segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Capitalizing Kids

Em 2003, apenas 8% das crianças influenciavam fortemente seus pais nas decisões de compra. Hoje, 49% participam desse processo de forma intensa e, segundo diversos estudos, esse índice passará a ser de 82%.

As crianças não exercem apenas o papel de influenciadas. Elas são potenciais influenciadoras. Elas gastam seu próprio dinheiro em produtos e serviços, fruto de sua mesada. Essas crianças representam um mercado colossal em crescimento, em que o adulto consumidor de amanhã é a criança de hoje. 

O maior problema da publicidade e da propaganda dirigidas às crianças em geral é que elas criam um jogo sujo: colocando as crianças contra os pais; lhes dando poder em equivalência a de seus responsáveis.

Os pais (já bem inseridos nessa sociedade capitalista, sujeitos aos estímulos, manipulações e malandragens midiáticas), entram nesse jogo; se sentem pressionados, e ao mesmo tempo familiarizados ante a assustadora semelhança de suas condutas de consumo com a de seus filhos.

A partir da gradual inserção das crianças no universo capitalista do qual seus pais fazem parte, as mesmas também se sentem parte integrante de uma cultura infantil comum. Cultura alinhada ao capitalismo inevitável. Cultura baseada no consumismo como premissa; no poder como requisito que deve ser seguido. 


As crianças percebem nesse jogo que vão ganhando mais status e reconhecimento social; mas vão perdendo sua infância na mesma velocidade a que se adequam a padrões de consumo globalizados, estigmatizados.


A relação entre pais e filhos passa a ser intermediada não por emoção, respeito e empatia, mas sim por objetos materiais e o que for necessário para adquiri-los. Essa ambientação familiar material impulsiona a criança na direção de um mundo que diz que o sucesso vêm da posse de recursos, vem do verbo ter. Essa ambientação oferece à criança uma ilusão de poder, de fazer parte de algo que ela julga ser maior que seus valores familiares, ou até de seus próprios valores.


As crianças aprendem a trocar coisas, a barganhar por algo e a buscar sempre uma condição de favorecimento. Só que sentindo-se favorecidas, e na mesma medida, satisfeitas nessa condição poderosa, elas perdem intimidade e carisma. Reduzem suas percepções de empatia. Degradam suas relações sociais íntimas e diminuem sua capacidade de comunicação afetiva e harmoniosa de que tanto necessitam nessa fase de suas vidas, e de que tanto precisarão no futuro.


Sobre o mundo baseado em consumo e poder como oxigênio e as crianças que o respiram, dois documentários são bem interessantes:


- Um deles, "Criança, a Alma do Negócio" de Estela Renner, há vários flagrantes de enganosidade e abusividade com crianças.


- Outro, chamado "Consuming Kids: The Commercialization of Childhood", centra-se no crescimento explosivo do marketing infantil, na esteira da desregulamentação, mostrando como os comerciantes jovens têm usado os últimos avanços da psicologia, antropologia e neurociência para transformar crianças americanas (e de outras partes do mundo, é óbvio) em consumidores rentáveis e poderosos.


E esse marketing infantil não possui um direcionamento limitado. Pelo contrário, ele está literalmente por toda parte. No ônibus escolar, nas salas de aula, nos telefones celulares, na internet, nos murais dos corredores dos colégios, nas lanchonetes e cantinas, no cinema e em teatros, nas igrejas e se bobear, no céus e embaixo da terra também.


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