dimitri se virou para a janela semi-aberta do quarto, que mostrava a fortaleza de fora pelo lado oeste, onde o sol sempre voltava para casa no fim de cada dia. Ainda estava claro, e nas ruas havia uma ou outra alma viva. Ele calculou que em uma hora estaria escuro lá fora. Escuro o suficiente para revelar as criaturas e seres que se mantinham escondidos de sua própria utilidade e de suas razões de viver. 

- Anna, vou jantar em meia hora com Marian. Quer ir comigo? Ela tem uma filha uns 3 ou 4 anos mais velha do que você. Pode ficar conversando com ela. - convidou sua irmã Anna para o jantar que marcara com a governanta-chefe da fortaleza.
- Eu já vi a filha dela?
- Acho que sim, Anna. Ela fica nos depósitos e armazéns ali atrás da cozinha principal. Ela ajuda o pessoal por lá. Enfim, queria que fosse comigo, porque depois do jantar pensei que podíamos dar uma volta.
- Por onde?
- Por aí. Quero te mostrar alguns lugares do distrito. E queria sua companhia também. Será muito pior se tiver que ir sozinho.

Anna pensou um pouco. Não era comum sair com seu irmão durante a noite. Aliás, não se lembrava de já ter saído com seu irmão quando o céu já estava negro. A garota não se importou muito em relutar com a novidade do convite.

- Pode ser. Vamos. - confirmou Anna, dando um risinho.
- Certo. Tome um banho e se arrume então. Passo aqui em uns 20 minutos.

Já no salão do refeitório, Dimitri e Anna encontraram com Marian, a governanta-chefe, e sua filha, uma menina de cabelos ruivos, bochechas gordas e que tinha um olhar simpático e extrovertido. Devia ter uns 16 anos, no máximo. Cumprimentou Dimitri e a irmã, e os quatro se sentaram na mesa.

Durante o jantar, Anna e a ruiva, que se chamava Megan, pareciam ter se dado bem o suficiente para que Anna convidasse a nova amiga para saírem a noite. No passeio com o irmão.

- Ah....não Relaxe, Marian. - interrompia Dimitri. - Eu e Anna vamos na casa do Sr. Gorov. Hoje ela quer ir comigo, sabe. Coisas complicadas pra resolver, são os negócios. Quero que ela aprenda alguma coisa. Mas não teria problema em Megan ir conosco.
- Hmm. Tudo bem. Megan? - perguntou Marian à filha ruiva.
- Vou com eles então. - confirmou a menina ruiva.
- Voltarão tarde? - preocupou-se Marian.
- Ah, não. Não vamos demorar muito. - respondeu Dimitri, mesmo sem ter a menor noção de que horas estariam de volta.

Ele procurou passar segurança a Marian, e então eles voltaram a se concentrar em seus pratos, até terminarem de jantar e o capitão fazer menção para as meninas se levantarem e eles saírem.

Marian se despediu da filha. A garota ruiva então seguiu Anna, que ia atrás do irmão para fora da selva de pedra da fortaleza de Mahri.

Saíram por uma porta meio oculta por trás da fortaleza. Ali por onde Dimitri saía todas as noites, sempre sozinho. Não mais.

Dimitri pensara em sua irmã e em como a garota ficava aprisionada em Mahri o dia inteiro, sem sair para andar, brincar ou para ir ao parque. Anna permanecia grande parte desse tempo em seu quarto, brincando à seu modo, se distraindo, passando o pente nos cabelos. E Dimitri achava que aquela rotina de Anna poderia prejudicá-la, pois a menina ficava muito presa e conversava pouco. As pessoas notavam a timidez em sua voz e em seus gestos, e sempre Anna aceitava tudo que lhe dizia e concordava com todos.

Os três chegaram à esquina de dois becos iluminados por lâmpadas falhas, vindas de altos postes na rua. Um cachorro olhou para Megan e começou a latir. Eles seguiram em frente e na próxima esquina, encontraram uma barraca. Um senhor que aparentava ter uns 80 anos, cabelos totalmente brancos em fios frágeis e que faziam mechas ao redor de sua cabeça meio careca, parecia fazer esforço redobrado para continuar empurrando a carroça pela calçada íngreme de paralelepípedos.

