segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Os Miseráveis e a Catarse Social

Em 'Os Miseráveis', Victor Hugo expõe a miséria e a frieza moral da sociedade francesa do século XIX, fazendo uma crítica a desigualdade existencial e a pobreza social daquela época, retratando uma França como praça da escória humana.

No filme musical 'Os Miseráveis'(2012), essa exposição crítica de Victor Hugo à injustiça social é feita de forma bastante interessante. Praticamente todo diálogo do filme é cantado; a cada cena os personagens interpretam uma música que, ao final do filme, se combinam em uma perfeita canção que combina com a realidade: o inferno da desigualdade e da injustiça social. Inferno que ainda está presente em nossos tempos.

Em alguns diálogos musicais do filme, fica bem clara a percepção crítica do autor a fatores como a pobreza, as drogas e a prostituição como condições divinas e necessárias, a falta de caráter, a perda do senso de compaixão e submissão ao poder.

Mas nem tudo no filme são espinhos.

O filme cativa do início ao fim por mostrar também o outro lado da moeda.

O amor, a perseverança, a compaixão, a fraternidade e o senso comunitário fazem parte do drama que acende uma chama de otimismo e esperança em 'Os Miseráveis'. Vale a pena assistir ao filme, mesmo pra quem odeia musicais, como eu.

A seguir algumas dessas passagens reveladoras dessa realidade não superada:


Escravidão


Escravos puxando as cordas de um navio, cantando juntos em serviço:

"Olhe pra baixo, olhe pra baixo, não olhe nos olhos deles
Olhe pra baixo, olhe pra baixo, ficará aqui até morrer"

"Não há Deus lá em cima, somente o inferno lá embaixo
Olhe pra baixo, olhe pra baixo, são 20 anos pela frente, não fiz nada de errado"

"Amado Jesus, ouça minha prece
Olhe pra baixo, olhe pra baixo
O amado Jesus não quer saber"

"Sei que ela vai me esperar, sei que ela me será fiel
Olhe pra baixo, olhe pra baixo
Elas esqueceram de vocês"

"Quando eu sair, vocês não me verão virar pó aqui
Olhe pra baixo, olhe pra baixo
Está sobre a própria cova"


Ilusão de Liberdade


O ex-prisioneiro Jean Valjean, de tanta submissão e servidão em seus 20 anos preso, não acredita mais na liberdade:

"Amado Jesus, o que eu fiz?
Tornei-me um ladrão na noite, um cão fugitivo"

"Será que cai tão fundo, e que já é tão tarde
Que nada mais resta além do meu grito de ódio?"

"Os gritos no escuro que ninguém ouve
Aqui onde me encontro nesse momento da vida"

"Se havia outro caminho a seguir, eu o perdi há 20 longos anos
A minha vida foi uma guerra perdida"

"Ao me acorrentarem e me entregarem à morte
Só porque roubei um punhado de pão"

"Só consigo sentir ódio pelo mundo
Esse mesmo mundo que sempre me odiou"

"É olho por olho, foi assim que eu vivi, é só isso o que conheço
Aos açoites, todo aquele sofrimento"

"Agora, em vez disso, me oferecem a liberdade
Sinto a vergonha me rasgando como uma faca"

"Que espírito comove a minha vida?"

"Há outro caminho a seguir?
Estou tentando, mas eu caio, pois a noite é inevitável"

"Enquanto olho esse vazio, o rodamoinho dos meus pecados
Mas agora escaparei daquele mundo, o mundo de Jean Valjean"

"O Jean Valjean não é nada agora
Outra história precisa começar"


Pobreza e Fome


Mães nuas no meio da rua emprestando as vestes a seus bebês, mendigos encostados na parede e garotos com medo nos olhos cantam em grupo:

"Ao final do dia, fica-se apenas mais velho
É tudo o que se pode dizer da vida dos pobres"

"É uma luta, é uma guerra, ninguém dá nada a ninguém
Mais um dia à toa, pra quê?"

"Um dia a menos pra viver
Ao final do dia, sente-se apenas mais frio"

"E a camisa que se veste não afasta a friagem
Homens de bem passam apressados, sem ouvir as crianças que choram"

"E a praga se aproxima pronta para matar, um dia mais perto da morte
Ao final do dia há apenas outro dia a raiar, o sol da manhã esperando despontar"

"Como as ondas que quebram na areia, e a tempestade que se precipita
A fome arrebata a terra, e há contas a serem prestadas"

"E será um inferno pagá-las no final do dia, ao final do dia que nada recebe se nada fez."


Exploração e Desigualdade



Homens e mulheres. Máquinas humanas trabalhando nas fábricas, cantam no mesmo ritmo:


"Ficar aí sentado não vai pagar nem o pão
Ficar aí sentado é morrer"

"Há crianças em casa que precisam ser alimentadas
Ao final do dia, apenas mais um dia findou"

"E no bolso o suficiente pra não durar uma semana
Pagar o senhorio e trabalhar enquanto aguentar"

"Trabalhar até cair ou voltar a viver de migalhas
Tem que pagar se quiser sobreviver no fim do dia."


Passagens de: 'Os Miseráveis' (2012), Direção: Tom Hooper; Com: Russell Crowe, Hugh Jackman, Anne Hathaway.


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