Um homem e uma menina surgiram pela rua perpendicular e foram em direção ao velho e sua carroça. O homem idoso parecia estar vendendo lanches recheados com algum tipo de carne escura que exalava um aroma até agradável. A menina, uma garotinha de uns 5 anos, puxou a roupa surrada do homem e sussurrou algo no ouvido dele. Depois, a menininha sentou-se na vala da calçada e o homem foi até o velho que vendia os lanches.

Dimitri também foi até o velho e o homem que acompanhava a garotinha. O homem conversava com o velho:

- ...não posso lhe dar. Não dá - dizia o velho.
- Juro que amanhã mesmo te pago dobrado. Só me diga onde costuma vender e te encontrarei lá. - dizia o homem.
- Se eu oferecer um lanche a cada pessoa que me pede na rua, sairia de casa e voltaria sem um tostão no bolso todos os dias. Sem contar os miseráveis filhos da puta que me roubam. Então saia daqui! - bradou o velho.
- Um lanche, por favor. - pediu Dimitri, mesmo sem estar com fome. - Quanto é?
- São 13 rublos. - respondeu o vendedor idoso.

O capitão esperava que o velho cobrasse mais. Naqueles tempos, qualquer um passava em cima uns dos outros para lucrarem e ganharem dinheiro. Dimitri estendeu a mão e entregou o dinheiro ao velho, que começou a preparar o lanche. Enquanto isso, Dimitri se dirigiu ao homem:

- Cheira bem. O lanche deve ser bom. Aquela ali é sua filha? - perguntou o capitão de Mahri.
- Sim.
- Estavam voltando para casa?
- É. - respondeu o homem, que estava com o rosto apático e bastante pálido.
- Você está se sentindo bem? - perguntou Dimitri, e Anna e Megan surgiram ao lado dele.
- Ah, estou sim, é claro. Que se foda também essa vida de merda! - exclamou o homem, se tornando excêntrico de uma hora para outra. - Não poder pagar um lanche para minha filha, e no dia do seu aniversário ainda. Não sei o que seria pior do que isso. Então...... se estou bem?? Eu acho que não. - o homem abaixou a cabeça.
- Quantos anos ela está fazendo?
- Hmm....6 anos. Tenho uma foto dela sempre em meu bolso. - disse o homem, tirando do bolso uma foto amassada e mostrando a Dimitri.

A foto retratava o rosto de uma menina alegre e gentil. Aparentava ter até menos do que 6 anos de idade.

- Me importa sim. Mesmo que não acredite. - falou Dimitri, e o homem pareceu se acalmar.
- É isso mesmo, ela faz 6 anos. Se chama Alice. E.... elas são suas filhas? - quis saber o homem, indicando Anna e Megan.
- Não, não. - mentiu Dimitri. - Estou dando uma volta com elas pelas ruas, sabe. Tomar um ar fresco.
Entendi.
- Toma! - gritou o velho, dando o lanche para Dimitri, que o pegou.
- Pegue. - ofereceu Dimitri, dando o lanche para o homem. - Hey, Alice! - chamou o capitão.

A menina olhou assustada para Dimitri. A garotinha estava com os olhos arregalados e parecia sentir frio. O pai da menina fez sinal de que estava tudo bem e Alice foi até eles. Travis deu o lanche a sua filha.

- Pegue.
- Obrigada. - agradeceu Alice, pegando o lanche e o mordendo imediatamente.
- Feliz aniversário. - disse Dimitri.

E então surgiu uma ideia na cabeça de Dimitri. Aquele lanche não poderia ser o único presente de aniversário de uma garotinha tão adorável. E era pior quando o próprio pai da menina não tinha como fazer do aniversário de 6 anos de sua filha uma data especial.

- Me chamo Travis. Seu nome, senhor? - perguntou o pai da menina.
- Meu nome é Dimitri. - disse Dimitri. - Travis, você mora em qual direção?
- Ao sul. Nessa rua em frente. - disse Travis, apontando reto seu indicador.
- Eu, minha irmã e a amiga dela ali estamos indo dar uma volta. - contou o capitão. - Vamos com a gente?
- Não posso, senhor...ah...Dimitri. Minha esposa me espera antes das 11. E já são quase 10:30. Melhor eu ir indo. - falou Travis.
- Entendo. E é aniversário de Alice. Sua esposa deve querer vê-la. Mas eu gostaria de verdade que você nos acompanhasse. Não demoraremos sequer uma hora. - mentiu Dimitri.
- Para onde pretende ir?
- Queria mostrar o parque Wooden e a Ponte Therion para Anna. E apresentá-la a um amigo também. E conheço pessoas que sempre passam por lá. Não será perigoso. - disse Dimitri, se referindo aos locais não tão longes dali.
- Está certo. Vamos até minha casa, e vejo se minha esposa deixa eu levar Alice também.

E a esposa de Travis não aceitou que sua filha de 6 anos ficasse longe dela, ainda mais na rua, a essa hora da noite, e bem no dia de seu aniversário.

Então, somente Travis acompanhou Dimitri, Anna e Megan. 

Ao chegarem ao parque Wooden, Dimitri os levou pela calçada até atravessarem a rua, ao invés de entrarem diretamente no parque. Uma ponte gigantesca fazia uma sombra que deixava um rastro de escuridão funda e negra abaixo de sua estrutura. A ponte era sustentada por pilares com uns 3 metros de diâmetro, recheada de ferro e aço. As vigas pareciam estar conservadas e bem fixas, mas Dimitri sempre suspeitaria das ruínas que aquela ponte poderia provocar.

O capitão os levou para um corredor praticamente oculto em um ponto abaixo da ponte. Seguiram por esse corredor, que se mostrou bastante longo. Travis tropeçou e caiu de cara no chão por duas vezes, até perder seus óculos. O corredor terminava em uma grande abertura, que estava bem iluminada. A luz parecia vir de lâmpadas elétricas ou archotes.

Passando pelo túnel e cruzando o outro lado iluminado artificialmente, Dimitri e os outros três avistaram uma cabana. Tinha formato idêntico às cabanas tradicionais de praia. Mas sua estrutura era de madeira rígida e não cederia a qualquer vendaval. Uma luzinha apenas estava acesa dentro da cabana, e eles ouviram um homem espirrando tão alto que pensaram haver um animal ferido dentro do local.

Dimitri riu alto e foi rapidamente até a porta. Tentou abri-la. Estava trancada, milagre. Então ele bateu forte na porta cinco vezes.

- Ei. Pra quê todo esse desespero, porra? - gritou o homem da cabana.
- Abre logo. - disse Dimitri.
- Só podia ser você, seu doido do caralho. - falou o homem da cabana.

Ele era bem baixinho, e bem gordo. Batia abaixo da linha dos ombros de Dimitri. Tinha um ligeiro bigode desproporcional às bochechas, que eram brancas e lisas, grandes como a de uma criança. O homem usava um avental comprido até os joelhos, e um chinelo verde todo estraçalhado, com um boné do lado da cabeça.

- Como vai, Hurley? - cumprimentou Dimitri.
- Estou bem, cara. Dei uma parada.
- Não está mais pintando?
- Estou sim. Mas não no mesmo ritmo de uns meses pra cá. Estou meio desmotivado também.
- E quem não está por estas bandas, Hurley? - o pintor gordo concordou com uma queda no olhar.
- Sim. Mas as vezes a brisa bate mais forte, sabe. E você prefere ficar na sua. Mas e você, como está? E quem são essas meninas tão lindas? - perguntou o pintor, deixando de notar Travis.
- Uma delas é a razão pela qual estamos lhe visitando. A outra moça é Megan, uma amiga. E aquele ali atrás é Travis, que é a outra razão pela qual estamos aqui. - explicou o capitão.
- Ah....tá. Sempre te entendo, Dimi. Hahaha, querem entrar? - convidou Hurley. - Mas não tenho quase porra nenhuma pra comer. Tenho uns charutos e umas garrafas de bebida.
- Não, não. Relaxe. Na verdade, vim aqui lhe pedir um favor. Um trabalho.
- Um trabalho? O que quer dizer? Uma tela? - e Dimitri fez que sim com a cabeça.
- A princípio era só uma mesmo. Mas agora seriam duas. Duas pinturas. - disse Dimitri.
- Porra, cara. Hoje estou cansado. Que horas são?
- 23:45.
- Pintar dois quadros na madrugada. - disse Hurley, olhando para o céu e notando as infinitas estrelas que piscavam em brilho. - E o que quer que eu reproduza?
- Quero que pinte o rosto de minha irmã. Anna? - chamou Dimitri, vendo a garota brincar com um cachorro vira-lata por ali.
- Oi.
- Venha aqui. - e Anna foi até eles.

Hurley olhou bem para Anna, como se estivesse a analisando. Processando a próxima imagem que fluiria para mais uma de suas telas. 

Anna usava um vestido vermelho, que realçava perfeitamente os contornos finos de seu rosto, denotando a cor clara da pele em contraste com a escuridão plena de seus cabelos lisos e totalmente penteados. A boca possuía lábios quase imperceptíveis, as sobrancelhas serviam como moldura para o cenário que fazia lembrar seus olhos. Duas fontes de luz azul que penetravam diretamente em quem a estivesse olhando. Olhar para Anna era o mesmo que ver o fim da linha no mar, lá no horizonte.

O pintor pareceu se sentir revigorado e bastante motivado, diferente do que havia confessado para o capitão. Olhar para Anna e saber que tinha a tarefa de produzir uma arte baseada na garota era confortador. Ele queria pintá-la.

- Confesso que estou admirado com a beleza de sua irmãzinha, Dimitri. Tenho certeza que ela irá lhe suceder como capitã. - afirmou Hurley.
- Eu acho que não, Hurley. Não conto com isso. Nunca contei. Não decido o futuro dela, mas posso decidir para quem passarei meu cargo, quando a melhor hora chegar. E não será para ela, disso não tenho dúvidas. Mas, indo ao que importa. Pinte o rosto de minha irmã e aplique uma moldura na tela, toda branca. Enquadre. - pediu Dimitri.
- Sim, sim. Devo ter alguns moldes. Telas e tinta não me faltam. Ok....mas você mencionou que seriam 2 obras de arte que iria querer. - lembrou Hurley.
- Sim. - e Dimitri retirou a foto de Alice. - A outra pintura é dessa menininha.

Travis ouvia com atenção a conversa do capitão com o pintor, e à referência de sua filha, se alarmou.

- O que acha da ideia, Travis? Levar um quadro emoldurado de sua filha, como um real presente de aniversário. Pode colocá-lo bem no meio da casa, para você e sua esposa se lembrarem sempre dela. E ela deve adorar.

Travis pareceu ofendido, como se sua vida tivesse sido invadida. Mas foi apenas um momento de tensão, em que o pai de Alice processara a informação de Dimitri. Depois Travis abriu um sorriso.

- Mas, Dimitri. Sabe que não tenho como pagar por uma obra de arte dessas.

- Eu sei. E deve estar se perguntando como me pagará a pintura. E eu te digo. Preciso de um homem para mexer com encanamentos e equipamentos hidráulicos na fortaleza. Se não for capaz de exercer essa função, lhe ofereço uma possibilidade de carreira no exército de Mahri, como cabo-iniciante. - disse o capitão.
- Já mexi em encanamentos, mas não muito com materiais hidráulicos. Já trabalhei mexendo com motores e suspensões, e em materiais para armas de fogo.

Dimitri ponderou sobre o que poderia tirar de útil daquele homem.

- O que acha de iniciar um trabalho nas oficinas mecânicas de Mahri? Você ajudaria a identificar nos nossos veículos panes de motor, falhas de ignição, tração das rodas, suspensão, e por aí vai. Mais pra frente, se você tiver espírito aventureiro, pode até chegar a compor um dos batalhões de formação do nosso exército. Motorista-chefe. Enfim, são várias possibilidades. O que me diz?
- Bem, estou sem trabalhar a mais de 3 meses. No ano que vem quero ter dinheiro suficiente para comprar um presente digno para Alice. Um presente que ela não se esqueça. 
- Então...
- Conte comigo.
- Ótimo. Depois conversamos melhor sobre isso. - falou Dimitri. 

O pintor pediu para Anna se sentar em uma pequena cadeira de madeira, no meio de uma campina esverdeada ao lado de sua cabana. Ele posicionou uma tela com quatro pés, à uma distância de uns 3 metros de Anna. Foi buscar uma mesinha, também de madeira, e nela colocou um estojo cheio de pincéis dos mais variados tamanhos e contornos. Um grande balde guardava potinhos com amostras de tinta, havendo ali mais de dez cores e tons diferentes.

Hurley era especialista em obras de arte surrealistas. Suas pinturas surtiam o efeito de distorção da realidade. As obras pareciam existir apenas fisicamente, mas os traços delineados abriam um leque de imagens possíveis para cada ponto da pintura que se olhasse, como se os quadros mudassem de foma a cada ângulo diferente pelo qual se observava.

Hurley se inspirava para reproduzir Anna. Dimitri, Travis e Megan esperaram por uma hora, e depois mais outra. Ás duas da manhã, o pintor finalizou a obra e deu um suspiro de êxtase. Hurley se distanciou da tela recém-pintada uns 5 metros, e a olhou com intensidade. Deu um risinho. 

Dimitri pegou a tela e a pôs na frente do rosto.

- Calma, calma. Cuidado com a tela. O que achou, Anna? - perguntou o pintor. 
- Está perfeita. - disse ela, sorrindo e abraçando Hurley.
- Está perfeita, Hurley. - falou Dimitri.

O pintor então recolheu a tela e colocou a moldura em seus extremos. Limpou uma gota de tinta preta da moldura. E deu o quadro emoldurado a Anna.

- Obrigada, Hurley. - agradeceu novamente Anna.

Todos já estavam cansados, mas esperaram o pintor realizar a outra obra, retratando Alice. Demorou menos dessa vez. A presença física da pessoa retratada parecia causar um maior desafio para o pintor, como fora no caso de Anna. As emoções fluíam com mais sensibilidade, o pintor e a fonte de sua obra se interligavam. 

Com uma foto amassada, no caso do retrato de Alice, o resultado não proporcionou a mesma satisfação em Hurley. Porém, Travis pareceu achar o quadro com a imagem de sua filha a coisa mais deslumbrante que sua casa iria abrigar. O sorriso de Alice retratado pelo pintor surrealista iluminou Travis como se ele estivesse sendo abençoado por quem quer que seja. Se sentia mais orgulhoso do que imaginava poder sentir, em um dia que não pudera felicitar sua filha a não ser com um beijo, um abraço e um lanche de carne escura no pleno dia de seu aniversário. Mas esse quadro traria o sorriso da esperança para sua família novamente, e Travis ainda ingressaria em uma possível carreira de sucesso trabalhando nas oficinas de Mahri.

Então Dimitri, Travis, Anna e Megan se despediram do exímio pintor surrealista que se abrigava em uma cabana como um foragido, e que contava os 420 rublos que recebera do capitão de Mahri pelas suas obras de arte. O pintor gordo e de bigode torto passava as notas pelos dedos por uma série de vezes, e por fim fechou a mão e guardou-as no bolso. 

Ele acenou, deu um sorriso e viu seus quatro visitantes retornarem às sombras do corredor que levaria a ponte Therion novamente.

Anna e seu irmão agora voltavam para a fortaleza de mãos dadas. Dimitri abraçava o retrato de sua irmã com o outro braço. Megan permanecia em silêncio, apenas observando o que estivesse à sua frente e sentindo a brisa da noite bater em sua cara.

Já no quarto de Anna, a garota e seu irmão se afastavam da parede na qual fixaram a pintura. Optaram pela parede que dava de frente para quem entrava no quarto. Quem entrasse, daria de cara com o rosto iluminado de Anna, centrando aqueles dois olhos azul marinho, onde o observador se perdia dentro deles, onde parecia se ver uma linha fina lá no horizonte de um mar que terminava ao alcance da visão. 

Da mesma forma que Dimitri e Anna admiravam a obra naquele quarto iluminado dentro da fortaleza de Mahri, Alice abraçava seu pai na casa deles. Travis pensou ter feito bem em aceitar a oferta de Dimitri e poder presentear sua filha, mas se sentia bem melhor pelo que tinha de valor, que era o amor por sua filha e sua esposa e a sorte de ter cruzado com aquele capitão estranho em um dia tão fatídico quanto fora aquele.

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